Na noite de 28 de janeiro de 1948, dois homens sentaram-se diante dos microfones do Terceiro Programa da BBC para discutir, ao vivo, se Deus existe. De um lado, Bertrand Russell, aos 75 anos, provavelmente o lógico mais famoso do mundo e agnóstico de longa data. Do outro, Frederick Copleston, jesuíta, professor de filosofia e autor de uma monumental história da filosofia em nove volumes que, até hoje, muitos ateus utilizam como manual. Copleston abriu propondo uma definição de trabalho: por “Deus”, entendamos um ser pessoal supremo, distinto do mundo e criador dele. Russell aceitou. Começava ali o que se tornaria, talvez, o debate filosófico mais citado do século XX.
Em certo ponto da conversa, Copleston perguntou se Russell concordaria com Sartre em que o universo é “gratuito”. A resposta de Russell entrou para a história: “A palavra ‘gratuito’ sugere que ele poderia ser outra coisa; eu diria que o universo simplesmente está aí, e é tudo.”
Mas repare, antes de avançarmos, em um detalhe fundamental: isso não é um argumento. Não há ali premissas, inferência, nem conclusão. É apenas uma decisão: a decisão de parar de perguntar. E no decorrer deste artigo examinaremos uma única questão: essa decisão é racional? Ou Russell, naquele programa, fez o que tantos fazem hoje em escala industrial, que é fechar uma porta e chamar o gesto de resposta?
A pergunta que sobrevive a todas as respostas
Em 1714, perto do fim da vida, Leibniz formulou nos Princípios da natureza e da graça (§7) aquela que talvez seja a pergunta mais profunda que uma mente humana pode conceber: por que existe algo em vez do nada? E acrescentou a razão pela qual a pergunta é inevitável: pois o nada é mais simples e mais fácil do que algo. O nada não pede explicação. Não há nele o que explicar. O algo, sim. Quando acordamos a cada manhã e percebemos que o universo continua existindo, vemos que a alternativa mais simples não se realizou. Por quê?
A primeira reação dos críticos é previsível: “isso é assunto da ciência”. Esse é o primeiro ponto que precisa ficar claro: isso não é assunto da ciência. Não por uma limitação provisória do nosso conhecimento, mas por causa da própria estrutura de toda explicação científica. A ciência explica estados do mundo a partir de outros estados do mundo, guiados por leis. O ovo vem da galinha; a galinha, do ovo anterior; a bioquímica de ambos, da física de partículas; e tudo isso, das condições iniciais do cosmos. Repare: cada elo dessa corrente explica um arranjo de coisas existentes apelando para outro arranjo de coisas existentes.
A pergunta de Leibniz está uma camada abaixo: por que há coisas para serem arranjadas? Por que há leis em vez de lei nenhuma? Pedir que a física responda a isso é o mesmo que pedir que as regras do xadrez expliquem por que existe um tabuleiro sobre a mesa. As regras dizem como as peças se movem, dado que as peças existem. Elas não dizem por que a partida começou. Essa distinção não é um capricho filosófico; o próprio Stephen Hawking reconheceu essa fronteira no final de Uma breve história do tempo, em um raro momento de assombro: o que é que insufla fogo nas equações e faz existir um universo para elas descreverem? Hawking sabia que nenhuma equação responde a isso, porque equações descrevem o fogo; elas não o acendem.
Pois bem: se a pergunta é real e a ciência não pode tocá-la, restam duas saídas. Ou ela tem uma resposta fora da natureza, ou não tem resposta nenhuma. A primeira saída chama-se teísmo. A segunda foi a escolha de Russell. Não existe terceira via, e boa parte da confusão moderna consiste, justamente, em fingir que existe.
O argumento em três passos
Para colocar as cartas na mesa, vou defender a visão que William Lane Craig popularizou em Apologética Contemporânea, herdeira direta de Leibniz. Gosto dela porque expõe as vísceras lógicas do raciocínio sem espaço para mal-entendidos. São três premissas e uma conclusão:
- Tudo o que existe tem uma explicação para estar aqui — seja porque sua própria natureza exige, ou porque foi causado por outra coisa.
