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A Trindade

Ellen White e a Trindade

Ellen White e a trindade
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Há décadas uma grave acusação circula por púlpitos, panfletos e, mais recentemente, pelas redes sociais e grupos de mensagem: a Igreja Adventista teria alterado os escritos de Ellen White para fazê-la parecer trinitária. A história costuma ser contada mais ou menos assim: Ellen White nunca creu na Trindade. Muitos dos pioneiros adventistas também não criam e, mais do que isso, viam a doutrina como uma invenção papal estranha à fé bíblica. As declarações trinitárias que hoje encontramos nos escritos dela não poderiam, portanto, ter sido escritas por ela. Compiladores, secretárias e líderes da Igreja as teriam acrescentado depois de sua morte — ou ainda nos últimos anos de sua vida, quando sua idade avançada teria facilitado alterações que ela já não teria condições de perceber.

Ora, se isso aconteceu, estamos diante de algo muito sério. Não seria apenas o caso de uma igreja ter mudado sua teologia ao longo do tempo. Estaríamos falando de pessoas que alteraram os escritos de uma autora que os próprios adventistas consideram inspirada para fazê-la ensinar uma doutrina na qual nunca acreditou. Uma acusação assim não pode simplesmente ser descartada porque sua conclusão nos desagrada.

E penso que também seria um erro atribuí-la, em sua maioria, à má-fé. Existe uma preocupação histórica compreensível por trás dela. Os antitrinitários adventistas olham para os primeiros anos do movimento e encontram homens que rejeitavam abertamente a Trindade. Temem, então, que a Igreja tenha se afastado daquela fé original e se aproximado justamente das formulações credais que os pioneiros consideravam uma contaminação da fé apostólica. Querem preservar a identidade doutrinária do movimento e aquilo que entendem ser a clara distinção bíblica entre o Pai e o Filho.

Mas daí não podemos concluir que a acusação de adulteração seja verdadeira. Esse é o ponto que precisa ser examinado. Uma coisa é mostrar que muitos pioneiros adventistas eram antitrinitários. Isso é um fato histórico e não há razão para escondê-lo. Outra coisa é concluir que Ellen White permaneceu antitrinitária e que, sempre que seus escritos parecem dizer o contrário, alguém necessariamente interferiu no texto. Para chegar a essa conclusão, é preciso mais do que apontar para as crenças de James White, Joseph Bates, J. N. Andrews ou Uriah Smith. É preciso descobrir o que ela própria escreveu, e é nesse ponto que a investigação ganha corpo.

Quando acompanhamos suas declarações ao longo dos anos e depois examinamos a acusação de adulteração à luz dos documentos, surge um quadro muito diferente. Antes, porém, quero deixar clara uma distinção que acompanhará toda a discussão: Ellen White não é o fundamento da doutrina da Trindade. A pergunta sobre a natureza de Deus precisa ser respondida, antes de tudo, pelas Escrituras. Se a Bíblia não ensinasse a Trindade, nenhuma declaração de quem quer que seja poderia transformá-la em verdade bíblica. A questão aqui é outra. Se alguém invoca Ellen White contra a Trindade, então precisamos perguntar: isso corresponde ao que ela realmente ensinou?

E, se seus escritos maduros atribuem plena divindade e eternidade a Cristo, personalidade divina ao Espírito Santo e falam de três Pessoas divinas, resta ainda uma segunda pergunta: há alguma evidência histórica séria de que essas declarações não sejam realmente dela?

Parte I: O adventismo e a Trindade — um arco histórico necessário

As raízes antitrinitárias do adventismo primitivo

Começo essa parte reconhecendo aquilo que os antitrinitários afirmam com razão: muitos dos pioneiros adventistas eram antitrinitários. Joseph Bates e James White, por exemplo, vieram da Christian Connection, uma igreja que rejeitava a doutrina da Trindade; James White havia sido, inclusive, ministro ordenado dela.

Mas o que exatamente esses pioneiros entendiam por Trindade ao rejeitá-la? Em 1855, James White escreveu que a doutrina “anula a personalidade de Deus e de Seu Filho Jesus Cristo”. Joseph Bates, em 1868, explicou que lhe era impossível crer que o Filho fosse também o Pai, um e o mesmo ser. J. N. Loughborough objetava que a Trindade era contrária ao senso comum e tinha origem pagã, enquanto R. F. Cottrell a associava à exaltação do bispo de Roma.

Repare no alvo dessas objeções. James White e Bates parecem estar combatendo uma concepção segundo a qual a distinção entre o Pai e o Filho desaparecia: o Filho seria, em última análise, o próprio Pai, e as três pessoas da Divindade seriam reduzidas a uma única pessoa. Acontece que isso não é o que a doutrina trinitária histórica ensina. Essa concepção é muito mais próximo do modalismo — posição que os próprios trinitários rejeitam. Nesse sentido, pelo menos parte da crítica dos pioneiros não atingia propriamente a Trindade, mas uma compreensão equivocada dela. A objeção de James White em 1855, considerada em sua estrutura lógica, era essencialmente antimodalista.

Seria um erro, porém, parar por aqui e concluir que todas as objeções dos pioneiros resultavam simplesmente de uma definição inadequada. Algumas atingiam de fato a doutrina trinitária. J. N. Andrews sustentou que o Filho “em algum ponto da eternidade passada teve um princípio de dias”. Uriah Smith foi ainda mais explícito: em 1865, chamou Cristo de “o primeiro ser criado”. Isso vai muito além de tentar separar a figura do Pai e do Filho. Essa é uma visão abertamente semiariana, na qual Cristo simplesmente não é eterno nem autoexistente como o Pai.

Havia ainda uma preocupação soteriológica por trás dessa resistência. Muitos temiam que, se Cristo fosse verdadeiramente o Deus autoexistente, Ele não poderia ter morrido no Calvário. E, se sua divindade não pudesse morrer, pensavam eles, então quem teria morrido na cruz seria apenas o homem Jesus, de modo que o sacrifício acabaria reduzido a um sacrifício meramente humano. Para esses pioneiros, portanto, rejeitar a plena igualdade ontológica entre o Pai e o Filho parecia preservar a realidade da expiação.

Esse era o ambiente teológico em que apareceram os primeiros escritos de Ellen White, e isso importa para o que veremos a seguir. Nos anos iniciais, ela não entrou numa exposição sistemática da natureza de Deus nem resolveu explicitamente as controvérsias cristológicas que existiam ao seu redor.

O problema aparece, portanto, quando esse silêncio inicial é tratado como se fosse uma afirmação doutrinária. Os escritos antigos, nos quais ela ainda não enfrentava diretamente a questão, passam a ser tomados como prova de antitrinitarismo; os escritos maduros posteriores, nos quais sua linguagem se tornou explícita, passam então a ser tratados como corrupção.

O dilema do desenvolvimento profético

Mas aí vem o argumento que costuma balançar muita gente. Se Ellen White era profetisa, dizem, por que precisaria amadurecer justamente em uma questão tão importante quanto a natureza de Deus? O argumento costuma ser colocado assim: “Ou o Espírito Santo lhe revelou a verdade desde o início — e então seus primeiros escritos devem ser tomados como definitivos — ou ela precisou corrigir sua teologia ao longo do tempo, e nesse caso não poderia ter sido profetisa.”

À primeira vista, o dilema parece bastante forte. Mas não é. Ele pressupõe uma ideia de inspiração que o próprio texto bíblico não sustenta.

A revelação profética pode ser progressiva. Os apóstolos são talvez o exemplo mais evidente. Durante anos eles pregaram o evangelho sem compreender todas as implicações da mensagem que anunciavam. Foi preciso chegar ao Concílio de Jerusalém, em Atos 15, para que a Igreja resolvesse uma questão que tocava diretamente a entrada dos gentios na comunidade cristã. Pedro, por sua vez, precisou da visão em Jope para compreender plenamente algo que o próprio Cristo já havia colocado diante dele. Nada disso fez dos apóstolos falsos mensageiros. Mostra apenas que Deus não transforma seus profetas em enciclopédias teológicas instantâneas. Ele os conduz no tempo, ampliando sua compreensão à medida que a revelação avança.

E temos uma boa razão para aplicar esse princípio a Ellen White, porque algo semelhante aconteceu em outro assunto de seus próprios escritos. Em 1858, ela afirmou que, se Deus quisesse que Seu povo se abstivesse da carne de porco, Ele mesmo o convenceria disso. Dez anos depois, sua posição era diferente: passou a escrever que o uso dessa carne contrariava uma ordem expressa de Deus. Bem, o que devemos fazer com essa mudança? Dificilmente alguém concluiria que os Testemunhos foram adulterados entre 1858 e 1868 sobre isso. O modo natural de entendê-la é como desenvolvimento — aquilo que Ellen White frequentemente descrevia pela imagem da “luz crescente” de Provérbios 4:18.

Isso é importante porque delimita exatamente o que o argumento pode provar. O caso da carne de porco não demonstra, por si só, que Ellen White passou por um desenvolvimento semelhante em sua compreensão da natureza de Deus. Seria ir além da evidência. O que ele demonstra é algo mais modesto, mas suficiente para responder à objeção: desenvolvimento doutrinário não é incompatível com a pretensão profética.

