Em 1 Samuel 15 encontramos uma situação bastante curiosa. No versículo 11, o Senhor diz que se arrependeu de haver constituído Saul rei. Até aí, o sentido parece claro: Deus colocou Saul no trono e agora declara que se arrependeu de tê-lo feito. O problema é que no versículo 29, no mesmo capítulo, o profeta Samuel diz que “a Glória de Israel não mente, nem se arrepende, porquanto não é homem, para que se arrependa.”
Ora, como devemos entender isso? Deus diz que se arrependeu e depois somos informados de que ele não se arrepende. E não estamos juntando passagens de autores diferentes, escritas em épocas diferentes, para fabricar uma dificuldade. Estamos falando da mesma história, registrada num mesmo capítulo pelo mesmo profeta. À primeira leitura, dificilmente poderíamos eleger uma contradição mais direta.
E seria mais fácil lidar com o problema se 1 Samuel 15:11 e 29 fosse um caso isolado. Mas não é. Há um grupo de textos que parece fechar a porta com bastante firmeza: “Deus não é homem, para que minta; nem filho de homem, para que se arrependa. Porventura, tendo ele dito, não o fará? Ou, tendo falado, não o cumprirá?” (Números 23:19). Parece difícil ser mais explícito, não é mesmo? Deus não é homem para que se arrependa. Tudo o que Ele promete, cumpre.
O Salmo 110:4 vai na mesma direção: “O Senhor jurou e não se arrependerá”. Em Ezequiel 24:14, Deus declara: “Eu, o Senhor, o disse: será assim, e eu o farei; não tornarei atrás, não pouparei, nem me arrependerei”. Se parássemos aqui, provavelmente consideraríamos o assunto encerrado. Deus é imutável. Ele não erra, não precisa reconsiderar suas decisões e não volta atrás no que determinou.
Só que ao continuamos lendo o mesmo Antigo Testamento, nos deparamos com textos que nos colocam de volta em uma encruzilhada. Gênesis 6:6, por exemplo, diz que o Senhor se arrependeu de ter feito o homem sobre a terra. Depois do episódio do bezerro de ouro, Êxodo 32:14 afirma que Deus se arrependeu do mal que dissera que faria ao povo. Em Jonas 3:10, Deus se arrepende do juízo que havia anunciado contra Nínive; e Amós 7 o apresenta desistindo, por duas vezes, de uma calamidade que acabara de mostrar ao profeta. E, naturalmente, temos o texto com que começamos: em 1 Samuel 15:11, Deus se arrepende de ter colocado Saul no trono.
Agora a dificuldade está diante de nós em toda a sua força. A Bíblia não diz apenas uma vez que Deus não se arrepende. Também não diz apenas uma vez que ele se arrepende. Ela faz as duas coisas repetidamente — e, em 1 Samuel 15, consegue fazê-las dentro do mesmo capítulo.
Então, o que está acontecendo?
Não são dois verbos
Uma saída bastante comum, e que você encontrará até em bom material sobre o assunto, é recorrer ao hebraico. A explicação seria mais ou menos esta: o Antigo Testamento teria duas palavras diferentes para aquilo que nossas traduções chamam de “arrependimento”. Uma delas, naham (נחם), descreveria o pesar, a compaixão, o arrependimento de caráter mais emotivo. A outra, shuv (שוב), indicaria propriamente uma mudança de rumo, a reversão de uma ação anteriormente anunciada. Assim, os textos poderiam ser colocados em duas linhas que nunca se cruzam: cada tipo de arrependimento teria seu próprio verbo.
Confesso que é uma solução engenhosa e parece ser bastante óbvia. Porém, se pegarmos uma concordância e formos conferir os verbos, a distinção começa a desaparecer. Números 23:19, Salmo 110:4 e Ezequiel 24:14, todos do lado dos textos que dizem que Deus não se arrepende, usam naham. Mas, quando passamos para os textos em que Deus se arrepende, encontramos exatamente a mesma palavra: naham aparece em Gênesis 6:6, Êxodo 32:14 e Amós 7:3. Ou seja, a divisão que esperávamos encontrar no hebraico simplesmente não aparece. O mesmo verbo está dos dois lados.
A essa altura alguém poderia citar Jonas 3:10, que é frequentemente apresentado como exemplo do shuv aplicado a Deus. Mas o texto não diz isso. Quem faz shuv, quem se converte e volta do mau caminho, são os ninivitas. Quando a narrativa descreve a reação de Deus e diz que ele “se arrependeu do mal” que havia anunciado, o verbo é, mais uma vez, naham.
A separação lexical que deveria resolver o problema, portanto, simplesmente não está no texto. Não podemos colocar naham de um lado e shuv do outro e considerar o caso encerrado. Precisamos procurar a resposta em outro lugar.
Tenho boas razões para acreditar que essa resposta é mais simples do que a que se costuma oferecer, e ao mesmo tempo bem mais difícil de derrubar, porque não depende de nenhum truque de vocabulário. Vou apresentá-la em três partes.