- Se o universo tem uma explicação para existir, essa explicação é Deus.
- O universo existe.
Portanto, a explicação para a existência do universo é Deus.
Essa lógica funciona como uma engrenagem perfeita: se você aceitar os pontos de partida, a conclusão te pega pelo colarinho. Para rejeitá-la, a única saída é provar que a primeira ou a segunda afirmação estão erradas. Não dá para abrir um alçapão e fugir.
O mais curioso é que há uma ironia maravilhosa nessa história que a maioria das pessoas deixa passar. A segunda frase “se o universo tem explicação, é Deus” parece, à primeira vista, a mais ousada e teológica de todas. Mas repare no que o ateu comum diz quando tenta se defender: “Se Deus não existe, o universo não tem explicação nenhuma; ele só existe e pronto”. Foi exatamente o que Russell fez.
Consegue ver a pegadinha? Ao dizer isso, ele está concordando, palavra por palavra, com a própria premissa que queria rebater. Ele assina embaixo de que, sem Deus, o universo é inexplicável. Ora, se “sem Deus não há explicação”, a lógica reversa é inevitável: “se há explicação, Deus existe”. Ele entregou os pontos sem perceber. A única trincheira que lhe resta, portanto, é atacar a primeira frase e tentar provar que o universo não precisa de explicação. E é aí que o jogo de verdade começa.
A bola na floresta
Para entender o peso de negar essa primeira frase, o filósofo Richard Taylor, em Metaphysics, criou um experimento mental perfeito. Imagine que você está caminhando por uma floresta e, de repente, encontra uma esfera de vidro translúcido, do tamanho de uma bola de futebol, caída no meio das plantas. A pergunta “quem colocou isso aqui?” nasce na sua mente na mesma hora; não é uma escolha, é um instinto. Se a pessoa ao seu lado desse de ombros e dissesse “ela simplesmente está aí, e é tudo”, você não acharia que ela é um gênio do ceticismo. Você acharia que ela está com preguiça de pensar.
Agora, imagine que essa bola cresça e fique do tamanho de uma casa, ou da Terra, ou mesmo do universo. Em que momento exato o tamanho da bola faz a pergunta “quem colocou isso aqui?” perder o sentido? Em momento nenhum. O tamanho de uma coisa não apaga o fato de que ela precisa de uma razão para existir. Se a bolinha na floresta exige uma explicação, o universo inteiro exige a mesma coisa, só que com muito mais urgência.
Antes de avançar, permita-me abrir dois parênteses rápidos para evitar mal-entendidos. Primeiro: a premissa não diz que nós sabemos a explicação de tudo; diz apenas que tudo tem uma explicação, seja ela conhecida ou não. Confundir o que está “inexplicado hoje” com o que é “inexplicável por natureza” é o erro exato que essa premissa evita. Segundo, e mais importante: rejeitar essa premissa está longe de ser uma escolha neutra, pois significa assumir, com todas as letras, que existem “fatos brutos”, coisas que existem do nada, sem motivo nenhum (seja dentro ou fora delas), e que o universo inteiro é o maior exemplo disso.
A essa altura, a postura de Russell cobra o seu preço. Afinal, nenhum cientista de verdade aceita um simples “está aí e pronto” como resposta. O médico diante de um tumor inesperado, o físico que se depara com uma anomalia no detector, o historiador que encontra um documento fora do lugar… nenhum deles simplesmente dá de ombros e diz: “Bom, isso apareceu aí do nada e é só o que importa”. Pelo contrário, a pesquisa científica só funciona porque tratamos o princípio da razão suficiente como uma bússola confiável para cada caso que testamos. Por isso, apelar para um “fato bruto” uma única vez na história, justo no momento em que o caminho apontaria para fora da natureza, não é um critério sério. É só uma desculpa conveniente. O cético, aqui, não está sendo mais rigoroso que o teísta; ele está apenas abrindo uma exceção para o universo inteiro, um privilégio que ele nunca daria a uma simples bola perdida na floresta.
