A Trindade

A natureza do Espírito Santo é um mistério?

A natureza do Espírito Santo é um mistério
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Entre os textos de Ellen White que circulam contra a doutrina da Trindade, nenhum tem ar tão modesto quanto este: “A natureza do Espírito Santo é um mistério.” A frase está em Atos dos Apóstolos e, quase com as mesmas palavras, numa carta de 1891, e o argumento que se tira dela parece irrespondível. Se a natureza do Espírito não foi revelada, chamá-Lo de “terceira pessoa da Divindade” seria saber mais do que Deus quis contar.

Marcio Redondo, num artigo intitulado “Ellen White rejeitava a Trindade”, leva o raciocínio adiante. Depois de transcrever a definição de ‘natureza’ do dicionário Houaiss, escreve: “Quais seriam, então, essas ‘qualidades originais, constitucionais ou nativas’ do Espírito Santo? Se ele é Deus, então a qualidade principal é sua divindade. Nesse caso, a natureza do Espírito Santo é divina. Mas a Ellen afirma que não é ‘essencial … definir exatamente o que o Espírito Santo é’. Note que ela não diz ‘definir … quem o Espírito Santo é’, mas ‘definir … o que o Espírito Santo é’. Isso revela que a Ellen não considerava o Espírito de Deus uma pessoa, mas uma coisa. Se eu perguntar ‘quem você é?’, o sentido é um. Mas se perguntar ‘o que você é?’, o sentido é outro.

São dois argumentos, e merecem ser levados a sério, não por cortesia. O primeiro diz que chamar o Espírito de Deus já seria declarar Sua natureza e, com isso, desmentir a frase sobre o mistério. O segundo tira do “o que” a conclusão de que o Espírito é uma coisa. E a questão é real, porque Ellen White escreveu as duas frases, a da “terceira pessoa” e a do “mistério”. Redondo, além disso, acerta num ponto que muitos de seus adversários deixariam passar: “quem” e “o quê” são, de fato, perguntas diferentes. O erro está no que ele conclui disso, e o melhor lugar para vê-lo é a carta onde a frase surgiu.

Um irmão chamado Chapman

Em junho de 1891, um irmão chamado Chapman escreveu a Ellen White contando que o pastor Robinson não o enviaria a pregar enquanto ele não mudasse ou modificasse alguns pontos que defendia. Os pontos eram dois: os 144 mil seriam judeus que reconheceriam Jesus como o Messias; e o Espírito Santo, nas palavras do próprio Chapman, não era “o Espírito de Deus, que é Cristo, mas o anjo Gabriel” (Carta 7, 1891, em Manuscript Releases, v. 14, p. 175). Se Chapman esperava uma aliada, não a encontrou. A resposta de Ellen White, datada de 11 de junho, diz: “Suas ideias sobre os dois assuntos que você menciona não se harmonizam com a luz que Deus me deu. A natureza do Espírito Santo é um mistério não claramente revelado, e você jamais será capaz de explicá-la a outros, porque o Senhor não a revelou a você. Você pode juntar passagens da Escritura e pôr sobre elas a sua construção, mas a aplicação não é correta. […] Não é essencial que você saiba e seja capaz de definir exatamente o que o Espírito Santo é. (Manuscript Releases, v. 14, p. 179; tradução minha)

Repare no que a carta faz antes de falar em mistério. Ellen White não suspende o juízo nem declara a questão aberta a todas as opiniões; diz a Chapman que ele está errado. O mistério não a impediu de saber o que o Espírito Santo não é. E o que a carta censura, visto de perto, não é que Chapman tratasse o Espírito como alguém; nada nela toca nesse ponto. Censura que ele dissesse exatamente qual alguém: uma criatura conhecida, com nome próprio, que aparece em Daniel e em Lucas. É o que a carta descreve como juntar passagens e pôr sobre elas uma construção, e é a isso, no contexto, que ela chama definir exatamente o que o Espírito é.

Quem e o quê

Comecemos pelo segundo argumento de Marcio Redondo. Perguntar “quem você é?” e “o que você é?” não é a mesma coisa, mas a segunda pergunta não transforma em coisa aquele a quem se dirige. O salmista a faz a respeito de nós: “Que é o homem, que dele te lembres? E o filho do homem, que o visites?” (Salmo 8:4).

