Lei e Graça

Romanos 14 fala sobre alimentos imundos?

3898

O apóstolo Paulo em Romanos 14:14 parece, à primeira leitura, encerrar a discussão sobre alimentos puros ou impuros. Ele diz: “Eu sei e estou persuadido, no Senhor Jesus, de que nenhuma coisa é de si mesma impura.” Se o apóstolo afirmou isso, então a distinção levítica entre animais limpos e imundos foi superada na nova aliança, e o cristão pode comer o que quiser sem peso de consciência. Esse é o silogismo que sustenta a maior parte das objeções contra a observância adventista das leis dietéticas do Antigo Testamento. Interessante. Mas esse silogismo carrega um problema que o azeda completamente: ele depende inteiramente de uma palavra grega que Paulo deliberadamente não usou.

Há duas palavras gregas em jogo, e a diferença entre elas é o eixo de todo o argumento. A primeira é koinós (κοινός), que significa literalmente “comum/profano” e que, no vocabulário religioso judaico, designava aquilo que se tornava cerimonialmente impuro por associação ritual: por contato com gentios, por ter passado por sacrifício pagão, por estar fora da esfera ritualmente pura. A segunda é akáthartos (ἀκάθαρτος), que significa “impuro” em sentido próprio e que a Septuaginta usa de forma sistemática para traduzir o hebraico tame’ (טָמֵא) em todo Levítico 11. Quando o Antigo Testamento grego quer dizer “animal imundo segundo a lei dietética”, a palavra é akáthartos. Sempre. Não há exceção relevante.

Pois bem. Em Romanos 14:14, Paulo escreve oudèn koinòn di’ heautoû (nada é em si mesmo comum ou profano). Ele não escreve akáthartos. E isso, acredito, não pode ser acidente. Paulo era judeu de formação farisaica, conhecia a Septuaginta de cor e sabia perfeitamente que o termo técnico para “carne imunda” era akáthartos (imundo/impuro). Se o que ele quisesse afirmar fosse a abolição das categorias levíticas, teria à disposição a palavra exata, em uso em sua tradição há séculos, e a teria empregado. Em vez disso, escolheu a palavra que designa impureza por associação cerimonial.

A objeção de Douglas J. Moo

Penso que aqui já temos o suficiente para suspeitar da leitura abolicionista. Mas o argumento lexical sozinho não basta, e seria intelectualmente desonesto fingir que basta. Há uma objeção forte que precisa ser enfrentada, e quem a formulou de modo mais articulado foi Douglas J. Moo.

Moo é um dos comentaristas evangélicos do Novo Testamento mais influentes em atividade, e seu volume sobre Romanos na série NICNT (New International Commentary on the New Testament, ed. Eerdmans) é leitura praticamente obrigatória em qualquer seminário sério, dentro ou fora do mundo reformado. Não é adventista, não tem nenhuma simpatia teológica pela observância das leis dietéticas, e por isso mesmo é o oponente mais útil para esta discussão: se a leitura abolicionista se sustenta em algum lugar, sustenta-se na exegese dele. Engajá-lo aqui é engajar a versão mais forte do argumento contrário, não uma caricatura conveniente. Ele argumenta, em síntese, que no judaísmo do primeiro século a distinção entre koinós e akáthartos havia se desbotado, e que koinós funcionava como “termo guarda-chuva” para qualquer alimento ritualmente problemático, incluindo o levítico. Em outras palavras: Paulo teria usado koinós porque era esse o termo corrente, e estaria de fato abolindo também as categorias de Levítico 11 sob essa rubrica mais ampla. A diferença lexical, nessa leitura, é histórica e não substantiva.

Bem, uma objeção séria merece uma resposta séria. Tenho duas razões para considerá-la insuficiente. A primeira é que Atos 10, onde a distinção aparece de modo agudo, separa expressamente os dois termos. Pedro se recusa a obedecer a ordem dada na visão dizendo: “De modo nenhum, Senhor! Porque jamais comi coisa alguma comum e imunda (koinòn kaì akátharton)”. A conjunção é importante. Se os termos fossem sinônimos no uso lucano do primeiro século, a duplicação seria redundante. Mas não são, porque Pedro as distingue. E esse evento registrado em Atos 10 ocorreu nos dias de Paulo, no mesmo ambiente linguístico. Isso já estabelece que a fusão semântica que Moo supõe não era universal. (Tratei da exegese específica de Atos 10 em outro artigo aqui no site). A segunda razão é o próprio contexto interno de Romanos 14, que oferece ao leitor uma chave de leitura cerimonial e não levítica. Volto a esse ponto adiante.