Quem criou Deus?
A objeção mais popular dos nossos dias não veio de Russell, mas de Richard Dawkins. No livro Deus, um Delírio, ele a apresenta como um golpe fatal: se Deus explica o universo, quem explica Deus? Quem desenhou o desenhista? Se o teísta pode dizer que Deus “simplesmente existe”, por que o ateu não pode aplicar o mesmo raciocínio ao universo, cortando um intermediário nessa conta?
Essa objeção parece perfeitamente simétrica, mas é justamente onde a maioria das pessoas entrega que nunca leu a primeira premissa com atenção. Vale a pena voltar a ela: tudo o que existe tem uma explicação, seja na necessidade da sua própria natureza, seja em uma causa externa. O argumento nunca disse que “tudo tem uma causa”. Essa é uma caricatura que nenhum filósofo sério defende, pela simples razão de que ela se autodestrói. O que a premissa propõe é que existem duas formas de explicar a existência. De um lado, temos as coisas contingentes — aquilo que existe, mas poderia não existir, e que por isso depende de uma causa externa para vir a existência. Do outro, temos o que é necessário. Um ser necessário, por definição, traz a explicação dentro de si; ele existe porque a sua não existência é uma impossibilidade lógica, tão absurda quanto um triângulo de quatro lados. Diante disso, perguntar “quem causou o ser necessário?” passa longe de ser um questionamento profundo. Na verdade, a pergunta revela apenas um mal-entendido sobre o significado dos termos, sendo o equivalente exato a querer saber com quem um solteiro é casado.
Você pode até pensar: “Ah, isso não passa de uma desculpa ad hoc para blindar Deus.” Acontece que essa acusação erra o alvo por uma questão puramente estrutural. Pense no que o próprio conceito de explicação exige: se cada resposta dependesse de uma nova explicação externa, e esta de outra, cairíamos em um loop infinito e nada jamais seria explicado. Mais cedo ou mais tarde, qualquer visão de mundo, qualquer uma mesmo, precisa encontrar um ponto final. E só existem duas linhas de chegada possíveis: ou paramos em um “fato bruto”, que corta a busca sem dar motivo nenhum, ou em um ser necessário, que encerra a sequência por trazer a razão dentro de si. No fundo, tanto o teísta quanto o ateu decidem parar de perguntar. A grande diferença é onde cada um escolhe estacionar, e com que direito faz isso. O ateu que segue Russell prefere parar uma etapa antes: diante de um universo que visivelmente poderia não existir, ele simplesmente desliga o motor, sem razão. O teísta para diante de um ser cuja natureza é existir, onde a pergunta “e por que ele?” morre por falta de objeto: não sobrou contingência sobre a qual perguntar. Das duas paradas, uma é princípio; a outra é fadiga.
Para piorar, a pergunta de Dawkins traz uma segunda falha, ainda mais sutil: a ideia de que, para aceitar uma explicação, você precisa primeiro explicar a própria explicação. Pense nos arqueólogos. Ao encontrarem pontas de flecha lascadas na terra, eles concluem imediatamente que houve ação humana, mesmo sem saber absolutamente nada sobre quem eram aquelas pessoas, de onde vieram ou quem as gerou. Se a regra de Dawkins fosse levada a sério, a arqueologia seria impossível, e a física também. Afinal, cada nova teoria exigiria uma “teoria da teoria” ad infinitum, e o conhecimento humano nunca sairia do lugar. Reconhecer uma resposta legítima não exige que você tenha a biografia completa dela. Isso vale para pontas de flecha e vale para o fundamento do mundo.
