“Deus me deu livre-arbítrio, então a vida é minha e faço dela o que eu quiser.” Quando usada para encerrar qualquer discussão sobre nossas escolhas, essa frase confunde liberdade com ausência de responsabilidade. Se alguém me engana deliberadamente, o fato de ter agido por vontade própria não torna o engano menos injusto. Sua liberdade ajuda, inclusive, a compreender por que deve responder pelo que fez.
Essa responsabilidade também preocupou Jean-Paul Sartre. Em O existencialismo é um humanismo, ele sustentou que, ao escolher, afirmamos valores e assumimos uma responsabilidade que ultrapassa nossa vida particular. Sua defesa da liberdade tinha exigências morais. A diferença é que, em sua filosofia ateísta, cabia ao ser humano estabelecer valores sem recorrer a Deus. Como cristão, reconheço no caráter divino uma referência que nossas preferências não podem substituir: a bondade continua sendo boa quando nos custa alguma coisa, e a injustiça continua sendo injusta quando nos favorece.
Nossa experiência confirma a necessidade de examinar o que desejamos. Podemos saber que uma atitude é errada e ainda assim preferir a vantagem que ela oferece. Podemos também estar sinceramente enganados. O livro de Provérbios nos adverte quanto a isso: “Há caminho que ao homem parece direito, mas ao cabo dá em caminhos de morte” (Provérbios 14:12). Ter convicção de algo não nos torna infalíveis; ter liberdade também não nos torna independentes de Deus.
Uma vontade que precisa de cura
Nossa liberdade é exercida numa vida que não está inteiramente sob nosso controle. Não escolhemos a família em que nascemos, nossa língua materna ou boa parte das circunstâncias que nos formaram. Mesmo depois de adultos, há muito que desejamos e não conseguimos realizar. Reconhecer esses limites, porém, exige distinguir o que nos impede de agir daquilo que acontece com nossa própria vontade.
Um homem acorrentado pode desejar sair e ser impedido pelas correntes. Já alguém que se recusa a reconhecer uma injustiça por orgulho enfrenta uma resistência de outra natureza. Jonathan Edwards, em Freedom of the Will, publicado em 1754, chamou de incapacidade natural o impedimento que permanece mesmo quando queremos agir, e de incapacidade moral a que decorre das inclinações e dos motivos que dominam a vontade. Embora desenvolvida dentro de sua defesa do calvinismo, essa distinção ajuda a perceber que remover um obstáculo externo nem sempre resolve o problema interior.
É possível ter condições de pedir perdão e continuar procurando desculpas para não fazê-lo. Também é possível reconhecer o bem, desejar praticá-lo e descobrir o quanto estamos presos a hábitos que nos afastam dele. Paulo descreveu muito bem esse conflito: “o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo” (Romanos 7:18). Jesus foi ainda mais direto ao afirmar que quem pratica o pecado é escravo dele (João 8:34). O pecado compromete até mesmo a vontade com que pretendemos enfrentá-lo.
Por isso, defender o livre-arbítrio não significa atribuir ao pecador uma capacidade intacta de voltar-se para Deus por conta própria. A iniciativa da salvação pertence ao Senhor, que nos alcança e atua em nós tanto no querer quanto no realizar (Filipenses 2:13). A promessa de Jesus responde à nossa condição: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8:36). A graça desperta e sustenta uma resposta que, abandonados a nós mesmos, não poderíamos oferecer.
Concordo com os calvinistas quando afirmam que dependemos inteiramente da graça de Deus para ser salvos. Minha divergência está no modo como essa graça atua. Na doutrina do chamado eficaz, Deus renova a vontade dos eleitos de tal maneira que eles vêm a Cristo voluntariamente, e essa resposta é assegurada pela própria ação divina. Entendo, porém, que a graça nos capacita a responder ao chamado de Deus sem tornar inevitável nossa aceitação. Podemos resistir à Sua atuação e recusar o convite, ainda que até mesmo nossa capacidade de acolhê-lo dependa da iniciativa e do auxílio do Senhor.
O amor e a possibilidade da recusa
Até aqui tudo bem, mas se Deus deseja nos salvar e tem poder para transformar nossa vontade, por que permite que resistamos? Porque a reconciliação que Ele oferece envolve confiança e amor. Podemos constranger alguém a um comportamento exterior; a comunhão exige que essa pessoa acolha aquele que a procura.