Por que o “débil” comia apenas legumes

Antes disso, há um detalhe que ilumina toda a discussão. No verso 2, Paulo descreve o “débil na fé” como aquele que “come apenas legumes”. Ora, se a divergência entre fortes e débeis fosse a observância de Levítico 11, o débil seria o que evita carne imunda, não o que evita toda carne. A dieta vegetariana estrita não é exigida em parte alguma da lei mosaica. Pelo contrário: o próprio Levítico prescreve o consumo de animais limpos em diversas ocasiões cúlticas e cotidianas. Vegetarianismo absoluto, no judaísmo do primeiro século, não era escrúpulo levítico. Era escrúpulo contra contaminação por idolatria. Quem temia ter sido enganado pelo açougueiro e comprado carne sacrificada a algum deus pagão preferia abandonar a carne por completo e comer apenas legumes, que não passavam por templos.

Isso, aliás, não é uma hipótese. A discussão de 1 Coríntios 8 a 10 é exatamente essa. Paulo trata ali do mesmo problema com vocabulário paralelo. Os “débeis”, em Corinto, são os que não conseguem distinguir entre o ídolo como entidade real e o ídolo como nada, e por isso evitam carne que tenha passado por templo pagão por medo de contaminação espiritual. Paulo lhes responde que o ídolo nada é, que a terra e tudo o que nela há pertencem ao Senhor, e que, portanto, a carne em si mesma não pode ser considerada koinós só por ter passado por ritual idolátrico vazio. O problema não está no alimento, e sim na consciência de quem come.

Quando lemos Romanos 14 com 1 Coríntios 8 ao lado, o sentido vem inteiro. São a mesma questão pastoral, com vocabulário convergente, dirigida a comunidades urbanas onde o mercado de carnes era cerimonialmente suspeito por causa do paganismo ambiente. Tirar Romanos 14 de seu contexto original para aplicá-lo a Levítico 11 é o clássico caso de confundir alhos com bugalhos.

O reino de Deus não é comer e beber

Há ainda uma terceira evidência interna, e é a que mais me convence. Em Romanos 14:17, Paulo escreve: “o reino de Deus não é brósis nem pósis”. Em português, os tradutores costumam verter o “brósis/pósis” em “comida nem bebida”, o que é defensável mas perde algo. Brósis (βρῶσις) e pósis (πόσις) são substantivos verbais. Designam primariamente o ato de comer e o ato de beber, e só secundariamente o alimento e a bebida como substâncias. Se Paulo quisesse falar do alimento em si, tinha os termos gregos à disposição brôma (βρῶμα) e pôma (πῶμα), que são justamente as palavras para “comida” e “bebida” enquanto coisas. Mas ele escolheu “brósis/pósis“. A escolha sugere fortemente que está discutindo práticas de comer e beber em contextos ritualísticos (escrúpulos, abstenções, jejuns cerimoniais, dias festivos), e não a substância dos alimentos.

A mesma coisa ocorre em Colossenses 2:16: “ninguém vos julgue por causa de brósei ou pósei”. De novo, os atos rituais, não o conteúdo do prato. Paulo está liberando a igreja de obrigações cerimoniais impostas pelos judaizantes, em vez de emitir um decreto contra Levítico 11.

Abro aqui um parêntese que, embora pareça um detalhe secundário, expõe um ponto cego na interpretação comum. Quase nunca se nota que Paulo coloca brósis (o ato de comer) e pósis (o ato de beber) lado a lado. Se o apóstolo estivesse pensando nas leis dietéticas de Levítico 11, esse emparelhamento não faria sentido: aquele capítulo classifica carnes, não bebidas. Não existe uma lista levítica de “bebidas imundas”. Por que, então, associar comida e bebida? Porque a questão ali é de ordem cerimonial. No ambiente da época, banquetes rituais e libações andavam sempre juntos. A associação faz todo o sentido dentro de um contexto de práticas rituais, mas desmorona sob uma leitura puramente levítica.

O argumento ganha contornos ainda mais claros quando analisamos 1 Timóteo 4:3-5, frequentemente invocado como prova cabal contra as leis dietéticas. Paulo denuncia ali certos falsos mestres que “proíbem o casamento e exigem abstinência de alimentos que Deus criou para serem recebidos com ações de graças”. Essa declaração é decisiva. Deus criou certos alimentos para serem recebidos com gratidão. Porém, a pergunta que a leitura superficial não faz é: quais alimentos Deus criou com esse propósito? A resposta está na própria Torá. Animais imundos nunca foram criados para o cardápio humano; portanto, biblicamente, eles sequer entram na categoria de “alimento”. O texto paulino não revoga Levítico 11; pelo contrário, depende dele. 1 Timóteo 4 pressupõe uma lista de alimentos legítimos, e essa lista está escrita em Levítico.