Os esquimós de Edwards
A segunda objeção tem uma linhagem mais nobre: ela nasce com David Hume, o brilhante filósofo escocês do século XVIII e um dos maiores céticos da história, e ganha sua forma mais famosa nos anos 1950 com Paul Edwards, um pensador analítico austro-americano conhecido por destrinchar argumentos teológicos. Edwards criou uma ilustração que virou um clássico absoluto nos debates sobre o tema. Imagine cinco esquimós parados em uma esquina de Nova York. Cada um tem um motivo para estar ali: o primeiro veio a trabalho, o segundo é casado com o primeiro, o terceiro é filho dos dois, e assim por diante. Uma vez explicado o porquê de cada um dos cinco, diz Edwards, cobrar uma explicação extra para “o grupo” é pura confusão mental. Afinal, o grupo não é uma sexta entidade; são apenas os cinco indivíduos. Levando isso para o nosso debate: se cada coisa no universo é explicada pela anterior, em uma corrente que talvez seja infinita, o universo inteiro já está explicado. Exigir algo além disso seria pura teimosia.
Eu concordo, de imediato, com o que essa objeção traz de correto: o todo não é uma entidade extra pairando sobre as partes, e em muitos casos explicar as partes encerra o assunto. Mas repare no detalhe oculto que faz a história dos esquimós funcionar: todas as explicações apontam para fora daquela esquina. O emprego, o casamento e a filiação puxam a resposta para além do grupo. Agora, mude o cenário. Pergunte por que existem esquimós ali e a resposta será que cada um está naquela esquina simplesmente porque o esquimó ao lado o trouxe. O primeiro trouxe o segundo, que trouxe o terceiro, seja em círculo ou em uma fila infinita. Alguma coisa realmente foi explicada? A pergunta “por que há esquimós nesta esquina?” não apenas continua de pé, ela passa a gritar. Quando toda explicação fica trancada dentro do próprio conjunto, o conjunto inteiro permanece nu.
E essa é exatamente a situação do universo. Cada coisa contingente é explicada por outra igualmente contingente. Ou seja, a explicação nunca sai do clube daqueles que poderiam não existir. Podemos usar três imagens históricas, da mais recente à mais antiga, para fixar bem esse ponto. Pense primeiro em uma corrente pendurada, onde cada elo é sustentado pelo elo de cima. Uma corrente de mil elos solta no vazio vai cair. Uma corrente com infinitos elos, solta no mesmo vazio, não vai cair menos; a infinitude apenas multiplica o número de elementos pendurados, mas não cria o teto para segurá-los. A segunda imagem é a de um empréstimo: “Me empresta cem reais? Eu te pago assim que fulano me pagar, e ele vai te pagar com o que o sicrano deve a ele…”. Adiar uma dívida para sempre não limpa o seu nome; só garante que ela nunca vai ser paga.
Por fim, há a metáfora do próprio Leibniz, que considero a mais elegante de todas. Imagine que cada exemplar de um livro de geometria foi copiado de um exemplar anterior, em uma linha eterna, sem que nunca tenha existido um “primeiro livro”. Essa sequência infinita explica perfeitamente o conteúdo de cada cópia, mas deixa intocada a única pergunta que realmente importa: por que existem livros de geometria? Por que esse conteúdo específico, e não outro, ou simplesmente nenhum? A eternidade da série não resolve o mistério. Ela apenas o empurra para frente.
Tudo isso nos leva a um trunfo gigantesco que dá a este argumento uma vantagem estratégica sobre o seu “primo” mais célebre, o argumento Kalam: ele não depende em nada de o universo ter tido um começo. Se a ciência de amanhã decidir aposentar o Big Bang para adotar um modelo cíclico e eterno, o raciocínio de Leibniz continuará intacto. Afinal, um universo eterno, mas que ainda assim poderia não existir, é apenas uma dívida mais antiga, e não uma dívida paga. A meu ver, quem ancora suas certezas no estado atual da cosmologia as constrói sobre a areia movediça das manchetes científicas. Já quem escolhe apoiá-las na contingência se firma em algo que telescópio nenhum no mundo pode revogar.
A objeção mais perigosa de todas
Chego agora à objeção que considero a única realmente temível. Faço questão de apresentá-la com toda a sua força, porque ela quase nunca aparece nos debates populares, mas decide, sozinha, o destino do argumento. Ela foi formulada pelo filósofo Peter van Inwagen nas páginas finais de seu livro An Essay on Free Will (“Um Ensaio sobre o Livre-Arbítrio”). E o detalhe surpresa é que van Inwagen é cristão. Isso só mostra que a filosofia séria não tem torcida; ele está convencido de que o Princípio da Razão Suficiente é falso e explica o porquê sem enrolação.