O lamento de Jesus sobre Jerusalém expôs essa tensão. Ele desejara reunir os habitantes da cidade como uma galinha acolhe os pintinhos debaixo das asas, mas encontrou resistência: “e vós não o quisestes!” (Mateus 23:37). Havia um desejo de salvar que não se confundia com a resposta daqueles a quem Ele buscava. Em outra ocasião, ao aproximar-Se da cidade, Jesus chorou por ela (Lucas 19:41-44). Respeitar aquela recusa Lhe causava sofrimento.
Ellen White escreveu que Deus “não tem prazer em uma submissão forçada, e a todos confere vontade livre, para que possam prestar-Lhe serviço voluntário” (O Grande Conflito, cap. 29, p. 493). Sua paciência conosco expressa esse propósito. Ele procura conquistar nossa confiança enquanto nos mostra o mal de que deseja nos libertar. A possibilidade de recusá-Lo torna séria nossa resposta, mas também torna dolorosas as consequências dessa recusa.
Escolhas que têm consequências
Moisés apresentou essa responsabilidade a Israel ao colocar diante do povo a vida e o bem, a morte e o mal. Em seguida, insistiu: “escolhe, pois, a vida, para que vivas” (Deuteronômio 30:15, 19). Deus havia esclarecido os caminhos e manifestado Seu desejo de que o povo vivesse. Conceder-lhe liberdade não significava prometer o mesmo resultado para qualquer decisão.
Paulo retomou essa relação ao escrever que o ser humano colhe aquilo que semeia (Gálatas 6:7-8). Uma mentira pode ser escolhida em poucos segundos e destruir uma confiança construída ao longo de anos. O perdão pode abrir caminho para a reconciliação, mas a liberdade de mentir nunca tornou a mentira inofensiva. Nossas escolhas atingem pessoas e ajudam a formar o caráter com que faremos as escolhas seguintes.
Quando a Escritura afirma que o pecado produz a morte, essa relação alcança sua consequência mais profunda (Tiago 1:15). Dependemos de Deus para existir; Ele é o “manancial da vida” (Salmo 36:9). A rebelião nos coloca em conflito com aquele de quem recebemos tudo o que sustenta nossa existência.
Isso não quer dizer que Deus retire imediatamente a vida de quem O rejeita. Jesus lembrou que o Pai faz nascer o sol sobre maus e bons e envia chuva sobre justos e injustos (Mateus 5:45). Essa bondade concede ao pecador tempo para arrepender-se. Continuamos vivendo porque Deus nos sustenta, inclusive enquanto resistimos à Sua vontade.
Sua paciência, entretanto, não deixa o mal sem julgamento. A Bíblia apresenta um Juiz que considera as obras humanas e executa uma sentença (Apocalipse 20:12-15). A morte final dos ímpios envolve essa ação divina. O pecado arruína a vida, e Deus julga a responsabilidade daqueles que persistem nele. Reduzir tudo a uma consequência automática deixaria sem explicação o próprio juízo.
Advertência ou chantagem?
Pois bem, a essa altura alguém poderá objetar: “se Deus nos concede liberdade, mas anuncia a morte de quem persiste em rejeitá-Lo, não estaria dizendo ‘escolha-me ou morra’? Como reconhecer amor e verdadeira liberdade numa relação com uma consequência tão grave?”
Bem, creio que se todos tivessem sempre em mente que somos livres para escolher o que quisermos, mas somos escravos das consequências disso, essas perguntas não seriam tão pertinentes. Além do mais, anunciar os perigos de determinadas escolhas, de modo algum, constitui chantagem da parte de Deus. Um médico que explica ao paciente o risco de determinada conduta oferece-lhe uma informação necessária à decisão. Ocultar esse risco tornaria a escolha menos esclarecida. Mas a comparação tem um limite: Deus também executa o juízo. Portanto, a questão envolve tanto a verdade da advertência quanto a justiça da sentença contra o pecador impenitente.
Essa justiça não pode ser avaliada como se o pecado fosse uma preferência sem vítimas. A violência, a mentira e a exploração destroem vidas. Seria difícil chamar de amor um governo que protegesse indefinidamente a liberdade de praticá-las e jamais respondesse à dor de quem as sofreu. Ao condenar o mal, Deus leva a sério a vida de Suas criaturas.
Ao mesmo tempo, Ele oferece perdão ao culpado. Na cruz, Cristo assumiu nossos pecados e entregou Sua vida quando ainda éramos pecadores (Romanos 5:8). Antes de executar a sentença, o Senhor que julga tomou a iniciativa de nos oferecer perdão. Por isso, junto à declaração de que o salário do pecado é a morte, Paulo acrescentou que a vida eterna é um dom gratuito de Deus em Cristo (Romanos 6:23).