O termo hebraico diz mah, “o quê”, e não mi, “quem”. A Epístola aos Hebreus, ao citar o salmo, conserva o neutro grego ti (Hebreus 2:6). Daí não se conclui que o homem seja uma coisa. Feita sobre alguém, a pergunta “o quê” indaga a natureza, o tipo de ser e o modo de existir, e deixa intacto o fato de que há alguém ali.

O primeiro argumento é mais sério. Se natureza é, como na definição que Redondo transcreve, a “combinação específica” das qualidades de um ser, chamar o Espírito de Deus não seria declarar essa natureza? A resposta está numa palavra que ele próprio cita e, no contraste seguinte, troca por reticências: o que não é essencial é definir exatamente o que o Espírito é. Saber que alguém é divino não é conhecer a combinação específica das Suas qualidades. É saber de que lado da linha entre o Criador e a criatura Ele está, e esse lado é justamente o do que excede toda definição. Se dizer “Deus” equivalesse a definir uma natureza, ninguém poderia chamar o Pai de Deus sem pretender ter decifrado o Pai. Chamar o Espírito de divino não dissolve o mistério; diz onde ele mora. O mesmo vale para “pessoa”, que situa o Espírito entre os que agem, e não entre as coisas que são movidas, sem dizer o que Ele é por dentro.

Ellen White, aliás, dizia que o Espírito é pessoa e é divino sem ver nisso contradição alguma com o mistério, e chegava a essas afirmações pelo que a Escritura diz que o Espírito faz. Em 1906, ela escreveu: “O Espírito Santo tem personalidade, do contrário não poderia testificar ao nosso espírito e com nosso espírito que somos filhos de Deus. Deve ser também uma pessoa divina, do contrário não poderia perscrutar os segredos que jazem ocultos na mente de Deus.” (Manuscrito 20, 1906, em Evangelismo, cap. 18, p. 617)

O raciocínio é o de Romanos 8:16 e de 1 Coríntios 2:10, e vai do ato ao agente: testificar ao nosso espírito e sondar as profundezas de Deus são coisas que a Escritura atribui ao Espírito, e Ellen White as lê como atos de alguém. Chapman também lia esses textos; a diferença está no que cada um tirou deles. Ele tirou uma identidade que nenhum texto enuncia. Já Ellen White tirou, dos atos que os textos atribuem ao Espírito, apenas que há alguém agindo e que esse alguém é divino. O primeiro procedimento termina numa definição; o segundo, num reconhecimento, e é o reconhecimento que ela trata como revelado.

O parágrafo de 1911 tem o mesmo desenho. Eis o texto inteiro: “Não é essencial que sejamos capazes de definir exatamente o que seja o Espírito Santo. Cristo nos diz que o Espírito é o Consolador, o “Espírito de verdade, que procede do Pai”. João 15:26. É declarado positivamente, a respeito do Espírito Santo, que, em Sua obra de guiar os homens em toda a verdade, “não falará de Si mesmo”. João 16:13. A natureza do Espírito Santo é um mistério. Os homens não a podem explicar, porque o Senhor não lhes revelou. Com fantasiosos pontos de vista, podem-se reunir passagens da Escritura e dar-lhes um significado humano; mas a aceitação desses pontos de vista não fortalecerá a igreja. Com relação a tais mistérios — demasiado profundos para o entendimento humano — o silêncio é ouro.” (Atos dos Apóstolos, cap. 5, p. 28)

O mistério vem cercado do que foi dito com clareza. Antes dele, o Espírito é o Consolador, procede do Pai e “não falará de Si mesmo”; logo depois, Ellen White lembra que “a função do Espírito Santo é distintamente especificada nas palavras de Cristo”, e as palavras citadas dizem que, quando vier, Ele “convencerá o mundo do pecado”. E o título com que o parágrafo começa, Consolador, traduz paráclito, a palavra com que João chama o próprio Cristo de “Advogado” junto ao Pai (1 João 2:1); não por acaso, Jesus prometeu “outro Consolador” (João 14:16). Um cobertor pode confortar, mas advogado, só alguém pode ser.