Portanto, quem quiser sustentar que qualquer desenvolvimento na compreensão de Ellen White sobre a Divindade destruiria necessariamente sua autoridade profética terá primeiro de explicar por que o mesmo princípio não se aplica ao caso da carne de porco. O dilema, então, deixa de ser: “ou ela soube tudo desde o início, ou não era profetisa”. Essa simplesmente não é a maneira como a revelação bíblica funciona.

Parte II: O que Ellen White realmente ensinou

A eternidade e plena divindade do Filho

Quando vamos aos escritos maduros de Ellen White, fica praticamente impossível encaixar a cristologia dela em qualquer ideia semiariana. Cristo aparece neles como plenamente divino e eterno. E não se trata de uma única frase isolada, retirada de uma compilação tardia. As declarações se estendem por mais de três décadas e aparecem em publicações diferentes.

Já em 1872, Ellen White relacionava diretamente a divindade de Cristo ao valor de Sua expiação: “O divino Filho de Deus era o único sacrifício de valor suficiente para satisfazer plenamente os reclamos da perfeita lei de Deus.” Mas o detalhe mais importante aparece no contraste que ela fez logo em seguida. Os anjos, disse ela, “eram seres criados, sujeitos à prova”; sobre Cristo, porém, “não haviam sido postos requisitos”.

Nos anos seguintes, a linguagem se tornou ainda mais explícita. Em 1878, Cristo, o autor da salvação do homem, foi chamado de “o eterno Filho de Deus”. Em 1881, ela descreveu Sua obra como a de “empreender a ligação do criado com o Incriado, do finito com o Infinito, em Sua própria pessoa divina”. A formulação é significativa: Cristo não aparece do lado do criado tentando alcançar o Incriado. Em Sua própria pessoa, Ele une os dois. E, em 1887, ela escreveu sem qualquer ambiguidade: “O Verbo eterno consentiu em tornar-Se carne! Deus tornou-Se homem.”

Então chegamos a 1890 e 1893, quando aparecem duas declarações ainda mais diretas: “O Redentor do mundo era igual a Deus. Sua autoridade era a autoridade de Deus. Declarou que não possuía existência separada da do Pai”Review and Herald, 7 jan. 1890.

Três anos depois: “’Eu e o Pai somos Um.’ As palavras de Cristo estavam cheias de profundo significado ao declarar que Ele e o Pai eram um em substância, possuindo os mesmos atributos”Signs of the Times, 27 nov. 1893.

A expressão um em substância é especialmente significativo. Na teologia trinitária clássica, “substância” é o termo preciso para designar a natureza divina comum ao Pai e ao Filho. Não parece razoável tratá-lo como um simples deslize de linguagem, sobretudo porque a própria frase explica o que Ellen White quer dizer: Pai e Filho possuem os mesmos atributos.

Mas foi em 1897, um ano antes da publicação de O Desejado de Todas as Nações, que foi feita uma das declarações que mais pesariam na discussão adventista sobre a natureza de Cristo. Em um artigo do Signs of the Times, posteriormente reunido em Mensagens Escolhidas, ela escreveu: “A vida de Cristo, porém, não era de empréstimo. Ninguém pode arrebatar-Lhe essa vida. ‘Eu de Mim mesmo a dou’, disse Ele. NEle havia vida, original, não tomada por empréstimo, não derivada”Mensagens Escolhidas, vol. 1, p. 278 (Signs of the Times, 8 abr. 1897).

A força da afirmação está precisamente nos qualificativos. A vida de Cristo não é apenas eterna; ela é original, não tomada por empréstimo e não derivada. Isso terá importância especial quando examinarmos a questão da aseidade do Filho adiante.

Em 1906, porém, Ellen White ofereceu talvez sua formulação mais completa. Em um artigo publicado no Review and Herald, posteriormente incluído em Mensagens Escolhidas, ela escreveu: “A Palavra existiu como ser divino, a saber, o eterno Filho de Deus, em união e unidade com Seu Pai. Desde a eternidade era Ele o Mediador do concerto. […] Antes de serem criados homens ou anjos, a Palavra estava com Deus, e era Deus. […] Cristo era, essencialmente e no mais alto sentido, Deus. Estava Ele com Deus desde toda a eternidade, Deus sobre todos, bendito para todo o sempre”Mensagens Escolhidas, vol. 1, p. 233.

E, no mesmo contexto: “O Senhor Jesus Cristo, o divino Filho de Deus, existiu desde a eternidade, como pessoa distinta, mas um com o Pai. […] Isto não era usurpação em relação a Deus”Mensagens Escolhidas, vol. 1, p. 233.

Observe com cuidado a maneira como ela organizou suas expressões temporais. No mesmo parágrafo, disse primeiro que Cristo existia “antes de serem criados homens ou anjos”. Isoladamente, um semiariano poderia acomodar essa frase: Cristo poderia ter vindo à existência antes de toda a criação posterior e ainda assim ter tido um começo.

Mas Ellen White não parou aí. Ela acrescenta que Cristo estava com Deus “desde toda a eternidade” e que “existiu desde a eternidade”. Essas expressões já não deixam espaço para o mesmo recurso. A primeira declaração coloca Cristo antes de qualquer criatura; a segunda retira qualquer limite temporal de Sua própria existência. E essa diferença é decisiva. Dizer que Cristo existia antes dos anjos apenas nos diz quão antiga é Sua existência. Dizer que Ele existia desde toda a eternidade nos diz algo muito mais forte: que não houve um momento anterior a Jesus.

A aseidade do Filho

Provavelmente a declaração mais conhecida de Ellen White sobre esse ponto está em O Desejado de Todas as Nações, no relato da ressurreição de Lázaro. Ao comentar as palavras de Cristo, ela escreveu: “Em Cristo há vida original, não emprestada, não derivada. ‘Quem tem o Filho tem a vida.’ A divindade de Cristo é a certeza de vida eterna para o crente.” O Desejado de Todas as Nações, p. 461.

É bem difícil exagerar a força dessas palavras. Ellen White não disse simplesmente que Cristo possui vida ou mesmo que possui vida eterna. Ela qualificou essa vida três vezes: é original, não emprestada e não derivada. Em outras palavras, a vida que existe em Cristo não lhe foi comunicada por outro ser, não lhe foi concedida e não tem sua origem fora dEle. Na teologia clássica, essa propriedade é chamada de aseidade: existência em si mesmo, sem depender de outro como fonte do próprio ser. E essa é precisamente uma das propriedades que distinguem Deus de tudo aquilo que é criado.

Isso se torna especialmente relevante quando chegamos a João 5:26. Jesus declara que, “assim como o Pai tem vida em Si mesmo, assim deu também ao Filho ter a vida em Si mesmo”. O texto costuma ser usado por antitrinitários para sustentar que a vida do Filho é ontologicamente derivada do Pai: o Pai a teria em Si mesmo por natureza, enquanto o Filho a possuiria porque a recebeu.

Mas, se quisermos saber como Ellen White entendia essa questão, não precisamos ficar especulando. Na mesma obra, ela descreveu a vida de Cristo como original e, de maneira ainda mais explícita, não derivada. Portanto, qualquer interpretação de João 5:26 que faça da existência do Filho uma existência recebida de outro entra em tensão direta com a maneira como ela própria descreveu Sua vida.

Ainda assim, apontar essa tensão não é o mesmo que resolvê-la. Se João diz que o Pai “deu” ao Filho ter vida em Si mesmo, precisamos explicar em que sentido Ele deu. A distinção importante está entre aquilo que Cristo era em Sua própria natureza e aquilo que assumiu dentro do plano da redenção. Uma coisa é quem o Filho era eternamente; outra, a posição e a missão que recebeu como Mediador encarnado. E o contexto de João 5 é exatamente sobre a obra que o Pai confiou ao Filho: vivificar, julgar e executar o juízo. Ellen White fez uma distinção semelhante ao falar da encarnação: “Em Sua encarnação obteve nova intuição do título de Filho de Deus. […] Ao mesmo tempo que era Filho de um ser humano, tornou-Se o Filho de Deus num novo sentido.” Mensagens Escolhidas, vol. 1, p. 213.

Repare no que a expressão “num novo sentido” pressupõe. Se Cristo Se tornou Filho de Deus num novo sentido na encarnação, então já era Filho antes dela em outro sentido. A encarnação não deu origem ao Filho; deu uma nova dimensão à Sua filiação. Ao aplicarmos essa compreensão a João 5:26, as peças se encaixam. Se Ellen White havia afirmado que a vida de Cristo era “original, não emprestada, não derivada”, então o “deu” do versículo não poderia significar, para ela, que o Pai concedeu ao Filho a existência que Ele antes não possuía. Seja qual for o sentido exato da expressão, ele precisa ser compatível com aquilo que ela afirmou de maneira explícita sobre a vida do Filho.

A distinção entre natureza e missão se torna útil precisamente nesse ponto. O Filho eterno não recebeu do Pai Sua existência; o Filho encarnado recebeu do Pai a missão, a autoridade e a função mediadora que exerceu na história da redenção. Assim, João 5:26 não precisava ser lido como uma negação da aseidade de Cristo.

Temos ainda uma segunda confirmação, vinda de Patriarcas e Profetas. Ao descrever a posição do Filho antes da rebelião de Lúcifer, ela escreveu: “O Filho de Deus partilhava do trono do Pai, e a glória do Ser eterno, existente por Si mesmo, rodeava a ambos.” Patriarcas e Profetas, p. 10.

