Apologética

Seria Deus um monstro moral?

seria Deus um monstro moral
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Em seu livro Deus, um Delírio, o biólogo e militante ateu Richard Dawkins faz uma acusação com genuíno prazer retórico — e admito que o impacto do argumento tem alguma justificativa. O Deus do Antigo Testamento, diz ele, ordenou o massacre de crianças inocentes e bebês de peito. Esse relato incômodo está em 1 Samuel 15:3: “Vai, pois, agora, e fere a Amaleque, e destrói totalmente a tudo o que tiver, e nada lhe poupes; porém matarás homem e mulher, meninos e crianças de peito, bois e ovelhas, camelos e jumentos.” A ordem foi severa, sem nenhuma figura de linguagem para suavizar o impacto. É o tipo de leitura que causa certa repulsa. Confesso que passei muito tempo sem saber o que fazer com esse versículo. Como um Deus de amor pode mandar matar bebês e crianças? Pense nas implicações disso. Esse é um versículo que ateus adoram citar, e é difícil culpá-los diante de uma primeira leitura.

Mas antes de entrar nessa fogueira, precisamos dar um passo atrás e fazer outra pergunta. Não “como justificar o que Deus ordenou”, mas algo que logicamente vem antes: qual é o destino final reservado a essas crianças na ressurreição, quando a história humana for selada?

Essa é uma pergunta que quase ninguém faz. E a resposta muda tudo.

Entretanto, para respondê-la com honestidade, é preciso ver o quadro maior. A história humana não é o único palco onde o drama se desenrola. Há um conflito mais antigo do que a própria humanidade — uma disputa sobre o caráter de Deus, sobre se Ele é realmente quem diz ser, iniciada antes da criação do homem e que usa a história humana como seu teatro principal. É dentro desse conflito que a pergunta sobre as crianças encontra sua resposta mais profunda.

O silêncio nos livros de registro

Em Apocalipse 20, encontramos a descrição de uma cena de julgamento onde os mortos estão diante do trono, livros são abertos, e cada um é julgado segundo o que estava escrito nesses livros, segundo as suas obras. Ao descrever essa mesma cena, Daniel escreveu: “Um rio de fogo manava e saía de diante dele; milhares de milhares o serviam, e miríades de miríades estavam diante dele; assentou-se o tribunal, e se abriram os livros” (Daniel 7:10). Assim, a Bíblia nos ensina que nossas ações e pensamentos (pois pensamentos são embriões de ações) são registrados para o dia do juízo.

Mas o que exatamente está nesse arquivo? Paulo já havia dito o princípio por trás disso em Romanos: “porque a lei suscita a ira; mas onde não há lei, também não há transgressão” (Romanos 4:15). Em outras palavras, para que algo seja registrado contra alguém, é preciso que esse alguém tenha tido capacidade de reconhecer o que estava fazendo como certo ou errado. O arquivo não é apenas um registro de atos, mas um registro de atos moralmente conscientes. Sem essa consciência, o registro fica vazio.

Bem, o que isso significa na prática? Pense num bebê. Um ser inocente, frágil, totalmente dependente que só conhece o cheiro da mãe e o gosto do leite. Se esse bebê chegar a morrer, o que terá sido registrado sobre ele? Absolutamente nada. Nada terá sido registrado que o possa condenar.

Vale notar que essa lógica não depende de uma idade específica — não é uma questão de quantos anos a criança tinha, mas de se ela havia desenvolvido consciência moral efetiva. Trata-se de uma categoria funcional, não cronológica. E por isso alcança, com igual coerência, adultos com deficiência cognitiva severa que viveram décadas sem jamais ter podido responder a Deus como agentes morais. A eternidade os receberá inteiros no que aqui nunca puderam ser.

Isso resolve a metade negativa da questão, mas a metade positiva exige atenção separada. A ausência de condenação não é o mesmo que salvação. O mesmo capítulo 20 de Apocalipse fala de um segundo livro, o Livro da Vida, e quem não estiver inscrito nele será jogado no lago de fogo e enxofre. Agora, como uma criança que morreu sem jamais ter feito uma escolha consciente entra nesse livro? A resposta está na graça de Cristo, que cobre exatamente onde a rejeição nunca pôde acontecer. Não há escolha que a exclua porque não houve escolha nenhuma, a inscrição é feita pela graça, não pela decisão que nunca existiu.