Duas frases, mesma autora

Há, contudo, um argumento que fecha a questão, sem precisarmos recorrer a gramática. Ellen White publicou as duas frases, e publicou-as comentando o mesmo trecho do Evangelho. Em 1898, no capítulo de O Desejado de Todas as Nações dedicado às promessas do Consolador em João 14 a 16, escreveu que ao pecado só se poderia resistir e vencer “por meio da poderosa operação da terceira pessoa da Divindade, a qual viria, não com energia modificada, mas na plenitude do divino poder” (cap. 73, p. 475). O original diz the third person of the Godhead; algumas edições traduzem “Trindade”, palavra que Ellen White não usa aqui, mas o argumento não depende dela. Uma página adiante, a mesma autora escreve: “Não podemos usar o Espírito Santo. Ele é que deve servir-Se de nós” (p. 476). De uma força nos servimos; só alguém se serve de nós.

Treze anos depois, em 1911, saiu Atos dos Apóstolos, com o parágrafo sobre o mistério, comentando a mesma promessa do Consolador. Ellen White estava viva, escrevendo e respondendo pelo que saía com o seu nome, e O Desejado continuava em circulação. Se a frase de 1911 revogasse a de 1898, a autora das duas não percebeu, e seria curioso que justamente ela não percebesse.

O que essa convivência demonstra é o que está em disputa aqui: o mistério da natureza do Espírito não impedia Ellen White de chamá-Lo de terceira pessoa da Divindade e, portanto, não pode ser invocado em nome dela contra essa mesma expressão. Não demonstra, por si só, que a doutrina da Trindade seja bíblica; essa é outra questão, e o conjunto do que ela escreveu sobre a Divindade, com a acusação de que tais textos teriam sido adulterados, está examinado em “Ellen White e a Trindade”. Mas desarma o argumento de Redondo: nas mãos da autora, a frase sobre o mistério não pode significar o contrário do que a mesma mão deixou impresso.

Por que repetir a advertência?

A objeção mais séria nasce daí, e Vasko Belovski, para quem o Espírito é “a onipresença do Espírito de Cristo”, a formula bem: se a compreensão de Ellen White sobre quem é Deus tivesse mudado depois de 1898, por que ela continuaria pedindo, como pedira a Chapman, que não se discutisse a natureza do Espírito Santo? A pergunta é boa, e a resposta está nos anos que separam os dois livros.

Em 1904, S. N. Haskell, um dos homens mais próximos de Ellen White, publicou um artigo intitulado “Who Is Melchisedec?”, no qual perguntou se o rei-sacerdote de Gênesis 14 não seria o anjo Gabriel, e respondeu que não, “pois os anjos são seres criados e, portanto, tiveram princípio de dias”. Restava, segundo ele, uma única figura que preenchia todos os requisitos: o Espírito Santo, “a terceira pessoa da Divindade”. Melquisedeque seria o Espírito.

Haskell descartou a resposta de Chapman e repetiu o erro dele com melhor pedigree. Tomou a expressão de Ellen White como degrau para uma identificação que o texto dela não contém e fez o que o parágrafo de Atos descreve: reuniu passagens da Escritura e lhes deu um significado humano. Não sabemos se Ellen White tinha esse artigo em vista quando o parágrafo da carta reapareceu, quase frase por frase, em Atos dos Apóstolos; o livro não nomeia ninguém, e seria desonesto fingir que nomeia. O caso, porém, responde à pergunta de Belovski: a advertência continuava necessária depois de 1898 porque a expressão “terceira pessoa” não vacinava contra a especulação.

Isso obriga a dar ao adversário o que é dele: a advertência alcança também o trinitário. Agostinho sugeriu, no livro XV de A Trindade, que o Espírito seria, por excelência, o amor comum ao Pai e ao Filho; a escolástica explicou que o Filho procede do Pai pela via do intelecto e o Espírito pela via da vontade (Tomás de Aquino, Suma Teológica, I, q. 27). Cada uma dessas construções responde, com mais ou menos cautela, à pergunta que Ellen White deixou fechada, e o trinitário que lê Atos dos Apóstolos com honestidade deve sentir o parágrafo na própria pele. O que ele pode afirmar com ela é que o Espírito é alguém, que é divino e que é distinto do Pai e do Filho (a distinção em relação ao Filho é o tema de “O Espírito Santo é Jesus ou outro ser divino?”). O que Ele é em Si mesmo, e como Se relaciona com o Pai e o Filho no próprio ser, fica onde ela o deixou.

