Um homem dominado por um demônio, incapaz de enxergar e de falar, foi levado até Jesus. O evangelho de Mateus não descreve um processo demorado, uma recuperação gradual ou algo que pudesse ser atribuído ao acaso. Jesus o curou, e o homem que chegara cego e mudo saiu dali enxergando e falando.
A multidão compreendeu imediatamente o peso do que acabara de testemunhar. A pergunta começou a circular entre as pessoas: “Não é este, porventura, o Filho de Davi?” (Mateus 12:23). Não se tratava apenas de espanto diante de um milagre. “Filho de Davi” era uma designação messiânica. O que a multidão estava realmente perguntando era: será que estamos diante daquele que Deus prometeu enviar?
Os fariseus também tinham visto tudo. Viram o homem ser levado até Jesus. Viram seus olhos se abrirem e ouviram sua voz. O que fizeram em seguida não foi negar o milagre — e isso é significativo. Como poderiam negar? A evidência estava diante deles, olhando para o mundo talvez pela primeira vez na vida. Mas, se não podiam negar o acontecimento, precisavam encontrar uma explicação que lhes permitisse rejeitar seu significado: “Este não expele demônios senão pelo poder de Belzebu, maioral dos demônios” (Mateus 12:24).
Observe o movimento. Os fariseus não disseram que nada havia acontecido. Admitiram implicitamente que uma força sobrenatural estava em operação. O que fizeram foi atribuir essa força à fonte errada. Era uma explicação teológica construída para evitar uma conclusão teológica. Se reconhecessem que aquela obra vinha de Deus, teriam de considerar seriamente a pergunta da multidão. E se Jesus fosse realmente o Filho de Davi? Se o poder do reino de Deus estivesse se manifestando diante deles? Se aquele homem que eles vinham combatendo fosse, afinal, o Messias que diziam esperar?
Essa conclusão exigiria deles mais do que uma mudança de opinião. Exigiria arrependimento. Teriam de rever sua avaliação sobre Jesus, sua posição diante do povo e, talvez, toda a estrutura religiosa pela qual haviam aprendido a interpretar a ação de Deus. Era muito mais fácil alterar a origem do milagre. Assim, chamaram de demoníaca uma obra realizada pelo Espírito de Deus. Não porque lhes faltassem evidências, mas porque a evidência os conduzia a um lugar ao qual não estavam dispostos a ir.
É precisamente nesse contexto que Jesus profere uma das declarações mais conhecidas da Bíblia sobre o uso das palavras: “Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no Dia do Juízo” (Mateus 12:36). Quando retiramos o versículo da cena, ele facilmente se transforma numa advertência genérica contra conversas desnecessárias, comentários casuais ou frases ditas sem pensar. E, de fato, a Bíblia tem muito a dizer sobre o uso descuidado da língua.
Mas Jesus não estava interrompendo um bate-papo desatento. Ele respondia a homens que haviam acabado de usar uma explicação religiosa para chamar a obra de Deus de obra do diabo. Suas palavras não foram impulsivas. Não escaparam por acidente. Foram formuladas com cuidado para resistir àquilo que os fatos exigiam que reconhecessem.
Pois bem, há algo na resposta de Jesus que me parece curioso. Diante de uma acusação tão grave, por que ele fala de “toda palavra frívola”?
A palavra que não “trabalha”
O termo traduzido por “frívola” é o grego argós. A palavra transmite a ideia de algo inativo, improdutivo, sem trabalho ou sem resultado. Mateus a emprega mais adiante, na parábola dos trabalhadores da vinha, para descrever os homens que permaneciam parados na praça, sem trabalhar: “Viu outros que estavam desocupados na praça” (Mateus 20:3). Tiago usa a mesma palavra ao falar de uma fé que não produz obras: “Queres, pois, ficar certo, ó homem insensato, de que a fé sem as obras é inoperante?” (Tiago 2:20). Já no uso comum, o termo podia ser aplicado ao dinheiro que não rendia juros, à terra que permanecia improdutiva ou à pessoa que não exercia atividade. Aplicado à linguagem, descreve a palavra vazia, sem utilidade, sem proveito — a palavra que, por assim dizer, não “trabalha”.
Bem, note que agora temos um problema: a acusação dos fariseus não parece ter sido improdutiva. Pelo contrário, era uma calúnia cuidadosamente construída. Possuía intenção, conteúdo e consequências. Foi pronunciada diante de uma multidão e oferecia uma interpretação destinada a afastar as pessoas de Jesus. Aquelas palavras foram bastante produtivas. Por isso, alguns intérpretes entenderam que “palavra frívola” deveria significar, naquele contexto, uma palavra falsa, maliciosa ou caluniosa.