Davi parece ter chegado a algo parecido quando seu filho recém-nascido morreu. A cena está em 2 Samuel 12. O bebê adoeceu, o rei jejuou sete dias deitado na terra, recusou comida, recusou consolo. Os servos temiam avisar quando a criança morreu, porque tinham visto o quanto ele sofrera durante a doença. Mas quando Davi soube, levantou-se da terra, lavou-se, comeu, entrou na casa do Senhor e adorou. Os servos ficaram boquiabertos com a cena. Diante da perplexidade deles, Davi respondeu: “Porém, agora que é morta, por que jejuaria eu? Poderei eu fazê-la voltar? Eu irei a ela, porém ela não voltará para mim” (2 Samuel 12:23).

O rei não estava dizendo que seu filho estava consciente em algum lugar aguardando por ele. Dentro do que a Bíblia ensina sobre o estado dos mortos — o “sono” que precede a ressurreição —, estava dizendo algo mais sóbrio e mais firme: que ambos iriam para o pó, e que estariam novamente juntos um dia, na gloriosa manhã da ressureição. O luto era real, a perda também era. E ainda assim ele se levantou e comeu pão, porque sabia que a história não havia terminado. Sabia que um dia teria seu filho de volta em seus braços, e dessa vez, para sempre.

O outro lado da história

Pois bem, se isso é verdade para o filho de Davi, era verdade também para as crianças cananéias. Releia essa frase.

As criancinhas que morreram sob aquelas ordens de extermínio, bebês que nunca chegaram a produzir um único ato moralmente relevante, estão na mesma situação do filho do rei. Sem condenação nos livros. Estão cobertas pela graça aguardando a ressurreição.

Admito que não há um versículo que declare isso em letras garrafais, mas é o que a lógica do julgamento implica, e a implicação parece séria o suficiente para ser considerada com cuidado. Assim, o que parecia ser extermínio começa a ter outra face.

Para entender completamente o que aconteceu, é preciso saber o que eram aquelas civilizações. Em Gênesis 15 encontramos um detalhe que costuma passar despercebido: quando Deus formalizou a aliança com Abraão, disse que seus descendentes não tomariam a terra ainda porque a iniquidade dos amorreus ainda não estava completa. Quatrocentos anos antes do julgamento, Deus já sabia o que viria — e esperou (Isso, por si só, diz muita coisa sobre o tipo de Deus que estamos discutindo.). Já Levítico 18 descreve o que havia qualificado aquelas nações para o julgamento que as condenou: sacrifício de filhos a Moloque, ritos de fertilidade vinculados ao culto de Baal e Ashtoreth, sistemas de adivinhação que organizavam a vida social inteira. Não eram indivíduos pecando isoladamente. Era uma máquina cultural de abominações construída ao longo de gerações.

Ao contrário do que muitos pensam, a acusação bíblica de sacrifício infantil não é sem fundamento. Em seu livro Molech: A God of Human Sacrifice in the Old Testament, o professor John Day, de Oxford, afirma que há evidências independentes de que o sacrifício de crianças era praticado no mundo cananeu e fenício, provenientes de fontes clássicas, inscrições púnicas e evidências arqueológicas. Escavações em sítios fenícios revelaram urnas contendo restos de bebês misturados com ossos de animais. O Tofete — local de sacrifício mencionado em Jeremias e Levítico — foi identificado arqueologicamente tanto em Cartago quanto em outros sítios do mundo fenício-cananeu. Aquelas civilizações não apenas toleravam a morte de seus próprios filhos como um ato religioso, mas também a institucionalizavam.

Perceba as implicações disso. Imagine uma criança nascida ali. Essa criança havia visto o avô sacrificar um de seus irmãozinhos. Seu pai observara isso e no devido tempo repetiria o ato. A criança veria o pai e faria o mesmo. E assim foi por gerações. Séculos. Que tipo de adulto você acha que essa criança se tornaria?

Deus conheceu cada trajetória de cada criança que existiu naquela civilização. E aqui é importante ser preciso, pois o fato de Deus saber o que vai acontecer não causa o acontecimento. Deus conhece o que cada criatura vai escolher livremente, sem que esse conhecimento force a escolha. A liberdade permanece intacta. O que muda é que Deus pode agir sabendo de trajetórias que ainda não se cumpriram — e a criança que morreu antes de desenvolver consciência moral saiu daquela trajetória antes do ponto sem retorno.