O silêncio de ouro

Redondo extrai da frase sobre o mistério a conclusão de que, para Ellen White, o Espírito seria “uma coisa”; isto é, tira a natureza do Espírito justamente da declaração de que essa natureza não foi revelada, e põe na boca da autora a definição que ela diz não ter. Belovski segue o caminho de Chapman. O Espírito, diz ele, “não é um anjo nem outro ser individual como o Pai e o Filho, mas a onipresença do Espírito de Cristo”: troca-se Gabriel por Cristo, e o gesto continua o de identificar o Espírito com alguém já conhecido. Chapman dizia Gabriel; Haskell, Melquisedeque; Belovski, a onipresença do Espírito de Cristo. Muda o nome, e o procedimento é o mesmo.

O silêncio que Ellen White recomendou tem lugar marcado. Não recai sobre o que a Escritura diz que o Espírito faz, nem sobre o que ela mesma concluiu disso, que Ele é uma pessoa divina; recai sobre a pretensão de dizer exatamente o que Ele é, ou com quem coincide. Por isso a frase não serve ao uso que se faz dela. Chamar o Espírito de coisa, ou reduzi-Lo à presença de outro, não é guardar o silêncio de ouro; é quebrá-lo no ponto preciso em que ela pediu que fosse guardado.


Referências e fontes

Ellen G. White, Carta 7, 1891 (ao irmão Chapman, 11 de junho de 1891), em Manuscript Releases, v. 14 (Silver Spring: Ellen G. White Estate, 1990), p. 175-180. Contexto e citação em Merlin D. Burt, “Ellen White and the Personhood of the Holy Spirit”, Ministry, abril de 2012: https://www.ministrymagazine.org/archive/2012/04/ellen-white-and-the-personhood-of-the-holy-spirit

Ellen G. White, Atos dos Apóstolos (Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2007), cap. 5, “O dom do Espírito”, p. 28. Texto também em: https://ellenwhite.cpb.com.br/livro/index/5/47/56/o-dom-do-espirito

Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações (Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2007), cap. 73, “Não se turbe o vosso coração”, p. 475-476. Texto também em: https://ellenwhite.cpb.com.br/livro/index/4/662/684/nao-se-turbe-o-vosso-coracao

Ellen G. White, Evangelismo (Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2007), cap. 18, “Lidar com a falsa ciência, e com os falsos cultos, ismos e sociedades secretas”, p. 617. Texto também em: https://ellenwhite.cpb.com.br/livro/index/47/589/627/lidar-com-a-falsa-ciencia,-e-com-os-falsos-cultos,-ismos-e-sociedades-secretas

S. N. Haskell, “Who Is Melchisedec?”, The Bible Training School, 1º de novembro de 1904, p. 85-86: https://documents.adventistarchives.org/Periodicals/BTS/BTS19041101-V03-06.pdf

Marcio Redondo, “Ellen White rejeitava a Trindade”, 22 de agosto de 2020: https://adventismo.com.br/2020/08/ellen-white-rejeitava-a-trindade/

Vasko Belovski, “The Identity of the Holy Spirit and the Chapman Letter – Transcript”, Seventh Day Press, 6 de maio de 2021: https://seventhdaypress.org/the-identity-of-the-holy-spirit-and-the-chapman-letter-transcript/

Nota: As páginas dos livros de Ellen White seguem as edições de 2007 da CPB. O site da editora usa outra edição, com paginação diferente; em qualquer edição, o trecho pode ser localizado pelo capítulo. As citações de textos em inglês (Carta 7, 1891; Haskell; Belovski) foram traduzidas por mim.

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Graduando em História pela Universidade Estácio de Sá e estudioso de Teologia, defende a premissa de que o conhecimento se torna verdadeiramente valioso quando compartilhado. Junte-se a mim nessa jornada!

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