Traduzido do jargão técnico, o raciocínio dele funciona assim: imagine que pegamos todas as verdades contingentes que existem no mundo — absolutamente todas, desde a posição exata de cada átomo até a cor da camisa que você está vestindo hoje — e as reunimos em um único e gigantesco bloco de fatos. Vamos chamá-lo de “o Grande Fato”. Pelo Princípio da Razão Suficiente, esse Grande Fato precisa de uma explicação. Mas veja o problema: essa explicação não pode ser contingente, porque se fosse, ela faria parte do próprio bloco, e nada pode explicar a si mesmo. Logo, a resposta tem de ser uma verdade necessária. Mas, e aqui está o fio da navalha, o que é explicado por uma verdade necessária herda a necessidade dela. Pense comigo: se a explicação não tinha como ser diferente, e ela determina o resultado sem margem de erro, então o próprio resultado também não poderia ser diferente. A conclusão inevitável é assustadora: o Grande Fato se torna necessário. Ou seja, tudo no mundo passa a ser necessário. Nada, absolutamente nada, poderia ter sido diferente, nem o Holocausto, nem o número exato de grãos de areia nas praias, nem a sua escolha pelo café de hoje de manhã. O princípio que nasceu para explicar as contingências do mundo acabou de assassiná-las. É o clássico reductio ad absurdum: o argumento se destrói sozinho, e a única saída é abandoná-lo.
Sinto o peso esmagador desse argumento, e quem não sente é porque ainda não o entendeu. Note que ele não tenta provar que Deus não existe; o que ele faz, caso esteja certo, é mostrar que a nossa primeira premissa avança o sinal e se espatifa numa colisão. Não por acaso, durante décadas essa objeção foi tratada como a lápide definitiva do argumento de Leibniz.
A reviravolta contra esse impasse, apresentada em sua forma mais rigorosa por Alexander Pruss no livro The Principle of Sufficient Reason, começa justamente desarmando um passo que parecia óbvio, mas estava escondido. O truque está na premissa de que “tudo o que é explicado por uma verdade necessária herda a necessidade dela”. Isso só faz sentido se nós aceitarmos que toda explicação funciona como uma dedução matemática pura, onde as regras garantem o resultado final sem a menor folga. E a grande pergunta de um bilhão de reais é justamente esta: será que toda explicação no universo precisa funcionar desse jeito engessado?
A resposta é um sonoro não. Existe pelo menos um tipo de explicação que resolve o mistério sem engessar o resultado: as explicações por livre escolha. Se eu te perguntar por que você escolheu justamente este artigo sobre este tema, e você me disser que o título lhe interessou e a capa chamou sua atenção, essas razões explicam genuinamente a sua ação. Ninguém sai dessa conversa achando que a escolha ficou sem justificativa. E, contudo, esses motivos não a tornavam inevitável; você poderia muito bem, com o mesmo interesse, ter escolhido outro artigo. Temos aqui uma explicação real, mas sem nenhuma necessidade mecânica. Se esse tipo de dinâmica existe, e toda a nossa experiência prática diária testemunha que sim, então a navalha de van Inwagen perde o corte de vez. O Grande Fato pode muito bem ser explicado pela escolha livre de um ser necessário, mantendo a contingência do mundo perfeitamente intacta, já que a decisão, por ser livre, poderia ter sido outra. O ser em si é necessário; o ato de criar, não.