O que o verbo carrega sozinho
A primeira parte da resposta está no próprio alcance do termo naham. Esse verbo é mais amplo do que às vezes se imagina. Em sua origem, traz a ideia de “respirar fundo”, “suspirar”, e daí pode assumir sentidos como “sentir pesar”, “compadecer-se” e até “relentar”, isto é, voltar atrás de uma ação ou mudar o rumo anteriormente anunciado. E isso é importante porque nenhum desses sentidos exige, por si só, que tenha havido um erro anterior. Posso sentir pesar sem ter tomado uma decisão equivocada. Posso me compadecer sem admitir que falhei. Posso até retirar uma ameaça sem que a ameaça original tenha sido falsa ou injusta.
Assim, aquilo que a teoria dos dois verbos tentava distribuir entre naham e shuv já cabe, em boa medida, dentro do próprio naham. A dificuldade, portanto, não será resolvida simplesmente perguntando qual palavra hebraica aparece no texto. O problema nunca esteve apenas no verbo.
Cada negação presa a uma promessa
A segunda parte é a que resolve de fato, e é onde a gramática sozinha não alcança. Quando um desses textos diz que Deus “não se arrepende”, ele não está enunciando uma lei metafísica segundo a qual Deus jamais volta atrás em ocasião alguma. Está afirmando, em cada caso, que Deus não voltará atrás naquela palavra específica.
Volte a Números 23:19 e leia imaginando a cena. Balaque contratou Balaão para amaldiçoar Israel e, quando a bênção sai no lugar da maldição, insiste: muda o profeta de posição, ergue novos altares, tenta forçar a mão de Deus. É contra esse pano de fundo que Balaão responde. Deus não é homem para mentir nem para se arrepender. Quer dizer: o que ele falou sobre Israel, ele fará, e nenhuma barganha de Balaque reverterá aquela bênção. O versículo não é uma tese sobre a natureza atemporal de Deus. É a recusa a desdizer uma palavra já empenhada.
O mesmo vale para Saul, e aqui o capítulo que parecia a pior das contradições se revela a melhor das provas. No versículo 11, Deus expressa o seu pesar por ter posto Saul no trono; o reinado saiu como saiu, e isso lhe custa. No versículo 29, Samuel corta qualquer esperança de Saul reverter a sentença: a rejeição está selada, e a Glória de Israel (Deus) não se arrepende, isto é, não voltará atrás nesta decisão. O verbo é o mesmo porque a ação é a mesma, relentar. O que muda é o objeto. Deus sentiu pesar, se entristeceu, quanto a ter feito Saul rei e não voltou atrás quanto a tê-lo rejeitado. Dois objetos, um verbo, nenhuma contradição. O Salmo 110:4 e Ezequiel 24:14 correm pelo mesmo trilho: um jura o sacerdócio e não se desdirá dele, o outro anuncia um juízo e avisa que ele cairá. São afirmações de fidelidade a uma palavra determinada, não um axioma geral sobre o que Deus pode ou não pode fazer.
Quem faz a distinção é Deus
Pois bem, talvez alguém esteja pensando: “Muito conveniente. Quando o texto diz que Deus se arrepende, você entende uma coisa; quando diz que ele não se arrepende, entende outra. No fim, basta escolher o sentido que preserva a coerência.” É uma bela objeção. Se essa distinção dependesse apenas de mim, eu também desconfiaria dela.
A questão, porém, é que não sou eu quem a estabelece. O próprio Deus faz isso. Veja o que ele diz em Jeremias 18:7-10: “No momento em que eu falar contra uma nação e contra um reino para arrancar, para derribar e para destruir, se essa nação, contra a qual falei, se converter da sua maldade, também eu me arrependerei do mal que intentava fazer-lhe. E, no momento em que eu falar de uma nação e de um reino, para edificar e para plantar, se ela fizer o que é mau perante mim e não der ouvidos à minha voz, então me arrependerei do bem que tinha determinado fazer-lhe.”
Repare no que Deus está dizendo. Se ele anuncia juízo contra uma nação e ela se converte, ele “se arrepende” do mal que pretendia fazer. Se anuncia o bem e essa mesma nação se volta para o mal, ele “se arrepende” do bem que havia determinado. Nos dois casos, o verbo é naham.
Isso muda bastante a discussão, porque a condicionalidade já não é uma saída inventada por um intérprete tentando harmonizar textos difíceis. É o próprio Deus explicando como certas declarações suas funcionam. E, à luz disso, a questão de Nínive deixa de ser um enigma. O que acontece em Jonas é praticamente Jeremias 18 colocado em cena. Deus anuncia juízo contra uma cidade; a cidade se converte — esse é o shuv de Jonas 3:10 — e, diante dessa mudança, Deus naham: volta atrás do juízo que havia anunciado.
O que parecia uma oscilação no caráter de Deus começa, então, a revelar exatamente o contrário. Deus age dessa maneira porque permanece fiel ao princípio que ele mesmo declarou.