O Ser eterno, existente por Si mesmo não aparece nesse texto em contraste com o Filho, como se a autoexistência pertencesse exclusivamente ao Pai. A glória desse Ser “rodeava a ambos”. Pai e Filho aparecem juntos no interior dessa descrição da existência eterna e autoexistente. Tomadas em conjunto, as duas passagens deixam pouco espaço para uma leitura segundo a qual Cristo foi criado em algum ponto da eternidade passada. Em O Desejado, Sua vida é original e não derivada. Em Patriarcas e Profetas, Ele compartilha o trono do Pai e é envolvido, juntamente com Ele, pela glória do Ser eterno e autoexistente. É exatamente isso que a ideia de aseidade procura expressar.

O nome divino aplicado a Cristo

No comentário a João 8:58, temos outra declaração bastante objetiva: “O nome de Deus, dado a Moisés para exprimir a idéia da presença eterna, fora reclamado como Seu pelo Rabi da Galiléia. Declarara-Se Aquele que tem existência própria”O Desejado de Todas as Nações, p. 410.

A importância disso não pode ser ignorada. Ellen White não afirmou apenas que Jesus existia antes de Abraão. Segundo ela, Cristo havia reivindicado para Si o próprio nome dado a Moisés como expressão da presença eterna de Deus e, ao fazê-lo, havia Se declarado Aquele que possuía “existência própria”. A isso se somaram outras duas declarações. Em Patriarcas e Profetas, Ellen White descreveu Jeová como “o Ser eterno, existente por Si mesmo, incriado, sendo o originador e mantenedor de todas as coisas”. E, no Signs of the Times de 1899, afirmou que “Jeová é o nome dado a Cristo”.

Mas precisamos ir com calma nesse ponto. A junção desses dois últimos textos produz uma inferência. Ellen White não escreveu, numa única frase, algo como: “Cristo é o Jeová incriado.” O raciocínio resulta da combinação das duas afirmações: Jeová foi descrito como eterno, autoexistente e incriado; em outro texto, Jeová foi identificado como um nome dado a Cristo.

A inferência é forte, mas continua sendo apenas uma inferência. Caso alguém queira uma declaração que não dependa dessa combinação pode simplesmente voltar ao comentário de João 8:58. Ali o argumento foi expresso diretamente: Cristo havia reivindicado para Si o nome divino e Se declarado Aquele que possuía existência própria. Nesse caso, não há dois textos para juntar nem uma conclusão a construir. A afirmação já estava feita.

A divindade de Cristo como exigência da expiação

Havia entre os primeiros pioneiros um dilema difícil de contornar. Para eles, afirmar a plena divindade de Cristo faria com que a realidade da expiação perdesse o sentido: afinal, se Cristo era o próprio Deus autoexistente, como ele poderia ter morrido de verdade no Calvário?

Para Ellen White, no entanto, o problema não estava em afirmar demais sobre a divindade de Cristo, mas em afirmar de menos. Se Cristo fosse um ser finito ou ontologicamente inferior a Deus, aí sim o Seu sacrifício deixaria de ser suficiente. Já em 1873, ela escreveu: “Que seria do pecado, uma vez que nenhum ser finito podia fazer expiação? Qual seria sua maldição, se só a Divindade o podia acabar? A cruz de Cristo testifica a todo homem de que a pena do pecado é a morte”Nossa Alta Vocação, p. 91 (Carta 23, 1873).

A premissa dificilmente poderia ter sido mais clara: nenhum ser finito podia fazer expiação. A resposta ao pecado exigia aquilo que somente a Divindade podia oferecer. Em 1891, Ellen White tornou o ponto ainda mais explícito: “A reconciliação do homem com Deus somente poderia ser empreendida por um mediador igual a Deus, possuidor de atributos que O dignificassem e O declarassem digno de lidar com o Deus Infinito em favor do homem”Review and Herald, 22 dez. 1891.

Repare na lógica. O mediador capaz de reconciliar o homem com Deus precisava ser igual a Deus e possuir atributos que O tornassem digno de lidar com o Deus Infinito. Não bastava que Cristo ocupasse uma posição elevada acima dos anjos. Não bastava sequer que fosse o primeiro e maior dos seres celestiais. A obra exigia um mediador cuja própria natureza estivesse à altura daquele com quem fazia a reconciliação.

A estrutura do argumento, portanto, era bastante simples: A expiação exigia um sacrifício de valor infinito; nenhum ser finito podia oferecê-lo; Cristo podia oferecê-lo. Logo, Cristo não podia pertencer à categoria dos seres finitos. Dessa forma, a antiga preocupação dos pioneiros se invertia. Eles temiam que a plena divindade de Cristo enfraquecesse a expiação. Ellen White argumentou que era a inferioridade ontológica do Filho que criaria o verdadeiro problema. Se somente a Divindade podia fazer expiação, então um Cristo ontologicamente inferior ao Pai não poderia oferecer aquilo que a cruz exigia.

Mas seria desonesto encerrar a questão aqui, porque a preocupação original dos pioneiros ainda permanece. Alguém poderia conceder tudo o que acabamos de ver e responder: “Concordo que somente a Divindade poderia expiar o pecado. Entretanto, meu problema é outro: a Divindade não pode morrer. Logo, se Cristo era o Deus autoexistente, quem morreu no Calvário?”

É uma boa pergunta. E, mais uma vez, não precisamos imaginar qual teria sido a resposta de Ellen White, porque ela tratou diretamente do problema: “Foi a natureza humana do filho de Maria mudada na natureza divina do Filho de Deus? Não, as duas naturezas estavam misteriosamente fundidas numa pessoa — o Homem Cristo Jesus. NEle habitava corporalmente toda a plenitude da divindade. Quando Cristo foi crucificado, foi Sua natureza humana que morreu. A Divindade não sucumbiu e morreu; isso teria sido impossível.” Olhando para o Alto, p. 522 (Carta 280, 1904).

E, ao comentar a ressurreição, escreveu: “A humanidade morreu; a divindade não morreu. Em Sua divindade, possuía Cristo o poder de romper os laços da morte.” Mensagens Escolhidas, vol. 1, p. 283.

Ora, isso permite preservar os dois lados da questão. Estritamente falando, quem morreu na cruz não foi uma “natureza”, mas uma pessoa: o Filho de Deus. Ele morreu segundo a natureza humana que havia assumido. Sua divindade não deixou de existir por três dias (algo que Ellen White considerou impossível), mas também não permaneceu à parte, como se outro alguém tivesse sofrido em Seu lugar. Foi a mesma pessoa, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que padeceu e morreu segundo Sua humanidade.

Com isso, a preocupação dos pioneiros recebe uma resposta que não exige abrir mão da plena divindade de Cristo. Eles temiam que, se Cristo fosse verdadeiramente Deus, Sua morte se tornasse impossível e a expiação acabasse esvaziada. Ellen White fez justamente a distinção que faltava: a Divindade não morreu, mas aquele que morreu era uma pessoa divina que havia assumido uma natureza humana capaz de sofrer e morrer.

É por isso que ela pôde escrever, em 1886, algo que à primeira vista soa quase paradoxal: “A justiça demandava os sofrimentos de um homem. Cristo, igual a Deus, ofereceu os sofrimentos de Deus.” A frase reúne os dois elementos. Os sofrimentos foram experimentados segundo Sua humanidade; quem os ofereceu, porém, era o Filho igual a Deus. Se retirarmos qualquer um dos dois termos a expiação desmorona. Sem a humanidade não há morte, sem a divindade não há valor infinito.

As Três Pessoas

Até aqui, as declarações que examinamos diziam respeito sobretudo à plena divindade e eternidade de Cristo. Mas Ellen White não se limitou à relação entre o Pai e o Filho. Quando falou do Espírito Santo, sua linguagem também se tornou bastante explícita: “Há três pessoas vivas pertencentes à trindade celeste; em nome destes três grandes poderes — o Pai, o Filho e o Espírito Santo — os que recebem a Cristo por fé viva são batizados.” Evangelismo, p. 483.

A expressão “três pessoas vivas” é a que importa para nós agora. Ellen White não descreveu três manifestações de uma única pessoa, nem três funções desempenhadas pelo mesmo ser. Falou de três pessoas e imediatamente as identificou: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Além disso, associou essas três pessoas à fórmula batismal de Mateus 28:19.

Poucas linhas antes, ela havia usado uma linguagem igualmente forte. A expressão de Colossenses 2:9 toda a plenitude da Divindade — foi aplicada separadamente ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Isso é significativo. Não se tratava de três seres que possuíam, cada um, uma parte da Divindade, como se a natureza divina pudesse ser dividida em frações. A linguagem atribuía a cada um toda a plenitude.

Em outro manuscrito, de 1901, Ellen White voltou a reunir os três: “Os eternos dignitários celestes — Deus, Cristo e o Espírito Santo — munindo-os [aos discípulos] de energia sobre-humana, … avançariam com eles para a obra e convenceriam o mundo do pecado.” Manuscrito 145, 1901; em Evangelismo, p. 484.