E agora, convido você a parar um instante e reparar no que acabou de acontecer, porque me parece a virada mais bonita de todo o argumento. Para salvar a nossa primeira premissa da objeção mais técnica e sofisticada do século XX, fomos empurrados a concluir que a explicação última da realidade tem a forma de uma escolha livre. Só que escolhas não brotam do nada, soltas no espaço; elas pertencem a quem escolhe. A “rocha” final da realidade, para dar conta de um mundo contingente sem tirar a liberdade dele, precisa ter a capacidade de querer. E a palavra que a linguagem humana usa para definir aquilo que é capaz de querer é: alguém. A objeção de van Inwagen, devidamente respondida, faz o argumento entregar mais do que prometia. Não apenas um ser necessário, mas uma Pessoa. Exatamente o que Copleston tinha posto na definição, lá no início da transmissão: um ser pessoal supremo. O caminho que começou nas estradas mais áridas da lógica formal desemboca, sem pedir licença, no coração da teologia.
E se o ser necessário for o próprio universo?
Resta agora a última trincheira dos céticos, e ela se divide em duas versões: uma antiga e uma moderna.
A versão antiga vem do próprio Russell, naquela famosa noite de 1948. Para ele, a palavra “necessário” só poderia ser aplicada a proposições lógicas, nunca a coisas reais. Falar em um “ser necessário”, portanto, seria um mero abuso de linguagem. Minha resposta aqui pode ser breve, até porque a própria história da filosofia já se encarregou de resolver o impasse: esse veto semântico era fruto do positivismo lógico da época, uma corrente que envelheceu muito mal. Desde que Saul Kripke publicou Naming and Necessity (“O Nomear e a Necessidade”), a ideia de que objetos e essências podem ser necessários voltou a ser moeda corrente na filosofia analítica. Hoje, discute-se com toda a seriedade se a água é necessariamente H₂O ou se a origem de um indivíduo é essencial para quem ele é. O cinto de castidade modal que Russell tentou vestir na metafísica foi destrancado justamente pela tradição analítica que ele mesmo fundou. Há uma bela justiça poética nisso.
A versão nova é mais intrigante e conta com defensores de peso, como Graham Oppy e Sean Carroll. O argumento deles assume uma postura diferente: “Muito bem, digamos que a sequência de explicações precise parar em um ser necessário. Por que esse ser não pode ser o próprio universo? Ou as leis da física? Ou quem sabe o vácuo quântico, de onde os universos brotam ‘do nada’?”
Para desarmar essa linha de pensamento, vejo três respostas fundamentais, dispostas em ordem crescente de impacto.
A primeira delas é o que chamo de o teste da necessidade. Um ser necessário é aquele cuja não existência é uma impossibilidade absoluta, não apenas “improvável” ou “estranha”, mas impossível do mesmo jeito que um quadrado redondo é impossível. Se aplicarmos esse teste ao inventário do nosso mundo físico, o cenário muda por completo. Um elétron ao nosso redor poderia não existir? Evidentemente. Nenhuma contradição lógica brota da ausência dele. A massa do elétron poderia ser diferente? Os físicos passam a carreira inteira calculando cenários com constantes cosmológicas alternativas, o que seria um completo absurdo se os valores atuais fossem estritamente fixos e necessários. O universo poderia ter uma galáxia a menos? Poderia. Nada colapsa na lógica por causa disso. Cada peça desse imenso “mobiliário cósmico” carrega no rosto a marca clara da contingência. E um amontoado de coisas contingentes não se transforma em algo necessário simplesmente por ser gigante, exatamente como vimos na metáfora da bola de Taylor. Aliás, noto aqui uma ironia que me agrada bastante: o multiverso, tão evocado pelos céticos nesses debates, é na verdade uma confissão involuntária de contingência. Afinal, ninguém projeta uma máquina de gerar variantes para algo que não pode variar. Se o nosso universo fosse de fato necessário, a teoria do multiverso seria completamente inútil.
Abro um parêntese aqui para o leitor filosoficamente treinado: para ser totalmente justo, existe uma única coisa que realmente passa no teste da necessidade, que são as chamadas entidades abstratas, como os números. Se os números existem, eles são necessários. Não dá para conceber nenhum universo possível onde o número cinco, por exemplo, simplesmente não faça sentido; as leis da matemática funcionariam mesmo se o Big Bang nunca tivesse acontecido. O problema é que os objetos abstratos carregam uma deficiência incurável para a vaga que estamos tentando preencher: eles são causalmente inertes. O número cinco nunca causou coisa alguma na história, e nem poderia; ninguém cria um cosmos apenas com aritmética desacompanhada. O fundamento do mundo precisa apresentar duas credenciais básicas: necessidade e poder causal. Como os abstratos só entregam a primeira, a nossa lista de candidatos volta a encolher.