Aqui o crítico poderia objetar: “mas Deus não é onipotente? Ele não poderia simplesmente realocar essas crianças em vez de matá-las?”. A objeção parece razoável até que se considere o mundo concreto em que isso aconteceria. A família é o lugar primário de formação da consciência humana, por desígnio de Deus. Crianças cananéias transplantadas para Israel, por exemplo — num contexto de hostilidade cultural profunda, séculos de animosidade entre povos — encontrariam um segundo ambiente de rejeição em vez de salvação. Embora Deus seja onipotente, Ele não cancela as estruturas que Ele mesmo criou.

Um verdadeiro tiro no pé

Em Apocalipse 12 há o relato de uma guerra que precedeu tudo o que conhecemos: um conflito no céu, um dragão que arrastou consigo um terço das estrelas, e uma batalha cujo resultado determinou a natureza do mundo em que vivemos. Esse relato, longe de ser mera metáfora, é o pano de fundo sem o qual a história humana não faz sentido completo. O livro de Jó torna essa dinâmica ainda mais concreta quando Satanás se apresenta diante do Criador acusando-O de ser manipulador e corrupto. Quando Deus pergunta: “Você reparou no meu servo Jó? Não há ninguém como ele na terra. Ele é um homem íntegro e reto, que teme a Deus e se desvia do mal” (Jó 1:8), o adversário retruca: “Será que é sem motivo que Jó teme a Deus? Não é verdade que tu mesmo puseste uma cerca ao redor dele, da sua casa e de tudo o que ele tem? Abençoaste a obra de suas mãos, e os seus bens se multiplicaram na terra. Mas estende a tua mão e toca em tudo o que ele tem, para ver se ele não blasfema contra ti na tua face” (Jó 1:9-11).

Em outras palavras, a acusação era de que Jó servia a Deus por puro interesse, e que a remoção das bênçãos exporia uma fraude. Trata-se de um questionamento profundo sobre quem Deus realmente é. É precisamente por isso que o juízo final existe: não apenas para avaliar os homens, mas para revelar, perante todo o universo, o verdadeiro caráter do Criador.

O livro de Daniel (capítulo 10) acrescenta que há inteligências espirituais sobre as nações — forças que operam nos bastidores da geopolítica disputando a mente das civilizações. Sob essa ótica, aquelas culturas cananeias provavelmente não atingiram tal nível de degradação por mera evolução sociológica. Foram autênticos laboratórios, construídos estrategicamente para produzir uma encruzilhada moral que colocasse Deus em uma posição de aparente contradição. A narrativa que o arquiteto da rebelião pretendia consolidar era exatamente a mesma que Dawkins replicaria milênios mais tarde: “Vejam o caráter daquele que alega ser amor: um exterminador de inocentes, um genocida”.

E, superficialmente, a estratégia funcionou. A imagem de Deus saiu daquela operação manchada na mente de incontáveis gerações, e esse custo histórico foi real.

O resultado final, contudo, divergiu do que o idealizador daquela narrativa esperava. Cada criança daquelas civilizações que pereceu antes de desenvolver a consciência moral dorme agora aguardando a primeira ressurreição, com seu nome inscrito no Livro da Vida pela graça de Cristo. Cada futuro súdito que aquele sistema maligno planejava moldar foi subtraído dele antes de ser definitivamente capturado. O adversário arquitetou um plano para manchar a reputação divina e perdeu, sem perceber, justamente as almas que mais desejava corromper.

A cruz de Cristo segue o mesmo padrão de contragolpe, embora em escala muito maior. A morte de Jesus parecia o movimento definitivo do mal. O apóstolo Paulo reconheceu que a mensagem da cruz era escândalo para os judeus e loucura para os gregos. No entanto, o desfecho revelou o triunfo da redenção: Cristo desmascarou e venceu os principados na própria cruz, extraindo a vitória daquilo que parecia uma derrota absoluta. Deus aceitou parecer monstruoso por um momento histórico porque conhecia o desfecho de tudo. Sempre o conheceu.

Diante de tudo o que discutimos até agora, parece-me que o momento glorioso da volta de Jesus será ainda mais emocionante e belo do que poderíamos imaginar. De todos os seres humanos que já habitaram este planeta — em uma estimativa histórica de aproximadamente 100 bilhões de pessoas —, entre 40% e 50% morreram antes de atingir a idade adulta. Pesquisadores que analisaram dados demográficos de dezessete sociedades distintas ao longo de 2.500 anos, desde caçadores-coletores paleolíticos até civilizações pré-modernas, chegaram à mesma conclusão de forma independente: em média, metade de todas as crianças falecia antes da puberdade, com uma consistência matemática assustadora entre culturas totalmente diversas. Em sociedades antigas, a mortalidade antes dos cinco anos de idade chegava a 60%. Somemos a isso os natimortos, os abortos espontâneos e os menores sacrificados em altares pagãos. A categoria dos que partiram sem discernimento moral constitui uma multidão contada em dezenas de bilhões.