Repare novamente na maneira como a frase foi construída. Pai, Filho e Espírito Santo apareceram lado a lado como “os eternos dignitários celestes”. O plural não foi acidental: eram distinguidos uns dos outros e, ao mesmo tempo, reunidos na mesma ação divina. Isso torna difícil sustentar que, para Ellen White, o Espírito Santo fosse simplesmente outra maneira de falar do Pai ou de Cristo. Sua linguagem pressupunha distinção pessoal. A questão que ainda precisamos examinar é se ela atribuiu ao Espírito apenas personalidade ou se foi além e O apresentou também como plenamente divino.

O Espírito Santo como Pessoa divina

Se ainda resta alguma dúvida sobre o que Ellen White entendia por personalidade do Espírito Santo, suas declarações posteriores resolvem o problema: “Precisamos reconhecer que o Espírito Santo, que é tanto uma pessoa como o próprio Deus, está andando por esses terrenos.” Manuscrito 66, 1899; em Evangelismo, p. 484.

Penso que a linguagem não poderia ter sido mais pessoal. O Espírito Santo não foi descrito como uma influência, um poder impessoal ou simplesmente a presença de Deus. Ellen White falou dEle como “uma pessoa” e, mais do que isso, comparou Sua pessoalidade à do próprio Deus.

Em 1906, ela tornou o argumento ainda mais claro para não restar nenhuma raiz de dúvida: “O Espírito Santo tem personalidade, do contrário não poderia testificar ao nosso espírito e com nosso espírito que somos filhos de Deus. Deve ser também uma pessoa divina, do contrário não poderia perscrutar os segredos que jazem ocultos na mente de Deus.” Manuscrito 20, 1906; em Evangelismo, p. 484. Além de afirmar a personalidade do Espírito, Ellen White explicou a razão dessa convicção. Seu raciocínio partiu das ações atribuídas ao Espírito: Ele testificava ao nosso espírito que somos filhos de Deus. Isso pressupunha pessoalidade, pois testificar é um ato intencional, algo impossível para uma força impessoal. Além disso, o Espírito Santo não deveria ser reconhecido apenas como pessoa, mas como “uma pessoa divina”. A razão é igualmente significativa: Ele pode “perscrutar os segredos que jazem ocultos na mente de Deus”.

O argumento, portanto, foi também epistêmico. Perscrutar a mente de Deus não significava simplesmente receber uma informação transmitida de fora. A linguagem pressupunha acesso ao conhecimento divino em um sentido que, para Ellen White, exigia divindade. Assim, as duas afirmações se completavam. Em 1899, o Espírito Santo foi chamado de uma pessoa “como o próprio Deus”. Em 1906, Ellen White explicou que Ele possuía personalidade e que deveria ser reconhecido como “uma pessoa divina”. Nesse ponto, reduzir o Espírito a uma influência ou manifestação impessoal já não parecia compatível com a maneira como ela própria O havia descrito.

Uma correção necessária: a palavra “Trindade”

Há, porém, um argumento bastante comum na apologética trinitária em português que precisa ser corrigido: afirmar que Ellen White usou a palavra Trindade ao falar da Divindade, como se isso resolvesse rapidamente a questão de saber se ela era trinitária. Para sustentar essa afirmação, muitos recorrem a Testemunhos para Ministros, p. 329, onde a edição brasileira traz “a terceira pessoa da Trindade”, ou a Evangelismo, p. 484, com a mesma expressão.

O problema é que Ellen White não escreveu assim. Nos originais, a expressão usada foi the third person of the Godhead (a terceira pessoa da Divindade). A palavra Trindade apareceu nessas passagens por escolha dos tradutores da CPB ao verterem Godhead. O mesmo ocorreu com “trindade celeste”: no original está escrito heavenly trio (trio celestial).

Portanto, se você é trinitário, não entre num debate dizendo que Ellen White usou a palavra Trindade porque provavelmente você passará vergonha. Gerhard Pfandl, do Instituto de Pesquisa Bíblica da Associação Geral, reconheceu isso sem dificuldade: Ellen White fez declarações fortes em apoio ao conceito trinitário, embora nunca tivesse usado a palavra Trindade.

Muito bem. Depois de reconhecido o fato precisamos nos perguntar: Isso muda alguma coisa substancial? A doutrina da Trindade fica ameaçada por causa disso? Absolutamente não. A questão nunca dependeu da presença da palavra Trindade. Ellen White falou de “três pessoas vivas”, descreveu o Espírito Santo como “tanto uma pessoa como o próprio Deus”, chamou-O de “terceira pessoa da Divindade” e afirmou que em Cristo havia vida “original, não emprestada, não derivada”. É esse conjunto de afirmações que precisa ser explicado.

Afinal, uma doutrina não depende da presença do termo técnico pelo qual veio a ser conhecida. A própria palavra Trindade não aparece na Bíblia, e nem por isso os trinitários concluem que a doutrina esteja ausente das Escrituras. A questão é outra: os conceitos que formam a doutrina estão ali? O mesmo critério precisa valer para Ellen White. Dizer que ela nunca empregou a palavra Trindade é simplesmente reconhecer o que os originais mostram, nada mais. Isso não enfraquece nem um pouco as declarações que fez sobre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Parte III: A Alegação de Adulteração

O que os antitrinitários efetivamente afirmam

Entre os autores antitrinitários que desenvolveram essa acusação, Lynnford Beachy e Fred Allaback estão entre os mais citados. Beachy, em Did They Believe in the Trinity?, sustentou que a igreja como um todo havia rejeitado a doutrina e que somente muitos anos depois da morte de Ellen White a denominação mudou de posição. Allaback, em No New Leaders… No New Gods!, foi ainda mais longe e classificou a Trindade como o ômega da apostasia doutrinária adventista.

Mas Allaback apresentou também uma objeção mais específica, e essa merece atenção porque partiu de uma observação correta sobre o texto. O caso envolve o Manuscrito 66, de 1899, que vimos há pouco. Allaback observou que em Evangelismo a citação começa no meio da frase original e transforma uma vírgula em ponto final. Isso é verdade. No manuscrito completo, o período todo está assim: “o Espírito Santo, que é tanto uma pessoa como o próprio Deus, está andando por esses terrenos, que o Senhor Deus é nosso guardador e ajudador”. A partir disso, Allaback concluiu que o Espírito Santo, o Senhor que instruía, o Deus que guardava e aquele que ouvia cada palavra eram, na realidade, uma e a mesma pessoa: o Cristo glorificado.

Até aí tudo bem, a observação editorial estava correta. Mas será que a conclusão realmente se segue dela? Acredito que não. Em primeiro lugar, a parte decisiva da declaração permaneceu exatamente a mesma nos dois contextos: “o Espírito Santo, que é tanto uma pessoa como o próprio Deus”. A mudança de pontuação não alterou esse predicado. Ellen White continuou dizendo que o Espírito Santo era uma pessoa, e comparou Sua pessoalidade à do próprio Deus. Não adianta fugir de explicar essa afirmação.

No entanto, existe um problema ainda maior com a interpretação de Allaback. Ele próprio não conseguiu manter uma identificação consistente do Espírito Santo ao longo de seu argumento. Em seu livro, ora identifica o Espírito como o próprio Cristo, ora como o Pai. Em outro momento, chega até mesmo a identificá-lo com os anjos ministradores.

Pois bem, as três identificações não podem ser verdadeiras no mesmo sentido. E isso nos coloca diante de uma dificuldade bastante séria. Se uma interpretação exige que o mesmo referente seja Cristo em uma passagem, o Pai em outra e os anjos em uma terceira, então o problema já não está apenas na pontuação de Evangelismo, mas na própria interpretação que precisa mudar a identidade do Espírito conforme muda o texto.

A objeção de Allaback, portanto, acertou ao chamar atenção para um detalhe editorial real. Mas esse detalhe não fez o trabalho que ele precisava que fizesse. A frase sobre a personalidade do Espírito permaneceu intacta, e a tentativa de explicar essa personalidade como simples referência a Cristo acabou produzindo mais problemas do que resolveu.

A teoria da adulteração — refutada pela cronologia

A ideia de que o trinitarismo teria sido inserido apenas em Evangelismo, publicado em 1946, esbarra numa dificuldade bastante simples: as declarações já existiam décadas antes.

A passagem sobre as “três pessoas vivas”, por exemplo, foi publicada pela própria Ellen White em 1905, em Special Testimonies, Série B, nº 7, mais de quarenta anos antes da compilação de Evangelismo e dez anos antes de sua morte. A declaração de 1897 sobre a vida de Cristo “não tomada por empréstimo” apareceu no Signs of the Times. E as formulações de 1906 foram publicadas no Review and Herald, um periódico de ampla circulação entre os adventistas.

Isso cria um problema sério para a hipótese da adulteração tardia. Se essas declarações tivessem surgido apenas em uma compilação posterior à morte de Ellen White, ainda haveria algo a discutir. Mas não foi isso que aconteceu. Elas já circulavam publicamente enquanto ela estava viva.

Contudo, vamos ajudar um pouco a teoria da adulteração. Quem sabe, concedendo-lhe mais espaço, ela consiga funcionar. Suponhamos que a adulteração não tenha alcançado apenas uma compilação publicada em 1946, mas também periódicos impressos décadas antes, distribuídos entre os próprios adventistas enquanto Ellen White ainda vivia. Isso significaria que declarações que ela nunca escreveu começaram a circular publicamente sob seu nome, algumas delas justamente sobre uma questão que provocava controvérsia entre os próprios membros da Igreja.