A segunda resposta expõe aquele vácuo quântico que, no fundo, não tem nada de “nada”. Quando Lawrence Krauss publicou seu livro A Universe from Nothing (“Um Universo do Nada”), anunciando orgulhosamente que a física finalmente tinha explicado como o cosmos surge do absoluto zero, o filósofo da física David Albert, da Universidade Columbia, escreveu uma resenha no New York Times que se tornou um clássico absoluto no gênero demolição. O argumento de Albert pode ser resumido em uma única frase: o suposto “nada” de Krauss é, na verdade, um sistema físico robusto, um vácuo quântico dotado de campos, estrutura e leis de evolução temporal. As equações da física dizem apenas como esses campos se rearranjam, mas não explicam de onde eles vieram, nem por que existem tais leis para início de conversa. Rebatizar algo como “nada” é fazer lexicografia em vez de cosmologia. O vácuo quântico faz parte do clube dos seres contingentes tanto quanto a bola na floresta que mencionei antes. A única diferença é que ele vem acompanhado de uma matemática muito melhor.
A terceira resposta, e para mim a mais decisiva de todas, nos traz de volta ao colapso modal. Imagine por um instante, contrariando tudo o que já estabelecemos, que o universo fosse mesmo esse ser necessário. O grande problema é que universos não tomam decisões. O que quer que um cosmos necessário produza, ele o faz por pura necessidade da sua própria natureza mecânica. E é aí que a navalha de van Inwagen retorna com força total, só que agora totalmente sem antídoto: tudo o que existe no mundo passaria a existir obrigatoriamente. A contingência que você enxerga pela janela da sua casa (o galho da árvore que poderia não ter caído, a chuva que poderia não ter vindo hoje) seria uma ilusão completa. Como vimos, a única rota de fuga para não implodirmos a realidade é aceitar a explicação por livre escolha, e essa saída está completamente fechada para qualquer candidato impessoal.
Não é que o universo perca para Deus por ser menos bonito ou poético. A questão é estritamente lógica: a origem de tudo exige algo que nenhum objeto físico possui, que é a liberdade de escolha. No fim das contas, essa vaga de fundamento do mundo só aceita alguém. Coisas não têm nem como se candidatar.
O que o argumento entrega, e o que não entrega
Pois bem, agora é a hora de um inventário honesto, porque uma apologética que infla suas conclusões só serve para fabricar ateus.
O argumento — se as premissas se sustentam, e busquei mostrar que as melhores objeções do último século não têm força para derrubá-las — nos entrega exatamente isto: existe um Ser que não poderia não existir, que serve de fundamento para tudo o mais; um Ser que não é físico, já que explica a totalidade do mundo material; que transcende, portanto, o espaço, o tempo e a matéria; e que é dotado de vontade, pois só uma escolha livre explica um mundo contingente sem destruir a sua própria contingência. Em suma: um Ser necessário, transcendente, pessoal e criador. Releia a definição que Copleston propôs no primeiro minuto do debate e confira, item por item.
Por outro lado, o que esse argumento não alcança, e digo com a mesma clareza: ele não prova a Trindade, a encarnação, ou o sacrifício na cruz. O argumento funciona como uma seta apontando com precisão milimétrica para uma direção, mas não revela as feições de quem está no destino. Quem quiser conhecer o rosto precisa de outra ferramenta, chamada revelação, e é exatamente isso que o cristianismo afirma possuir. A filosofia leva o viajante até a fronteira, mas não pode atravessar por ele.