A imutabilidade é a razão, não o obstáculo
É aqui, penso eu, que as peças finalmente se encaixam. A imutabilidade de Deus e aquilo que a Bíblia chama de seu “arrependimento” não precisam ser colocados um contra o outro. Em alguns desses textos, o segundo é justamente uma consequência da primeira.
Pense novamente em Nínive. Por que a cidade foi poupada? Certamente não porque Deus tenha mudado de caráter no meio da história. Foi por causa de seu caráter que nunca muda que ele respondeu de maneira diferente quando os ninivitas mudaram. Se Deus fosse hoje misericordioso e amanhã cruel, hoje justo e amanhã indiferente, não haveria qualquer constância em sua resposta. Mas, porque permanece o mesmo Deus justo e misericordioso, sua relação com uma pessoa ou uma população inteira pode mudar quando essa pessoa ou população muda diante dele. É por isso que o naham divino não é uma rachadura na imutabilidade de Deus, mas o mesmo caráter encontrando uma situação que já não é a mesma.
Pode ser que alguém responda que tudo isso não passa de linguagem figurada. Afinal, a Bíblia fala de Deus “cheirando” um sacrifício, estendendo o “braço” e fazendo outras coisas que obviamente são descritas em linguagem humana. Não poderíamos dizer simplesmente que Deus “se arrepende” da mesma maneira — como uma forma humana de falar sobre algo que, em Deus, não corresponde realmente ao que sentimos?
Penso que precisamos ter mais cuidado aqui. Quando Gênesis 6:6 diz que o Senhor se arrependeu de ter feito o homem e que aquilo “lhe pesou no coração”, o texto não parece estar atribuindo a Deus um sentimento irreal apenas para facilitar nossa compreensão. Há verdadeiro pesar divino ali. Deus não é apresentado como alguém indiferente ao mal humano, enquanto a narrativa apenas finge que ele sofre para tornar a história mais compreensível. A condição de suas criaturas realmente importa para ele.
O mesmo vale quando Deus volta atrás de um juízo anunciado. Isso não significa que Ele tenha descoberto um erro em seu plano, nem que tenha aprendido alguma coisa que antes desconhecia. Significa que sua resposta à criatura é real. Quando a criatura muda sua relação com Deus, a maneira como Deus se relaciona com ela também pode mudar, sem que seu caráter tenha mudado em absolutamente nada.
E talvez seja precisamente aqui que a comparação com o arrependimento humano precise ser feita com mais cuidado. Quando a Bíblia diz que Deus não é homem para que se arrependa, não está necessariamente negando toda forma de pesar ou toda mudança na maneira como ele age em relação a alguém. Está negando aquilo que torna tão frequentemente necessário o nosso arrependimento: ignorância, erro, instabilidade, promessa quebrada, informação que chegou tarde demais.
Deus não foi surpreendido pelas ações repugnantes dos ninivitas. Saul não lhe revelou uma possibilidade que ele desconhecia. Ninguém o manipula até fazê-lo abandonar relutantemente um plano melhor. Seu pesar não nasce de ignorância, e sua mudança de ação não nasce de um erro que precise ser corrigido. Ainda assim, a relação é verdadeira. O que fazemos importa. Nossa rebelião provoca pesar, tristeza; nosso arrependimento encontra Sua misericórdia; a persistência no mal encontra juízo. E nada disso exige que Deus deixe de ser quem sempre foi.
Voltamos, então, à pergunta com que começamos. Como 1 Samuel 15 pode dizer que Deus se arrependeu de ter feito Saul rei e, poucos versículos depois, afirmar que ele não se arrepende? Agora podemos perceber que a pergunta estava formulada de maneira ampla demais. O fato de o mesmo verbo aparecer nas duas frases não significa que as duas estejam falando da mesma decisão. Deus sentiu pesar por ter colocado Saul no trono; mas, uma vez pronunciada a sentença de rejeição, não voltaria atrás dela. O mesmo naham aparece nos dois casos, mas aplicado a objetos diferentes.
Isso não torna o arrependimento de Deus idêntico ao nosso. Quando nos arrependemos, muitas vezes é porque descobrimos que estávamos errados, porque não sabíamos o que aconteceria ou porque uma decisão produziu consequências que não previmos. Nada disso pode ser dito de Deus. Sendo onisciente, ele não descobriu tarde quem Saul se tornaria, nem foi surpreendido pelo que aconteceu em Nínive, como já dito. Seu pesar é real, e sua resposta às criaturas também é real, mas nenhum dos dois nasce de ignorância ou de um erro que precise ser corrigido.
A aparente contradição desaparece quando mantemos juntas essas duas verdades. Deus não muda em seu caráter, em seu conhecimento ou em sua fidelidade; ainda assim, relaciona-se verdadeiramente com criaturas que mudam. Por isso pode lamentar o que elas se tornam, retirar um juízo quando se arrependem e, ao mesmo tempo, declarar que não voltará atrás de uma palavra que decidiu cumprir. Em outras palavras, o Deus imutável não é um Deus imóvel. Ele permanece sempre o mesmo, justamente enquanto responde de maneira perfeitamente coerente às mudanças daqueles com quem se relaciona.