O que esperaríamos encontrar nesse caso? Algum vestígio do problema, é claro. Uma carta, uma repreensão às secretárias, uma correção pública, uma advertência aos editores, qualquer indicação de que palavras estranhas à sua teologia estavam sendo publicadas em seu nome. Ellen White não costumava permanecer em silêncio quando entendia que suas palavras haviam sido deturpadas.

Mas nada disso apareceu. Não temos uma carta em que ela negasse essas declarações, um manuscrito em que protestasse contra sua publicação ou qualquer documento no qual denunciasse que outros estavam colocando palavras trinitárias em sua boca. Isso, tomado isoladamente, não provaria a autenticidade de cada frase. Um argumento baseado apenas no silêncio seria fraco. Mas esse silêncio aparece junto com textos publicados durante sua vida, manuscritos que examinaremos adiante e declarações que se repetiram ao longo dos anos. Nesse contexto, a hipótese de adulteração começa a exigir cada vez mais suposições para continuar de pé.

Alguns, percebendo a dificuldade, recorrem então a outra saída: admitem que as declarações vieram de Ellen White, mas alegam que, quando as escreveu, ela já estava em idade avançada e não possuía mais plena capacidade mental.

O problema é que isso não pode simplesmente ser afirmado. É uma alegação histórica sobre a condição mental de uma pessoa e, como qualquer alegação desse tipo, precisa de evidência. A idade, por si só, não demonstra incapacidade intelectual. Se alguém quiser sustentar que Ellen White já não compreendia aquilo que escrevia ou aprovava, terá de mostrar isso a partir dos documentos de sua vida naquele período. Caso contrário, não temos uma explicação histórica para os textos; temos apenas uma maneira de descartá-los porque seu conteúdo se tornou inconveniente e os argumentos desapareceram.

M. L. Andreasen e a teoria das secretárias

Quando a teoria da adulteração começa a apanhar, costuma surgir uma segunda explicação: talvez Ellen White nem tenha escrito aquelas declarações, mas sim suas secretárias, influenciadas por líderes como W. W. Prescott.

A meu ver, essa hipótese parece mais difícil ainda de se tronar uma prova. Afinal, se as alterações tivessem sido feitas ainda durante a vida dela, não bastaria mostrar que os textos foram publicados antes de 1915. Seria preciso chegar mais perto dos próprios manuscritos. E isso já foi feito.

Tim Poirier, do Ellen G. White Estate, examinou os documentos originais e encontrou rascunhos autógrafos de algumas das passagens mais contestadas. No Manuscrito 21, de 1906, Ellen White escreveu inicialmente three persons e depois alterou, de próprio punho, para three personalities. Isso é especialmente significativo porque mostra que ela não apenas conhecia a terminologia, mas interferiu pessoalmente nela. O Manuscrito 20, também de 1906, é ainda mais difícil de contornar. Na primeira página, com a própria letra, Ellen White deixou a anotação: “I have read this carefully and accept it” — “Li isto cuidadosamente e o aceito”.

Mas há uma evidência ainda mais interessante, porque ela não vem de alguém que já estivesse tentando defender essas declarações. Quando O Desejado de Todas as Nações foi publicado, M. L. Andreasen, que mais tarde se tornaria um dos teólogos mais influentes do adventismo, simplesmente não acreditou no que estava lendo. Ele próprio disse posteriormente: “Lembro-me de como ficamos atônitos quando O Desejado de Todas as Nações foi publicado, pois continha coisas que julgávamos inacreditáveis; entre outras, a doutrina da trindade, que então não era geralmente aceita pelos adventistas.”

Andreasen não resolveu a questão simplesmente presumindo que tudo estivesse certo. Em 1909, quando Ellen White ainda estava viva, ele passou três meses em Elmshaven examinando os manuscritos originais. Queria saber se aquelas declarações realmente haviam sido escritas por ela. Segundo seu próprio relato, viu na caligrafia de Ellen White declarações que, em sua opinião, ela simplesmente não poderia ter escrito. A frase que mais o impressionou foi a afirmação de que em Cristo havia vida “original, não emprestada, não derivada”. Andreasen contou que aquilo o levou a rever sua própria compreensão da divindade de Cristo e também a posição que até então predominava entre os adventistas.

Pense no peso desse testemunho. Andreasen não foi a Elmshaven como um trinitário procurando confirmar aquilo em que já acreditava. Foi porque desconfiava dos textos e quis ver os originais. Em outras palavras, o teste que hoje costuma ser proposto pelos defensores da teoria da adulteração já foi realizado em 1909 por alguém que compartilhava justamente da desconfiança que eles levantam. E o resultado não foi o que ele esperava.

Ainda resta a hipótese de influência externa: E se, em vez de influenciar as secretárias, W. W. Prescott tivesse influenciado a própria Ellen White a fazer essas declarações? Confesso que isso está ficando cada vez mais interessante, porque parece que o antitrinitarismo e a cronologia não são compatíveis. Em 1896, precisamente no período em que Prescott supostamente estaria conduzindo Ellen White em direção ao pensamento trinitário, ele próprio escreveu que Cristo “nasceu duas vezes, uma na eternidade, o unigênito do Pai, e outra na carne”. Essa não era uma formulação trinitária. Era, em aspectos importantes, a cristologia da geração anterior. Prescott só mudaria de posição mais tarde e reconheceria publicamente essa mudança em 1919.

Isso torna bastante difícil sustentar que ele estivesse pressionando Ellen White, em 1896, a adotar uma compreensão que ele próprio ainda não havia adotado. Não se pode explicar uma mudança teológica pela influência de alguém que, naquele momento, ainda não sustentava a teologia que supostamente estava impondo.

O silêncio ativo — e o que aconteceu depois de 1915

Existe outro dado histórico difícil de encaixar na ideia de que a linguagem trinitária estivesse sendo introduzida às escondidas. Escritores adventistas proeminentes começaram a afirmar publicamente a personalidade divina do Espírito Santo enquanto Ellen White ainda estava viva, e não encontramos qualquer tentativa dela de corrigi-los por isso.

R. A. Underwood, por exemplo, publicou no Review and Herald de 17 de maio de 1898 um artigo com o título nada ambíguo “The Holy Spirit a Person” (O Espírito Santo é uma Pessoa). Alguns anos depois, em 1907, A. T. Jones escreveu que o Espírito Santo não era uma influência nem uma coisa, mas “uma Pessoa, eternamente uma Pessoa divina”. Ellen White ainda viveria oito anos depois dessa declaração.

Entendo que isso não significa, necessariamente, que ela assinasse embaixo de tudo o que eles diziam. Não dá para exigir demais do silêncio, não é? Mas esse detalhe ganha força quando olhamos para as afirmações que ela mesma fez sobre o Espírito Santo. Se essa linguagem representasse uma corrupção grave da fé adventista, é pelo menos curioso que ela estivesse sendo publicada abertamente, sob seus olhos, sem qualquer repreensão conhecida.

O caso de Uriah Smith exige um pouco mais de cuidado. Smith realmente modificou sua posição. Na edição de 1881 de Thoughts on the Revelation, já reconhecia que a linguagem de Apocalipse 3:14 não implicava necessariamente que Cristo tivesse sido criado. Mas não devemos transformá-lo, por isso, em trinitário. Ele nunca chegou tão longe.

Em Looking Unto Jesus (Olhando para Jesus), publicado em 1898, cinco anos antes de sua morte, Smith ainda sustentava que, com o Filho, “a evolução da divindade, como divindade, cessou”. Portanto, continuava semiariano. O que seu caso permite afirmar é algo mais modesto, mas também mais seguro: um dos pioneiros mais citados hoje pelos antitrinitários já havia abandonado, ainda em vida de Ellen White, a ideia de que Cristo fosse um ser criado. Isso não o tornou trinitário, mas mostra que sua posição também não permaneceu exatamente onde estivera nos primeiros anos do movimento.

Com James White, a mudança foi ainda mais evidente. Em 1876, ele escreveu que os adventistas sustentavam a divindade de Cristo tão próximo dos trinitarianos que não previa dificuldade nesse ponto. E, no ano seguinte, publicou um artigo cujo próprio título já chama atenção: “Christ Equal with God” (Cristo Igual a Deus). Ele escreveu: “A trindade inexplicável, que faz a Divindade três em um e um em três, já é bastante ruim; mas aquele ultra-unitarismo que faz Cristo inferior ao Pai é pior. Teria Deus dito a um inferior: ‘Façamos o homem à Nossa imagem’?”

Perceba o que aconteceu. James White continuava rejeitando aquilo que entendia por Trindade, mas já não aceitava uma cristologia que colocasse Cristo ontologicamente abaixo do Pai. O homem cuja declaração antitrinitária de 1846 é frequentemente citada como se resumisse sua posição definitiva repudiou publicamente o subordinacionismo mais de três décadas depois. E então chegamos a um fato histórico particularmente incômodo para a ideia de que a Trindade teria sido simplesmente imposta à denominação.