A meu ver, aqui entra em cena uma belíssima inversão na concepção tradicional de que apenas uma minoria estrita da raça humana herdará a salvação. A “imensa multidão” de salvos descrita em Apocalipse 7:9 poderá ser composta, em sua esmagadora maioria, por esses bilhões de bebês e crianças.

Mas e a porta estreita?

Eu sei o que você está pensando agora: “mas a Bíblia diz que poucos serão salvos. Jesus falou de uma porta estreita (Mt 7:13-14). Paulo citou Isaías dizendo que só o remanescente seria salvo (Rm. 9:27-29).

Sem dúvida. Entretanto, esses textos falam para e sobre agentes morais conscientes — pessoas capazes de encontrar ou não encontrar a porta. Uma criança que tem a vida ceifada antes do desenvolvimento dessa faculdade cognitiva simplesmente não se enquadra na categoria descrita por tais advertências. Ela não faz parte dos “muitos” que trilham a via larga, nem dos “poucos” que cruzam a porta estreita por escolha deliberada. Pertence a uma categoria distinta, que essas passagens específicas de exortação moral não visam abranger.

Se essa premissa teológica estiver correta, surge uma implicação que poucos param para calcular: quando Jesus voltar e os mortos ressuscitarem, a multidão dos salvos será composta em sua esmagadora maioria por crianças, como já dito. Longe de ser uma especulação de viés sentimentalista, essa é a conclusão lógica apontada pelos próprios dados da história humana. Assim, em vez de uma minoria, a maior parte da humanidade será salva. Um fato que altera drasticamente a nossa percepção sobre a generosidade do caráter de Deus.

Os próprios anjos confirmam esse padrão numérico pelo viés oposto. Quando a rebelião dividiu as hostes celestes, dois terços da criação angélica permaneceram fiéis. Aquela foi a escolha mais livre e bem-informada, tomada em um ambiente de luz plena, sem as amarras de uma natureza herdada ou de uma cultura corrompida. E, mesmo ali, a maioria optou pela fidelidade. Na Terra, combinando os que escolheram conscientemente o Criador com os bilhões que nunca tiveram a oportunidade de rejeitá-Lo, o resultado aponta para o mesmo lugar: mais almas salvas do que perdidas.

A gloriosa manhã da ressurreição

Quando o grande conflito for finalizado, os livros selados e o veredito pronunciado perante o olhar atento do universo, onde Deus terá colocado esses inocentes? Onde estarão aqueles que partiram antes mesmo de descobrir que a escolha era uma possibilidade?

No tribunal divino, o Livro da Vida trará registrados os nomes das crianças anônimas — as que morreram em guerras que os livros de história registraram como conquistas, as que pereceram em rituais que gerações seguintes tentaram esquecer, as que atravessaram apenas os primeiros meses de vida antes de ir para o “sono” que precede a ressurreição. Elas herdarão uma vida imortal em um ecossistema perfeito. Serão para sempre filhos do Pai celeste.

Aquele que durante milênios foi acusado de tirano vai ser visto como aquele que foi arrecadando silenciosamente, ao longo de toda a história humana, os que o mundo descartou antes de terem capacidade de escolha.

Então, voltando à pergunta: seria Deus um monstro moral?

A acusação peca por focar estritamente na metade incompleta da história. Avalia o rigor do decreto histórico de execução e ignora o destino eterno reservado àqueles inocentes na ressurreição. Trata-se de momentos distintos, com respostas de naturezas completamente diferentes. O que à superfície e sob o calor do tempo parecia um extermínio implacável, visto de perto e sob a perspectiva da eternidade, revela-se como algo inteiramente oposto: uma surpreendente e silenciosa operação de misericórdia.


Referências Citadas:

DAWKINS, Richard. Deus, um delírio. Tradução de Fernanda Ravagnani. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. — Real e verificado. ISBN 978-85-359-1070-4, 528 páginas.

DAY, John. Molech: A God of Human Sacrifice in the Old Testament. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.

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Graduando em História pela Universidade Estácio de Sá e estudioso de Teologia, defende a premissa de que o conhecimento se torna verdadeiramente valioso quando compartilhado. Junte-se a mim nessa jornada!

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