A advertência vem daquele que providenciou nossa salvação e continua nos chamando a recebê-la. Seu desejo foi expresso por Ezequiel: “não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho e viva” (Ezequiel 33:11). O perdão oferecido não torna o pecado irrelevante. O perdão serve para abrir ao pecador a possibilidade de abandonar o pecado e viver.
Quando a vontade resiste à graça
O problema é que muitas vezes desejamos os benefícios da vida que Deus nos oferece por Sua graça e perdão, enquanto recusamos a reconciliação e a renúncia que ela exige. Ansiamos pelo perdão, mas resistimos a admitir a culpa; queremos a paz, mas retemos o ressentimento que a destrói; queremos ir para o céu, mas continuamos acariciando pecados que podem nos impedir de ir. Jesus expôs essa contradição de forma clara ao declarar: “Não quereis vir a mim para terdes vida” (João 5:40).
Em O Grande Abismo, C. S. Lewis descreveu duas atitudes: a dos que dizem a Deus “Seja feita a Tua vontade” e a daqueles a quem, ao fim, Deus permite permanecer na vontade que insistiram em conservar. Essa imagem expressa a gravidade de uma recusa que se torna persistente. O desejo de viver, sozinho, não equivale à disposição de acolher a transformação oferecida por Cristo.
Por essa razão, afirmar que os ímpios se perdem por escolha própria não significa que desejem conscientemente a própria destruição — eles podem temer a morte e, ainda assim, permanecer apegados à rebelião. O juízo de Deus, portanto, não depende do consentimento do réu quanto à sentença. A responsabilidade pelo mal praticado e a obstinada resistência à graça são o que determina a destruição dos rebeldes.
Em total conformidade com a Bíblia — que adverte: “Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também colherá. Porque o que semear na sua carne, da carne colherá corrupção; mas o que semear no Espírito, do Espírito colherá a vida eterna” (Gálatas 6:7-8) —, Ellen White afirmou que ‘o destino dos ímpios se fixa por sua própria escolha (O Grande Conflito, p. 543).
Ou seja, como já dito, essa escolha não precisa ser um desejo consciente do tipo: ” tô nem aí! Eu quero é ir para o inferno mesmo”. Ela se dá, na prática, pelas atitudes e decisões tomadas ao longo da vida. Ellen White relacionou essa exclusão à incompatibilidade entre um coração que conserva o ódio a Deus e a comunhão oferecida por Ele. A simples entrada num lugar perfeito não produziria o amor e a obediência que a pessoa se recusou a acolher. A salvação inclui a renovação do nosso ser, para que possamos desfrutar da paz que desejamos receber.
Por que Deus porá fim ao mal?
Quem sabe você possa estar se perguntando: “mas por que Deus simplesmente não mantém os rebeldes vivos, em um lugar separado dos salvos? Afinal, o fato de Ele os sustentar hoje prova que teria poder para prolongar essa existência indefinidamente”. A resposta reside no caráter de Deus: Sua justiça e Seu amor não permitirão que a dor, o pecado e a rebelião se tornem eternos. Preservar o mal para sempre, ainda que em isolamento, seria perpetuar o sofrimento e a desarmonia no universo. Deus não é um ser psicopata para manter pessoas em sofrimento eterno no inferno.
Vemos na paciência de Deus tanto o desejo de salvar o pecador quanto o cuidado de tornar claras as razões de Suas decisões. Ele concede oportunidades de arrependimento, enquanto Suas criaturas acompanham o desenrolar do conflito. Paulo escreveu que, por meio da igreja, a sabedoria divina se torna conhecida dos poderes celestiais (Efésios 3:10). Nossa história, portanto, é acompanhada por seres que também aprendem sobre o caráter de Deus ao observar como Ele lida com o pecado e procura salvar os que se afastaram dEle.
Portanto, esse contexto nos permite compreender o motivo pelo qual Deus não destruiu o primeiro rebelde assim que o pecado surgiu. Lúcifer havia lançado suspeitas sobre a justiça do governo divino. Sua destruição imediata demonstraria que ninguém poderia resistir ao poder do Criador, mas, por si só, não esclareceria aquelas acusações. As dúvidas que ele suscitou teriam sido aceitas como verdades, e ele teria morrido como um mártir. Dessa forma, as criaturas que ainda desconheciam a natureza do pecado precisavam compreender a diferença entre o governo que Satanás condenava e a liberdade que ele prometia. Ao longo do conflito, os resultados da rebelião revelaram o que suas promessas escondiam, enquanto a obra da salvação manifestou o amor e a justiça de Deus.