João Crisóstomo, bispo de Constantinopla no fim do século IV e um dos maiores pregadores da igreja grega, seguiu essa direção. Seu domínio do grego e sua atenção ao texto de Mateus tornam sua interpretação especialmente relevante. Para ele, a expressão incluía a fala falsa e caluniosa. Muitos séculos depois, Albert Barnes chegou a uma conclusão semelhante. Barnes reconheceu que o sentido comum da expressão era o de uma palavra vã, inútil ou irrefletida. Ainda assim, argumentou que, naquele contexto, Jesus se referia a palavras perversas e injuriosas. A interpretação é compreensível. Afinal, é exatamente isso que os fariseus haviam acabado de pronunciar: uma acusação perversa contra Jesus e contra o Espírito Santo.
Mas repare no caminho pelo qual se chega a essa conclusão. O sentido perverso vem do contexto, não necessariamente do termo escolhido por Jesus. A maldade da acusação é transferida para o significado da palavra argós. Jerônimo, ao traduzir o texto para o latim, preservou o sentido mais simples. Usou a expressão verbum otiosum: palavra ociosa. Em sua explicação, tratava-se da palavra que não traz proveito nem a quem fala nem a quem ouve. Não necessariamente uma calúnia devastadora, apenas uma palavra inútil.
Ora, qual caminho devemos seguir? O próprio contexto oferece uma pista importante. Dois versículos antes, Jesus havia dito: “O homem bom tira do tesouro bom coisas boas; mas o homem mau, do mau tesouro, tira coisas más” (Mateus 12:35). Para “mau”, Mateus emprega o termo ponērós, que comunica a ideia de maldade, perversidade ou caráter nocivo. A palavra aparece repetidamente no versículo e estava, por assim dizer, na ponta da caneta do evangelista. Caso Jesus quisesse referir-se simplesmente a toda palavra perversa, dispunha de um termo perfeitamente adequado para isso.
No versículo seguinte, porém, surge argós, uma palavra muito mais branda. O foco se desloca da perversidade evidente para aquilo que parece inútil e sem importância: a frase pequena, pronunciada sem maior propósito e logo esquecida. A meu ver, essa escolha não suaviza a advertência. Ao contrário, amplia seu alcance e a torna ainda mais severa.
Do menor para o maior
O raciocínio de Jesus parece seguir do menor para o maior.
Se até a palavra ociosa, aquela que não produziu nada, que não foi guardada por ninguém e que talvez nem o próprio falante se lembrasse de ter pronunciado, será levada em conta no Dia do Juízo, o que dizer da acusação deliberada que os fariseus acabavam de formular contra o Espírito de Deus?
Eles não precisavam esperar que Jesus nomeasse diretamente sua blasfêmia. Se a palavra mais leve comparecerá diante do juízo, a palavra pesada já está incluída.
A força do argumento depende justamente de argós conservar seu sentido mais fraco.
Jesus não está dizendo que apenas as palavras perversas serão julgadas. Está afirmando algo muito mais abrangente: nem mesmo as palavras consideradas insignificantes estão fora do alcance do juízo de Deus.
Quanto mais aquelas que foram pensadas, organizadas e pronunciadas para resistir à verdade.
Os fariseus talvez imaginassem que sua acusação fosse apenas parte de uma disputa pública. Uma frase pronunciada no calor da controvérsia. Uma explicação teológica lançada diante da multidão e logo substituída por outra.
Jesus, porém, lhes diz que nem mesmo o comentário realmente vazio desaparece.
As palavras não se dissolvem simplesmente porque o som terminou.
Isso se torna ainda mais claro quando observamos o tema do parágrafo inteiro. Jesus fala da árvore e de seus frutos. Fala do tesouro bom e do tesouro mau. Fala daquilo que enche o coração e transborda pela boca:
“A boca fala do que está cheio o coração” (Mateus 12:34).
O assunto não é apenas linguagem. É revelação moral.
As palavras importam porque tornam visível aquilo que, de outro modo, permaneceria escondido. A boca é uma abertura pela qual o coração aparece. Por meio dela, desejos, ressentimentos, incredulidade, inveja e orgulho assumem forma audível.
Nesse sentido, a palavra frívola comparece no juízo não porque Deus seja um fiscal de trivialidades, mas porque até a fala aparentemente insignificante pode servir como testemunha do que existe no coração.
A questão, portanto, não é apenas: “O que você disse?”
É também: “De que tesouro essa palavra saiu?”
Onde isso nos alcança
É fácil manter os fariseus a uma distância segura.
Eles viram um milagre, atribuíram-no a Satanás e receberam de Jesus uma das advertências mais severas dos Evangelhos. O episódio parece pertencer a uma categoria de pecado tão extrema que dificilmente encontraria correspondência em nossa vida comum.