Se a liderança adventista tivesse decidido introduzir a doutrina e eliminar a antiga posição dos pioneiros, seria razoável esperar que a mudança tivesse ocorrido de maneira relativamente rápida, sobretudo depois da morte de Ellen White. Só que foi exatamente o contrário. Na Conferência Bíblica de 1919, quatro anos depois de sua morte e mais de vinte anos depois da publicação de O Desejado de Todas as Nações, os próprios líderes adventistas ainda discutiam se Cristo possuía existência eterna. L. L. Caviness declarou que não conseguia crer que as duas pessoas da Divindade fossem iguais. W. T. Knox sustentou que havia existido um momento em que o Filho “brotou do seio do Pai” e passou a possuir existência separada.

Note que isso é uma maneira bastante estranha de impor uma doutrina. Uma denominação que já tivesse decidido fabricar um consenso trinitário dificilmente passaria décadas permitindo que seus próprios líderes debatessem publicamente uma das questões centrais da doutrina. O que encontramos foi uma mudança lenta, desigual e, em certos momentos, bastante disputada. Por isso mesmo, a linha do tempo contradiz a tese da imposição. A lentidão da mudança não se parece com uma doutrina introduzida de cima para baixo. Parece muito mais com uma denominação tentando, ao longo de décadas, resolver uma questão teológica sobre a qual seus próprios pioneiros nunca haviam chegado a um consenso definitivo.

O caso Kellogg

Uma objeção um pouco mais sofisticada envolve J. H. Kellogg e a controvérsia em torno de The Living Temple, publicado em 1903. Alguns antitrinitários argumentam que Ellen White teria condenado o pensamento de Kellogg porque ele começou a usar uma linguagem que envolvia o Pai, o Filho e o Espírito Santo como três Pessoas. Se isso estiver correto, teríamos um problema: a própria Ellen White estaria combatendo, naquele momento, a linguagem que mais tarde apareceria em seus escritos.

Mas foi realmente isso que ela condenou? Não.

O problema de The Living Temple não era o trinitarismo, mas sim o panteísmo. Kellogg passou a falar da presença de Deus na natureza de uma maneira que o colocava dentro da própria matéria, seja na árvore, na flor ou no corpo humano. O resultado era uma perigosa dissolução da distinção entre o Criador e aquilo que Ele havia criado. Foi esse conjunto de ideias que Ellen White chamou de “alfa de heresias letais”.

E aqui, mais uma vez, a cronologia deixa a interpretação antitrinitária a ver navios. Se Ellen White tivesse condenado Kellogg em 1903 por falar do Pai, do Filho e do Espírito Santo como Pessoas distintas, o que esperaríamos que acontecesse depois? Naturalmente, que ela evitasse essa linguagem ou, pelo menos, que se tornasse mais cautelosa com ela. Mas aconteceu exatamente o contrário.

Foi depois da controvérsia com Kellogg que apareceram algumas de suas formulações mais explícitas. Em 1905, ela falou das “três pessoas vivas”. Em outros textos, referiu-se aos “eternos dignitários celestes”. E, em 1906, afirmou diretamente que “o Espírito Santo tem personalidade” e que deveria ser reconhecido como “uma pessoa divina”. Com afirmações assim, não faz o menor sentido dizer que o problema de Kellogg tivesse sido sua linguagem sobre três Pessoas.

“Não mudei minha fé em um jota”

Outra frase frequentemente usada nesse debate vem da Carta 150, de 15 de maio de 1906. Nela, Ellen White afirmou que não havia mudado “um jota” de sua fé. À primeira vista, isso parece favorecer diretamente a leitura antitrinitária: se ela não mudou sua fé, então teria permanecido com a mesma compreensão teológica dos primeiros anos do movimento. Contudo, o contexto torna essa conclusão nada simples.

A declaração foi escrita no auge da crise que se seguiu à controvérsia com Kellogg. O que estava em discussão naquele período eram os grandes marcos identitários do adventismo: o sábado, o santuário, o estado dos mortos, o segundo advento e outras doutrinas que haviam dado forma ao movimento depois de 1844. Nas cartas da mesma época, Ellen White falava repetidamente em não remover um “pino ou pilar” da estrutura que havia sido estabelecida.

Ora, a Trindade nunca havia ocupado esse lugar no adventismo primitivo. Não aparecia como pilar da fé nem como teste de comunhão. Também não constava das declarações de crenças de 1872 ou de 1889. Só apareceu numa declaração doutrinária publicada no Anuário de 1931 e, mais tarde, foi formalmente votada no conjunto das Crenças Fundamentais em Dallas, em 1980. Desse modo, o sentido da frase muda bastante. Quando Ellen White afirmou que não havia mudado sua fé, o assunto eram os pilares que definiam a identidade do movimento, não a cristologia específica de J. N. Andrews ou Uriah Smith.

E há um detalhe cronológico (novamente) que torna isso ainda mais claro. No mesmo ano de 1906 em que declarou não ter mudado sua fé “em um jota”, Ellen White publicou que Cristo era “essencialmente e no mais alto sentido, Deus” e que estava com Deus “desde toda a eternidade”.

As duas afirmações precisam caber juntas. Se “não mudei minha fé” significasse “continuei sustentando a cristologia semiariana dos primeiros pioneiros”, então ela teria afirmado uma coisa numa carta e publicado o contrário no mesmo ano. Portanto, é muito mais natural e lógico entender suas palavras no contexto em que foram escritas: ela estava dizendo que não havia abandonado os pilares da fé adventista. Isso é bem diferente de afirmar que jamais houve desenvolvimento em sua compreensão sobre a natureza de Cristo.

Parte IV: Textos difíceis — inclusive os que pesam contra

“Foi feito igual ao Pai” (1904)

Bem, aqui as coisas ficam um pouco difíceis para o lado trinitário. Os textos que veremos a seguir parecem, à primeira leitura, apontar na direção contrária ao que discutimos até agora. Se eu fosse um antitrinitário e quisesse argumentar contra a Trindade, provavelmente começaria pelo que está em Testemunhos para a Igreja, vol. 8, publicado em 1904, escrito já no período maduro de Ellen White: “Deus é o Pai de Cristo; Cristo é o Filho de Deus. A Cristo foi atribuída uma posição exaltada. Foi feito igual ao Pai. Cristo participa de todos os desígnios de Deus.” Testemunhos para a Igreja, vol. 8, p. 265.

A expressão “foi feito igual ao Pai” parece não deixar meios de escape. Se Cristo foi feito igual ao Pai, então Sua igualdade aparentemente não existia antes. E, desta vez, não podemos recorrer às explicações que já examinamos. O texto é tardio, foi publicado durante a vida de Ellen White e não veio de uma compilação póstuma. Também não adianta simplesmente apelar para uma possível interferência de secretárias, como costumam fazer os antitrinitários. A frase precisa ser enfrentada como está. Mas antes de concluir que Ellen White estava negando aquilo que havia afirmado em tantos outros lugares, precisamos olhar para o contexto em que escreveu essas palavras.

A declaração apareceu logo depois de uma citação de Hebreus 1:1-5, passagem em que Cristo foi apresentado como aquele a quem Deus “constituiu herdeiro de todas as coisas” e que foi “feito tanto mais excelente do que os anjos”. O assunto ali era a posição e a exaltação do Filho. Nesse contexto, a frase “foi feito igual ao Pai” parece acompanhar a linguagem de Hebreus e referir-se à posição que Cristo assumiu no plano divino, não à origem de Sua natureza. É uma leitura plausível.

No entanto, ela resolve completamente a dificuldade? Eu não diria isso. Um antitrinitário pode responder que estamos recorrendo ao contexto apenas porque a leitura mais imediata da frase é desconfortável. Reconheço isso. Ainda penso que a leitura contextual é a melhor, mas ela não elimina toda a dificuldade. A questão, então, passa a ser outra: qual das duas leituras explica melhor o conjunto da evidência?

Se entendermos “foi feito igual ao Pai” como uma declaração sobre a origem ontológica de Cristo, teremos de colocá-la contra uma longa série de afirmações nas quais Ellen White havia descrito o Filho como “eterno”, “essencialmente e no mais alto sentido, Deus”, possuidor de vida “original, não emprestada, não derivada” e existente com o Pai “desde toda a eternidade”. Algumas dessas declarações apareceram antes de 1904; outras, apenas dois anos depois. Essa leitura criaria, portanto, uma tensão difícil de conciliar com o restante de seus escritos maduros.

Por outro lado, se entendermos a frase dentro do contexto de Hebreus 1, como uma referência à posição atribuída ao Filho dentro do plano divino, ela passa a caber naturalmente ao lado dessas outras declarações. É isso que, a meu ver, inclina a balança. Não porque a passagem difícil desapareça, nem porque sua interpretação seja indiscutível, mas porque uma leitura precisa explicar o conjunto, e não apenas uma frase isolada. Entre uma expressão cuja linguagem pode ser entendida a partir de seu contexto bíblico imediato e um padrão que atravessou décadas de escritos, o peso da evidência não parece estar igualmente dividido.

O Espírito Santo chamado de “ele/isso”

Há outra dificuldade que os antitrinitários costumam apontar: em algumas passagens, Ellen White se referiu ao Espírito Santo com pronome impessoal.