Há algo de avassalador nessa convergência. Quando Moisés, diante da sarça ardente, perguntou o nome de quem o estava enviando, a resposta foi uma afirmação de aseidade pura: “EU SOU O QUE SOU”. Não há nessa resposta a possibilidade implicita de um passado, dependência ou causa antecedente. Há apenas a existência em si. O apóstolo Paulo sintetizou isso aos romanos ao escrever que os atributos invisíveis de Deus são claramente reconhecidos por meio das coisas criadas (Romanos 1:20). No fundo, o argumento da contingência é apenas a tradução lenta, técnica e paciente do que o salmista já dizia cantando: “Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (Salmo 19:1). O universo inteiro aponta para algo fora de si mesmo. Toda a sofisticação da lógica analítica converge, no fim das contas, para o exato conhecimento que os profetas já haviam registrado milênios atrás.
Xeque sem tabuleiro
Aquele debate entre Bertrand Russell e Frederick Copleston produziu seu melhor momento no encerramento do bloco sobre metafísica. Vendo Russell recusar não só a resposta, mas a própria legitimidade da pergunta, Copleston observou, com uma paciência impressionante: se alguém se recusa a sentar-se ao tabuleiro e fazer um lance, não pode, é claro, sofrer um xeque-mate.
Copleston usou uma forma elegante para diagnosticar o problema. E é esse mesmo diagnóstico que devolvo a você como conclusão de tudo o que percorremos até aqui. Demonstrei que a pergunta de Leibniz é perfeitamente legítima e que a ciência, por sua própria natureza metodológica, jamais poderá alcançá-la; que tratar o universo como um fato bruto isolado significa abrir uma única e conveniente exceção ao princípio que move toda a investigação humana. Entendemos que o questionamento “quem criou Deus?” confunde o ser contingente, que pede causa, com o Ser necessário, cuja essência dispensa essa busca. Ficou claro que a eternidade de uma série cósmica não paga a sua dívida de existência, apenas a envelhece. E descobrimos que a objeção mais afiada já feita ao argumento, a de van Inwagen, quando devidamente respondida, força a conclusão a ganhar feições pessoais: a explicação última do mundo tem a estrutura de uma escolha voluntária, e decisões exigem uma mente por trás. Nenhum candidato puramente físico, seja o universo, as leis naturais ou o vácuo quântico, possui a credencial da liberdade ou passa no teste da necessidade.
Russell respondeu à provocação de Copleston dizendo que ninguém pode ser derrotado em um jogo que se recusa a jogar. Bom, nesse ponto ele teve razão. Mas o preço dessa “invencibilidade” é alto demais. O céu estrelado continua lá em cima, despertando em nós o mesmo espanto de sempre, e a máxima “o universo está aí, e é tudo” não se sustenta como resposta; é apenas uma porta que se fecha. Porém, trancar a porta não faz o mistério desaparecer; apenas o deixa do lado de fora, sem resposta. Há quase oito décadas, em uma transmissão de rádio que ainda é relevante, um jesuíta avisou educadamente o que acontece com quem confunde a “porta trancada” com a partida vencida.
Referências:
CRAIG, William Lane. Apologética contemporânea: a veracidade da fé cristã. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2012. (Título original: Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics. 3. ed. Wheaton: Crossway, 2008.)
PRUSS, Alexander R. The Principle of Sufficient Reason: A Reassessment. Cambridge: Cambridge University Press, 2006. 335 p.
RUSSELL, Bertrand; COPLESTON, Frederick. “A Debate on the Existence of God” (BBC Third Programme, 28 de janeiro de 1948). In: RUSSELL, Bertrand. Why I Am Not a Christian and Other Essays on Religion and Related Subjects. Londres: George Allen & Unwin, 1957.
TAYLOR, Richard. Metaphysics. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1963.
VAN INWAGEN, Peter. An Essay on Free Will. Oxford: Clarendon Press, 1983. 248 p.
Leibniz é citado pela divisão interna padrão (Princípios da natureza e da graça, §7; o exemplo dos livros de geometria está em De rerum originatione radicali, 1697). Os demais autores mencionados no corpo (Hawking, Dawkins, Edwards, Kripke, Krauss, Albert, Oppy, Carroll) são referidos com indicação de obra ou veículo no próprio texto.