Mas a estrutura do pecado deles é muito mais familiar do que gostaríamos de admitir.
Consiste em oferecer uma explicação conveniente para não reconhecer a obra de Deus.
E esse hábito continua vivo entre nós, quase sempre bem-vestido.
Acontece quando alguém realiza algo evidentemente bom e, como não podemos negar o bem realizado, atacamos sua motivação:
“Ele só fez isso para aparecer.”
Observe que o movimento é o mesmo de Mateus 12. O fato não é negado. O que se altera é sua origem moral. A ação pode ter ajudado pessoas, fortalecido a igreja ou aliviado sofrimento, mas encontramos uma explicação que nos permite desprezar quem a realizou.
Acontece também quando um trabalho começa a crescer e, por não ter começado conosco, descobrimos nele um problema que curiosamente não percebíamos enquanto permanecia pequeno.
O problema pode até ser descrito em linguagem doutrinária. Pode soar prudente, zeloso e espiritualmente responsável. Mas isso não significa que tenha nascido do amor à verdade. Às vezes, a teologia oferece ao ressentimento um vocabulário respeitável.
Acontece quando uma oração é respondida e nós a chamamos de coincidência porque reconhecer a resposta exigiria alguma mudança que preferimos adiar.
E acontece, talvez de forma ainda mais grave, quando dizemos “isso não é do Espírito” a respeito de algo que nos convenceu por dentro, mas ao qual não estamos dispostos a obedecer.
Nenhuma dessas falas precisa ser impulsiva. Algumas podem ser cuidadosamente construídas. Podem vir acompanhadas de textos bíblicos, argumentos e demonstrações públicas de zelo.
Esse é precisamente o perigo.
Os fariseus não eram homens incapazes de formular bons argumentos. Eram homens de linguagem religiosa refinada. Seu erro não foi terem falado sem pensar. Foi terem usado o pensamento para servir à recusa.
Isso nos conduz ao outro extremo do argumento de Jesus: o degrau menor, a palavra aparentemente insignificante. É essa parte que muitos sermões transformam no assunto inteiro. Embora não seja o ponto exclusivo do texto, também não deve ser ignorada.
A murmuração é um exemplo especialmente sério.
Quando os espias voltaram de Canaã com seu relatório, o povo de Israel se entregou ao medo. Em pouco tempo, começaram a dizer que teria sido melhor morrer no Egito. Chegaram a propor a escolha de um líder que os conduzisse de volta:
“Levantemos um capitão e voltemos para o Egito” (Números 14:4).
Talvez tenham considerado aquilo apenas um desabafo.
Era conversa de acampamento, dita entre as tendas, no meio do medo e da frustração. Provavelmente nenhum deles se levantaria diante do tabernáculo para apresentar formalmente aquela declaração como um pedido a Deus.
Mas Deus a ouviu como expressão do coração:
“Por minha vida, diz o Senhor, que, como falastes aos meus ouvidos, assim farei a vós outros. Neste deserto, cairá o vosso cadáver” (Números 14:28-29).
O desabafo que eles não chamariam de oração foi recebido como petição.
E foi atendido.
O próprio Deus explica o que havia por trás da murmuração:
“Até quando me provocará este povo e até quando não crerá em mim, a despeito de todos os sinais que fiz no meio dele?” (Números 14:11).
A murmuração era incredulidade tornando-se audível.
Os israelitas não estavam apenas reclamando das dificuldades da viagem. Suas palavras revelavam o que haviam concluído sobre o caráter de Deus: que ele os havia conduzido até ali para abandoná-los; que sua promessa não era confiável; que a escravidão conhecida era preferível à fidelidade ainda não compreendida.
A boca tornou público o veredito do coração.
Isso não significa, porém, que toda conversa simples seja pecaminosa ou que os cristãos devam viver aterrorizados com a possibilidade de dizer algo sem grande profundidade.
A conversa comum trabalha.
O marido que comenta o tempo com a esposa durante o café da manhã não está necessariamente desperdiçando palavras; está participando da vida dela. A vizinha que pergunta pela dor no joelho não está pronunciando uma frase teologicamente importante, mas está dizendo, da maneira simples pela qual as relações humanas são construídas, que se importa.
A chamada conversa trivial frequentemente é o cimento da convivência.
Deus, que criou a linguagem e nos fez seres relacionais, sabe disso melhor do que qualquer pregador. Transformar Mateus 12:36 numa proibição de toda fala cotidiana não produz santidade. Produz escrúpulo — e o escrúpulo, quando confundido com piedade, pode tornar a vida cristã insuportavelmente artificial.
O problema não é que toda palavra precise transmitir uma grande verdade.
O problema é o que nossas palavras revelam sobre o coração.