Isso pode soar estranho depois de tudo o que vimos sobre Sua personalidade. Mas o argumento pronominal é um pouco forçado. No grego do Novo Testamento, por exemplo, pneuma — “espírito” — é uma palavra de gênero neutro e normalmente recebe pronomes que concordam com esse gênero. Isso não significa que o referente seja uma coisa. O próprio João, ao falar do Consolador em João 16:13-14, empregou também o masculino ekeinos, em conexão com a linguagem pessoal usada para o Paráclito.

No inglês, a situação é um pouco diferente, porque não há esse mesmo sistema de gênero gramatical dos substantivos. Ainda assim, o uso histórico de it para spirit não decide, por si só, se o referente é pessoal ou impessoal.

Por isso, acho que seria constrangedor tentar negar que Ellen White tenha usado linguagem impessoal em algumas ocasiões, porque ela usou. A pergunta é quanto essa escolha pronominal deve pesar diante de afirmações deliberadas como “o Espírito Santo tem personalidade”, “deve ser também uma pessoa divina” e “é tanto uma pessoa como o próprio Deus”. Quando uma escolha de pronome e uma afirmação doutrinária explícita parecem apontar em direções diferentes, é difícil imaginar que o pronome deva prevalecer.

“Antes que os anjos fossem criados” e o conselho celestial

Em Spirit of Prophecy e depois em Patriarcas e Profetas, Ellen White descreveu Deus reunindo os anjos e proclamando diante deles a verdadeira posição e a autoridade de Cristo. A solenidade da cena poderia sugerir que naquele momento o Filho estivesse recebendo uma posição que antes não possuía.

Mas Ellen White praticamente fechou essa possibilidade ao explicar, no mesmo capítulo, que “não tinha havido mudança alguma na posição ou autoridade de Cristo. A inveja e falsa representação de Lúcifer, bem como sua pretensão à igualdade com Cristo, tornaram necessária uma declaração a respeito da verdadeira posição do Filho de Deus; mas esta havia sido a mesma desde o princípio.” Patriarcas e Profetas, cap. 1, p. 12.

A inveja de Lúcifer havia tornado necessária uma declaração pública da verdadeira posição do Filho, posição que, segundo ela, “fora a mesma desde o princípio”. Isso muda completamente a cena. O conselho celestial não conferiu a Cristo uma nova dignidade. Tornou pública diante dos anjos uma dignidade que Ele já possuía. O anúncio não criou a realidade; declarou-a. E, na verdade, a própria inveja de Lúcifer pressupunha isso. Ele não estava ressentido porque Cristo acabara de receber algo novo. Seu ressentimento havia surgido precisamente diante da posição que Cristo já ocupava. Afinal de contas, o desejo dele não era o de ser igual a Deus?

O mistério

Quero terminar esta parte onde Ellen White mesma colocou um limite. No artigo de 1906 em que falou da preexistência e da eternidade de Cristo, ela também escreveu que Sua unidade com o Pai antes da fundação do mundo era “infinitamente misteriosa em si” e que, embora lançasse luz sobre outros mistérios, permanecia revestida de “luz inacessível e incompreensível”.

Certamente isso não significa que Ellen White tenha voltado atrás no que havia afirmado. Ela apenas reconheceu que há um ponto além do qual nossa compreensão não pode avançar. E há uma diferença importante entre contradição e mistério. Uma contradição ocorre quando afirmamos e negamos a mesma coisa, ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Um mistério é diferente: podemos saber algo verdadeiro sobre uma realidade sem compreender exaustivamente como ela é possível.

Ellen White podia, portanto, afirmar que Cristo é eterno, distinto do Pai e plenamente divino sem pretender explicar por completo como essa relação eterna existe. E, quando o assunto é a própria natureza de Deus, isso não deveria nos surpreender. Se Deus é infinito e nós somos finitos, seria contraditório imaginar que uma mente finita pudesse compreendê-Lo de maneira exaustiva. Se pudéssemos abarcar tudo o que Deus é, sem que nada restasse além de nossa compreensão, então já não estaríamos falando de um Ser verdadeiramente infinito.

Conclusão

Quando todas as peças são colocadas sobre a mesa, a hipótese da adulteração começa a se desmanchar. Seria preciso acreditar que os compiladores dos anos 1940 conseguiram introduzir sua teologia em textos que já circulavam em revistas de 1897, 1898 e 1906 (voltaram no tempo?); que secretárias alteraram manuscritos nos quais encontramos correções feitas pela própria mão de Ellen White; que W. W. Prescott a levou, em 1896, a adotar uma cristologia que ele mesmo ainda não sustentava; e que M. L. Andreasen, desconfiado justamente das declarações que hoje estão no centro da controvérsia, examinou os manuscritos em Elmshaven, encontrou a fraude que procurava e, em vez de denunciá-la, mudou de opinião.

A essa altura, a pergunta deixa de ser quantas coincidências estamos dispostos a aceitar. O problema é mais profundo: o que poderia, afinal, contar como evidência contra essa teoria?

Se encontramos uma declaração sobre a plena divindade de Cristo, dizem que foi adulterada. Se descobrimos que a mesma declaração havia sido publicada enquanto Ellen White estava viva, então a adulteração começou antes. Se encontramos o manuscrito, a culpa passa para as secretárias. Se há palavras escritas ou corrigidas pela própria Ellen White, procuram alguma influência externa que explique por que ela as escreveu. Enfim, a hipótese antitrinitária só sobrevive porque cada nova evidência produz uma nova camada de explicação.

Assim, acabam protegendo a conclusão que já escolheram e impedindo que as evidências tenham a última palavra. E não vamos fingir que esse perigo existe apenas de um lado. O trinitário pode fazer exatamente a mesma coisa. Se cada frase difícil de Ellen White for imediatamente reinterpretada apenas porque não combina com aquilo que já queremos que ela tenha ensinado, o método não melhora por chegar à conclusão correta. Foi por isso que demos espaço a textos como “foi feito igual ao Pai”. Ele é desconfortável. À primeira leitura, parece favorecer uma cristologia subordinacionista. Merecia ser tratado assim.

Depois de examinado em seu contexto, porém, não penso que seja suficiente para inverter o quadro que surgiu ao longo de décadas de escritos. Para isso, precisaríamos encontrar nos escritos maduros de Ellen White algo muito mais claro: uma negação da eternidade de Cristo, de Sua plena divindade ou da personalidade divina do Espírito Santo. Em vez disso, encontramos de modo explícito as afirmações que examinamos: Cristo existia “desde toda a eternidade”; era “essencialmente e no mais alto sentido, Deus”; possuía vida “original, não emprestada, não derivada”; e o Espírito Santo era “tanto uma pessoa como o próprio Deus”.

Se você é um adventista antitrinitário e chegou até aqui, meu pedido não é que aceite minha conclusão porque leu este artigo. Faça algo melhor: confira as fontes. Abra os livros. Veja as datas. Compare as citações com o contexto. Quando a tradução estiver em discussão, consulte o original. Leia o que Andreasen contou sobre sua visita a Elmshaven e pergunte a si mesmo por que um homem que compartilhava daquela desconfiança saiu de lá pensando de outra maneira.

E mesmo assim, talvez você continue discordando de mim. Tudo bem. Mas então a questão terá de ser decidida pelo que os documentos dizem, e não pela necessidade de que Ellen White continue sendo aquilo que os pioneiros de 1846 eram.

E, se você é trinitário adventista, há também uma correção a fazer. Não precisamos transformar Ellen White em algo que ela nunca pretendeu ser. A Trindade não é verdadeira porque Ellen White a ensinou. Se é uma doutrina cristã verdadeira, deve ser demonstrável a partir das Escrituras. O valor de seus escritos nesta discussão é outro: eles nos permitem perguntar se ela rejeitou essa compreensão de Deus ou se, ao longo de seu ministério, caminhou cada vez mais claramente em sua direção. As evidências que examinamos aqui apontam para a segunda alternativa.

Por isso, também não precisamos ajudá-la com argumentos ruins. Ellen White não usou a palavra Trinity; não devemos colocá-la em sua boca por causa de uma tradução brasileira de Godhead. Não precisamos esconder que muitos pioneiros foram antitrinitários, nem fingir que “foi feito igual ao Pai” é uma frase fácil. Uma posição que depende de apagar esses fatos seria frágil demais para merecer nossa confiança.

Depois de percorrer toda essa história, porém, alguma coisa me parece difícil de negar. A Ellen White de seus últimos anos não falava de Cristo como Uriah Smith havia falado em 1865. Falava de um Cristo eterno, autoexistente, plenamente divino, distinto do Pai; e falava do Espírito Santo como pessoa divina. Podemos discutir como organizar teologicamente todas essas afirmações e até perguntar quanto tempo levou para que o adventismo percebesse suas implicações. O que já não parece historicamente plausível é resolver o problema dizendo que alguém simplesmente colocou essas palavras em sua boca depois que ela morreu.


Notas

James White, Review and Herald, 11 de dezembro de 1855, p. 85, citado em PFANDL, Gerhard. The Doctrine of the Trinity Among Adventists. Biblical Research Institute, Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia.

Joseph Bates, Autobiography (Battle Creek, 1868), p. 205, citado em PFANDL, op. cit.

J. N. Loughborough, Review and Herald, 5 de novembro de 1861, citado em PFANDL, op. cit.

R. F. Cottrell, Review and Herald, 6 de julho de 1869, citado em PFANDL, op. cit.

J. N. Andrews, Review and Herald, 7 de setembro de 1869, citado em PFANDL, op. cit.

Uriah Smith, Thoughts, Critical and Practical, on the Book of Revelation (Battle Creek, 1865), p. 59.