Mas Levítico 11 não foi abolido com o resto da lei cerimonial?

Pois bem. Antes de fechar, sinto que devo formular a melhor objeção que vejo contra tudo o que disse até aqui, porque o argumento só prova alguma coisa se sobreviver à versão mais forte da resistência.

A objeção mais séria, a meu ver, é esta: ainda que tudo o que foi dito seja a exegese correta, ainda que Paulo esteja tratando de carne sacrificada a ídolos em Romanos 14 e de práticas rituais em Colossenses 2, isso não prova positivamente que Levítico 11 continue válido para o cristão. Mostra apenas que esses textos do Novo Testamento não abolem a lei dietética. Mas e quanto à transição da antiga para a nova aliança? E quanto ao fato de que outras leis cerimoniais foram efetivamente revogadas em Cristo? Por que Levítico 11 escaparia ao mesmo destino?

A resposta, parece-me, é que Levítico 11 não pertence à categoria das leis cerimoniais transitórias. Há razões para crer que se trata de outra coisa. O capítulo se encerra com a fórmula “sereis santos, porque eu sou santo”, a mesma fórmula que enquadra o Decálogo moral. As carnes proibidas são chamadas shéqets e to’evah, “abominação”, termo que no Pentateuco descreve realidades moralmente repulsivas a Deus, não meras irregularidades rituais. E as mesmas distinções dietéticas aparecem antes do Sinai, na narrativa do dilúvio em Gênesis 7, onde Noé já conhece a diferença entre animais limpos e imundos sem que nenhuma legislação cerimonial mosaica tenha sido dada. Isso aponta para uma categoria anterior à aliança mosaica, ligada à criação e à constituição do ser humano, não ao sistema sacrificial que cessou com Cristo.

A pergunta que resta, portanto, é se Levítico 11 era apenas uma sombra cerimonial que cumpriu seu papel e desapareceu, ou se permanece como uma instrução de saúde e separação. Tenho razões para acreditar na segunda parte. E o Novo Testamento, longe de contradizer essa visão, deixa Levítico 11 perfeitamente intacto.

Quatro linhas, uma conclusão

Vimos, portanto, quatro coisas fundamentais. Primeiro, que Paulo escolhe deliberadamente o termo koinós, e não akáthartos, em Romanos 14:14, e que essa distinção lexical sobrevive à objeção de Moo porque o próprio texto de Atos 10 a sustenta. Segundo, que o contexto interno de Romanos 14, com o “débil” que come apenas legumes e o paralelo direto com 1 Coríntios 8 a 10, aponta para o escrúpulo contra a carne idolátrica, não para Levítico. Terceiro, que brósis e pósis em Romanos 14:17 e Colossenses 2:16 designam os atos rituais de comer e beber, nada tendo a ver com substâncias alimentares em si, e esse emparelhamento só faz sentido dentro de um ambiente cerimonial. Quarto, que 1 Timóteo 4 pressupõe, em vez de revogar, a categoria de alimentos que Deus criou para o consumo humano, categoria esta que Levítico 11 define com precisão. São quatro linhas independentes de evidência, convergindo para a mesma conclusão.

Por fim, cabe um esclarecimento indispensável para evitar equívocos: a obediência às leis dietéticas jamais deve ser confundida com uma moeda de salvação. A justificação é inteiramente pela graça, recebida mediante a fé em Cristo, e nenhum alimento pode adicionar ou subtrair um grama desse dom gratuito. O ponto é outro: o estilo de vida que Deus prescreve ao Seu povo redimido abrange a totalidade da existência. Como o ser humano é um todo integral, o cuidado com o corpo repercute na mente e, consequentemente, na vida espiritual. Seguir Levítico 11 não faz ninguém ser débil na fé. Quem o observa não está comprando a salvação. Já quem o despreza está abrindo mão de um cuidado divino que o Novo Testamento jamais revogou.


Referências consultadas:
  • Bíblia Sagrada – Versão Almeida Revista e Atualizada (ARA).
  • Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, vol. 6, Ed. CPB, págs. 698-711.
Para se aprofundar ainda mais neste tema, leia também:

As Leis de Saúde na Bíblia: uma orientação divina para a vida

A Bíblia proíbe comer carne de porco?

img

Graduando em História pela Universidade Estácio de Sá e estudioso de Teologia, defende a premissa de que o conhecimento se torna verdadeiramente valioso quando compartilhado. Junte-se a mim nessa jornada!

Deixe uma resposta

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

Artigos Relacionados