Como escapar disso
A resposta mais comum ao problema da língua costuma ser técnica:
Pense antes de falar. Conte até dez. Não responda quando estiver irritado. Escolha melhor as palavras.
Nada disso é inútil. Em muitas situações, essas práticas evitam danos reais. Mas elas não alcançam o centro do problema apresentado por Jesus.
Os fariseus pensaram antes de falar.
A frase sobre Belzebu não foi uma reação descontrolada. Foi uma resposta estratégica. Eles avaliaram a situação, perceberam a direção para a qual o milagre apontava e construíram uma explicação alternativa.
O cuidado com que formularam a acusação não a tornou menos culpável.
Tornou-a mais.
Por isso, Jesus não começa ordenando que controlem a boca. Começa falando da árvore:
“Ou fazei a árvore boa e o seu fruto bom, ou a árvore má e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore” (Mateus 12:33).
Tapar a boca não transforma a árvore.
Pode impedir temporariamente que o fruto caia diante dos outros, mas não altera sua natureza. O silêncio forçado talvez esconda o ressentimento, a inveja ou a incredulidade; não os cura.
A solução, portanto, não consiste apenas em administrar melhor o transbordamento. É necessário tratar a fonte.
Quando uma palavra ruim já saiu, normalmente perguntamos:
“Eu tinha o direito de dizer aquilo?”
Essa pergunta tem seu lugar. Mas talvez exista outra, mais reveladora:
“O que essa frase mostrou a respeito da árvore?”
Quando me pego explicando pelo lado mais torto o bem que outra pessoa fez, a frase funciona como sintoma. Ela talvez tenha sido mais honesta sobre meu coração do que eu estava disposto a ser.
Tiago escreve:
“Se alguém supõe ser religioso, deixando de refrear a língua, antes, enganando o próprio coração, a sua religião é vã” (Tiago 1:26).
Ele não diz simplesmente que a língua descontrolada estraga uma religião que, fora isso, seria saudável. A língua expõe o autoengano. Revela que a pessoa imaginava possuir uma piedade que seu modo de falar não confirma.
A fala não criou o vazio.
Apenas o tornou visível.
Há pelo menos dois hábitos que podem nos ajudar, e ambos começam antes das palavras.
O primeiro é aprender a reconhecer em voz alta o bem que vem de pessoas de quem não gostamos.
Parece um exercício simples, mas frequentemente é humilhante. Quando sentimos resistência em admitir que alguém de quem discordamos fez algo bom, essa resistência mede, com precisão desagradável, o quanto nosso julgamento está sendo governado não pela verdade, mas pela rivalidade.
O bem não deixa de ser bem porque veio pelas mãos de alguém que nos incomoda.
Reconhecê-lo não exige que concordemos com tudo o que essa pessoa pensa ou faz. Exige apenas que não chamemos o bem de mal para proteger nosso orgulho.
O segundo hábito é desconfiar das explicações que sempre nos poupam.
Quando o argumento que encontro contra um irmão é exatamente aquele que me livra de mudar, perdoar, reconhecer um erro ou obedecer a uma verdade incômoda, convém fazer uma pausa.
Talvez eu não tenha descoberto o argumento.
Talvez o tenha fabricado.
Foi isso que os fariseus fizeram. Criaram uma explicação que lhes permitia permanecer exatamente onde estavam. O milagre não precisava transformá-los, desde que conseguissem reinterpretá-lo.
E eles eram melhores teólogos do que a maioria de nós.
O que fica
A palavra frívola é a palavra que não trabalha: vazia, ociosa, improdutiva.
Não se reconhece simplesmente pelo assunto. É por isso que listas de temas proibidos frequentemente erram o alvo. Podem condenar uma conversa simples e sincera na porta da igreja enquanto deixam passar uma murmuração piedosa, pronunciada em voz baixa numa roda de irmãos.
Uma fala pode tratar de assuntos religiosos e ainda nascer de um tesouro mau.
Outra pode falar do clima, do café ou de uma dor no joelho e realizar o trabalho silencioso do afeto.
O Dia do Juízo, diz Jesus, alcançará até a palavra mais leve.
Foi isso que tornou sua advertência tão severa para os fariseus. Não porque a acusação deles fosse uma palavra frívola, mas porque nem mesmo as frívolas escapam.
Quanto mais aquela.
Onde, exatamente, termina a conversa comum e começa a murmuração? Nem sempre sei dizer. Desconfio de quem afirma possuir uma regra simples capaz de separar uma da outra em todos os casos.
Boa parte do que chamamos de fala à toa talvez seja apenas a linguagem comum pela qual seres humanos dividem a vida. Deus não parece ser um fiscal irritado de trivialidades.
Mas Israel também imaginou que certas palavras fossem apenas desabafos.
E foi justamente por elas que o coração apareceu.