Comparar Testemunhos para a Igreja, vol. 1, p. 207 (1858) com Conselhos sobre o Regime Alimentar, p. 392 (1868). O paralelo é observado por PFANDL, op. cit.

Review and Herald, 17 de dezembro de 1872; reimpresso em The Spirit of Prophecy (1877), vol. 2, p. 9-10; conforme WHIDDEN, Woodrow; MOON, Jerry; REEVE, John W. A Trindade. Engenheiro Coelho: UNASPRESS, 2002, p. 255.

Review and Herald, 8 de agosto de 1878, conforme A Trindade (Whidden, Moon, Reeve), p. 261.

Review and Herald, 11 de janeiro de 1881, conforme A Trindade, p. 251.

Review and Herald, 5 de julho de 1887, conforme A Trindade, p. 251-252.

Review and Herald, 7 de janeiro de 1890, conforme A Trindade, p. 252 e 260.

Signs of the Times, 27 de novembro de 1893, conforme A Trindade, p. 252 e 260.

WHITE, Ellen G. Mensagens Escolhidas, vol. 1. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, p. 278. Conferido por mim na edição da CPB. Origem: Signs of the Times, 8 de abril de 1897, artigo Christ the Life-giver (ed. inglesa: 1SM 296).

WHITE, Ellen G. Mensagens Escolhidas, vol. 1, p. 233 (seção A preexistência de Cristo). Conferido por mim na edição da CPB. Origem: Review and Herald, 5 de abril de 1906 (ed. inglesa: 1SM 247-248). A citação de Provérbios 8:22-27 e a declaração sobre o mistério estão nesta mesma página.

WHITE, Ellen G. O Desejado de Todas as Nações. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, p. 461. Conferido por mim na CPB (ed. inglesa: DA 530).

WHITE, Ellen G. Patriarcas e Profetas. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, p. 10. Conferido por mim na CPB (ed. inglesa: PP 36).

WHITE, Ellen G. O Desejado de Todas as Nações, p. 410. Conferido por mim na CPB (ed. inglesa: DA 469-470).

WHITE, Ellen G. Patriarcas e Profetas, p. 265 (comentário ao primeiro mandamento). Conferido por mim na CPB (ed. inglesa: PP 305).

Signs of the Times, 3 de maio de 1899, conforme A Trindade, p. 253.

WHITE, Ellen G. Nossa Alta Vocação. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, p. 91 (leitura de 7 de fevereiro). Conferido por mim na CPB. Origem: Carta 23, 1873.

Review and Herald, 22 de dezembro de 1891, conforme A Trindade, p. 256-257.

WHITE, Ellen G. Evangelismo. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, p. 483. Conferido por mim na CPB (ed. inglesa: Ev 615). Origem: Special Testimonies, Série B, nº 7, p. 62-63 (1905). A CPB verte heavenly trio como trindade celeste.

WHITE, Ellen G. Evangelismo, p. 482-483. A observação sobre Colossenses 2:9 aplicado às três Pessoas é dos compiladores de A Trindade, p. 259.

Manuscrito 145, 1901; em Evangelismo, p. 484 (CPB). Redação conforme a edição brasileira.

Manuscrito 66, 1899 — palestra aos alunos da Escola de Avondale; em Evangelismo, p. 484 (CPB).

Manuscrito 20, 1906; em Evangelismo, p. 484 (CPB).

PFANDL, Gerhard. The Doctrine of the Trinity Among Adventists. Biblical Research Institute. Comparar Testemunhos para Ministros e Obreiros Evangélicos (CPB), p. 329, com Testimonies to Ministers, p. 392 (the third person of the Godhead).

BEACHY, Lynnford. Did They Believe in the Trinity?, p. 1, citado em PFANDL, op. cit.

ALLABACK, Fred. No New Leaders… No New Gods! Creal Springs, Ill., 1995, p. 38, citado em PFANDL, op. cit.

ALLABACK, op. cit., p. 69. O contexto integral do Manuscrito 66, 1899 está em Manuscript Releases, vol. 7, p. 299.

ALLABACK, op. cit., p. 62, 65 e 69. A incoerência é apontada por PFANDL, op. cit.

POIRIER, Tim. Ellen White’s Trinitarian Statements: What Did She Actually Write? Ellen White and Current Issues Symposium, Andrews University, 2006.

M. L. Andreasen, citado em HOLT, Russell. The Doctrine of the Trinity in the Seventh-day Adventist Denomination (trabalho de curso, Andrews University, 1969), p. 20; reproduzido em PFANDL, op. cit.

Testemunho de M. L. Andreasen, 15 de outubro de 1953, Document File 961, White Estate; reproduzido em PFANDL, op. cit.

W. W. Prescott, Review and Herald, 14 de abril de 1896, p. 232, citado em PFANDL, op. cit.

1919 Bible Conference Transcripts, 6 de julho de 1919, p. 58 e 62.

UNDERWOOD, R. A. The Holy Spirit a Person. Review and Herald, vol. 75, nº 20, 17 de maio de 1898, p. 2.

JONES, A. T. The Medical Missionary, vol. 16, 27 de março de 1907, p. 98.

SMITH, Uriah. Thoughts, Critical and Practical, on the Book of Revelation, ed. de 1881, p. 74.

SMITH, Uriah. Looking Unto Jesus. Battle Creek: Review and Herald, 1898, p. 13. A permanência do semiarianismo de Smith é registrada por PFANDL, op. cit., nota 7.

James White, Review and Herald, 12 de outubro de 1876, citado em PFANDL, op. cit.

WHITE, James. Christ Equal with God. Review and Herald, 29 de novembro de 1877, p. 72.

1919 Bible Conference Transcripts, 6 de julho de 1919, p. 57 e 64.

WHITE, Ellen G. Mensagens Escolhidas, vol. 1, p. 191. Conferido por mim na CPB.

WHITE, Ellen G. Carta 150, 15 de maio de 1906.

Seventh-day Adventist Yearbook, 1931, crenças fundamentais 3 e 4; Seventh-day Adventists Believe… (Hagerstown, 1988), p. 16. Ver PFANDL, op. cit.

WHITE, Ellen G. Testemunhos para a Igreja, vol. 8. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, p. 265. Conferido por mim na CPB (ed. inglesa: 8T 268).

A leitura contextual — a declaração como elaboração de Hebreus 1:1-5, referida à exaltação pós-ascensão — é proposta por PFANDL, op. cit., nota 10.

Ver, entre outros, Testemunhos para a Igreja, vol. 1, p. 124, e Youth’s Instructor, 1º de agosto de 1895. Os exemplos são reunidos por PFANDL, op. cit., nota 8.

WHITE, Ellen G. Patriarcas e Profetas (ed. inglesa: PP 38): “Não houvera mudança na posição ou autoridade de Cristo”; a inveja de Lúcifer tornara necessária uma declaração da verdadeira posição do Filho, que fora a mesma desde o princípio.

Referências Bibliográficas

Obras de Ellen G. White conferidas na edição da CPB:

WHITE, Ellen G. Evangelismo. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira.

WHITE, Ellen G. Mensagens Escolhidas, vol. 1. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira.

WHITE, Ellen G. O Desejado de Todas as Nações. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira.

WHITE, Ellen G. Patriarcas e Profetas. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira.

WHITE, Ellen G. Testemunhos para a Igreja, vol. 8. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira.

WHITE, Ellen G. Testemunhos para Ministros e Obreiros Evangélicos. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira.

WHITE, Ellen G. Nossa Alta Vocação. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira.

WHITE, Ellen G. A Ciência do Bom Viver. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira.

Fontes secundárias:

PFANDL, Gerhard. The Doctrine of the Trinity Among Adventists. Silver Spring: Biblical Research Institute, Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia.

WHIDDEN, Woodrow; MOON, Jerry; REEVE, John W. A Trindade. Engenheiro Coelho: UNASPRESS, 2002.

POIRIER, Tim. Ellen White’s Trinitarian Statements: What Did She Actually Write? Ellen White and Current Issues Symposium, Andrews University, 2006.

MOON, Jerry. The Adventist Trinity Debate, Parts 1 and 2. Andrews University Seminary Studies 41 (2003).

BURT, Merlin D. History of Seventh-day Adventist Views on the Trinity. Journal of the Adventist Theological Society 17, no. 1 (2006).

Obras antitrinitárias examinadas (citadas por intermédio de Pfandl):

ALLABACK, Fred. No New Leaders… No New Gods! Creal Springs, Ill., 1995.

BEACHY, Lynnford. Did They Believe in the Trinity?

SMITH, Uriah. Looking Unto Jesus. Battle Creek: Review and Herald, 1898.

Leia também:

Provérbios 8: o texto que o antitrinitário usa contra si mesmo

A doutrina da Trindade é idolatria? Uma análise de Romanos 1:25

A Divindade de Cristo em Apocalipse 3:14

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Graduando em História pela Universidade Estácio de Sá e estudioso de Teologia, defende a premissa de que o conhecimento se torna verdadeiramente valioso quando compartilhado. Junte-se a mim nessa jornada!

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