A última rebelião descrita em Apocalipse mostra até onde essa resistência chegará. Satanás reunirá os perdidos para cercar a cidade dos santos, a nova Jerusalém (Apocalipse 20:7-9). Diante da oportunidade de agir novamente, eles voltarão a se unir contra Deus. A passagem do tempo não terá produzido arrependimento, e o desejo de continuar vivendo não terá sido acompanhado pela disposição de abandonar o mal. Por isso, a ideia de uma convivência eterna e pacífica, em que os rebeldes simplesmente habitariam outro lugar, desconsidera a hostilidade que ainda conservarão.
Deus, porém, prometeu restaurar toda a criação. Sua promessa alcança um mundo em que já não haverá morte, luto, pranto ou dor (Apocalipse 21:4-5). Conservar a rebelião para sempre, ainda que distante dos salvos, significaria perpetuar em algum lugar o sofrimento que Ele prometeu eliminar. Ao executar o juízo, o Senhor responsabilizará aqueles que persistiram no pecado e porá fim à violência que sua liberdade foi usada para produzir.
Entendo que esse fim envolve a própria existência dos ímpios. Malaquias anunciou que eles seriam consumidos, sem que lhes restasse “nem raiz nem ramo” (Malaquias 4:1). Jesus falou daquele que pode fazer perecer tanto a alma quanto o corpo, e João chamou o destino final dos perdidos de segunda morte (Mateus 10:28; Apocalipse 20:14-15). Essas descrições apontam para uma destruição definitiva. A sentença será cumprida, e seu resultado permanecerá para sempre, sem que os condenados precisem continuar vivos em sofrimento interminável.
Nas últimas páginas de O Grande Conflito, Ellen White descreveu essa esperança: “O grande conflito terminou. Pecado e pecadores não mais existem. O Universo inteiro está purificado” (cap. 42, p. 678). A justiça de Deus terá sido compreendida, o mal terá chegado ao fim, e nenhuma criatura voltará a sofrer nas mãos daqueles que fizeram da liberdade um instrumento de destruição.
A liberdade que Cristo nos oferece
Deus nos chama para uma vida reconciliada com Ele. Enquanto aguardamos o fim definitivo do mal, Sua graça já atua para nos libertar de seu domínio. Cristo conhece nossas resistências e nos oferece auxílio para abandonar aquilo que fere a nós mesmos e aos outros. Não preciso esperar que todos os meus desejos estejam em ordem para me aproximar dEle. Posso levar-Lhe minha culpa, minhas contradições e até a dificuldade de querer aquilo que reconheço como bom.
A liberdade que recebemos de Deus torna nossas escolhas importantes, mas não nos deixa sozinhos diante delas. Aquele que nos chama a escolher a vida também oferece perdão e forças para mudar de direção. Ao acolhermos Sua graça, começamos a compreender que fazer tudo o que desejamos pode nos conservar presos aos mesmos erros. Com Cristo, aprendemos a examinar nossos desejos, a reconhecer nossas responsabilidades e a amar com uma liberdade que também respeita a vida do outro. Essa transformação faz parte da restauração que Deus prometeu completar.
Referências:
Bíblia Sagrada. Almeida Revista e Atualizada (ARA). Sociedade Bíblica do Brasil.
SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo (1946). Texto em tradução inglesa de Philip Mairet. A exposição no artigo é uma paráfrase.
EDWARDS, Jonathan. Freedom of the Will (1754), parte I, seção IV, “Of the Distinction of Natural and Moral Necessity, and Inability”. Texto consultado.
Confissão de Fé de Westminster, capítulos IX e X. Texto disponibilizado pela Orthodox Presbyterian Church.
LEWIS, C. S. O Grande Abismo (The Great Divorce, 1945), capítulo 9. A passagem foi apresentada em paráfrase.
WHITE, Ellen G. O Grande Conflito. Capítulo 29, “Por que existe o sofrimento”, p. 493 e discussão sobre a origem do conflito; capítulo 33, “É o homem imortal?”, p. 543; capítulo 42, “O final e glorioso triunfo”, p. 678. Paginação indicada no leitor digital da CPB.
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