História Bíblica

A origem de “amém” e a falácia da conexão com Amon-Rá

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Faça uma busca rápida por “amém vem de Amon-Rá” e você vai topar com várias imagens de um deus egípcio com cabeça de carneiro, sob uma legenda que se pretende demolidora: toda vez que você termina uma oração com “amém”, diz ela, está invocando sem saber Amon-Rá, o deus-sol de Tebas. Os mais emocionados acrescentam que Amon seria o ancestral de Baphomet, e que o mundo cristão inteiro passa a vida rezando para o lado errado por pura ignorância.

Admito que a acusação tem força. Afinal, essa teoria se apoia em dois pontos reais. O primeiro é fonético: “amém” e “Amon” soam parecido, e a semelhança salta ao ouvido antes de qualquer análise. O segundo é histórico: o povo de Israel esteve no Egito, Moisés foi criado na casa do faraó, e ninguém nega que o Egito tenha sido a grande potência cultural diante da qual os hebreus se formaram. Junte as duas coisas e o argumento parece fechar sozinho. Palavra parecida e povos em contato: eis a origem pagã escondida à vista de todos.

Mas a questão é que essa acusação só parece plausível mesmo. Entre parecer e ser há uma distância enorme que esse tipo de acusação nunca percorre. E se a percorremos, o que encontramos do outro lado não é um deus egípcio, mas uma raiz hebraica antiga e pulsante, fazendo o que toda língua viva faz: dar origem a novas palavras.

Uma palavra puramente hebraica

Comecemos pela palavra em si. Em vez de ser um termo isolado e opaco que migrou para o hebraico de forma misteriosa, guardando apenas uma semelhança casual com outra língua, o “amém” funciona como o nó central de uma vasta família de vocábulos. Todos eles são erguidos sobre a mesma raiz tri-consonantal — aleph–mem–nun (א־מ־ן) — e orbitam uma única ideia fundamental: a firmeza, a solidez e aquilo sobre o qual se pode depositar o peso sem receio de que ceda.

Olhe para essa árvore genealógica. Da mesma raiz emana emunah, a “fé” compreendida essencialmente como apoio e sustentação, distanciando-se do conceito de mero assentimento da mente. Dali também deriva ne’eman, que qualifica o que é “fiel e digno de confiança”, e brota emet, a “verdade” vista como aquilo que permanece firme e jamais falha. O mesmo tronco gera he’emin, o próprio verbo “crer e confiar”, e se estende até omen, o aio encarregado de segurar e amparar a criança pequena — palavra precisamente aplicada a Noemi em Rute 4:16, que assumiu os cuidados do filho de Rute sem nunca tê-lo amamentado. No desfecho dessa linhagem, desponta a palavra que nos interessa aqui: o amém, cujo significado se traduz em algo “verdadeiro, firme e confirmado, um definitivo ‘assim seja’.”

Pois bem, uma palavra genuinamente hebraica, nascida de uma matriz que gera ativamente uma dúzia de termos irmãos com significados tão transparentes, dispensa qualquer tentativa de explicação baseada em importações estrangeiras. Esse constitui o verdadeiro coração de toda a questão.

E essa não é uma interpretação tendenciosa, como muitos pensam, para defender uma das palavras mais importantes do cristianismo. Há vários estudiosos do hebraico que confirmam isso sem hesitação em suas obras: o léxico clássico de Brown, Driver e Briggs; o antigo e ainda incontornável Gesenius; o longo verbete que Alfred Jepsen dedicou à raiz no Theological Dictionary of the Old Testament. Nenhum deles trata a origem de “amém” como assunto em disputa, pela simples razão de que não há disputa alguma, nem de significado nem de origem. É consenso entre eles. Para que a acusação continue de pé, os críticos tupiniquins precisam desconhecer, ou ignorar, esse consenso acadêmico.

Afinal, quem foi Amon?

Embora o que vimos até aqui já seja suficiente, convém mesmo assim conhecer o deus de quem se fala, nem que seja porque quase ninguém que repete a acusação chegou a estudá-lo.

Amon, em egípcio jmn, significa “o oculto”, “o escondido”. No início, era uma pequena divindade local de Tebas, integrante da Ogdóade de Hermópolis, associado nas origens ao ar e ao sopro invisível, o que combina bem com o nome. Esse cenário, porém, mudou drasticamente entre a XI e a XII dinastias, quando Tebas ganhou peso político, e chegou ao auge no Império Novo, a partir de Amósis I, quando Amon foi fundido com o deus solar Rá e se tornou Amon-Rá, “rei dos deuses”. Reinou no panteão até ser proscrito por Akhenaton, em favor do disco solar Aton, e restaurado pouco depois sob Tutancâmon, cujo nome, antes Tutankhaton, foi reescrito justamente para honrá-lo. Faraós como Amenhotep III e, já na XIX dinastia, Ramsés II levaram seu culto a alturas que faziam dos sacerdotes de Karnak um poder quase paralelo ao trono.

Note agora o contraste com tudo o que se disse da raiz hebraica. Amon é nome próprio, opaco, de uma divindade específica. Não há em torno dele família de palavras egípcias para “fidelidade” e “confirmação”, como há em torno de aman no hebraico. E, o que é decisivo, Amon jamais teve uso litúrgico de afirmação: ninguém, no Egito, encerrava uma prece dizendo “Amon” no sentido de “assim seja”. O nome de um deus e uma fórmula de assentimento são coisas de naturezas diferentes. O que as duas têm em comum, no fim das contas, é um punhado de sons.

“Mas as línguas não são aparentadas?”

Nesse ponto, o crítico mais informado costuma recuar para um terreno que lhe parece mais firme, argumentando que o egípcio e o hebraico pertencem ambos à grande família afro-asiática. Para ele, como são idiomas aparentados, a existência de um cognato entre os dois seria perfeitamente natural.

Esse parentesco de fato existe, e concedo o ponto de bom grado, embora ele acabe sendo inútil para quem o levanta. Afinal, o vínculo entre o egípcio e as línguas semíticas é extremamente remoto, isolado por milhares de anos de evolução independente. Em árvores genealógicas tão profundas, a coincidência de duas ou três consoantes entre vocábulos distintos reflete apenas a ação do acaso, que atua de forma contínua no tempo. De resto, línguas sem qualquer vínculo histórico exibem semelhanças sonoras às dúzias, sem que ninguém conclua disso uma origem comum. O inglês much, por exemplo, assemelha-se fortemente ao espanhol mucho, mesmo sem guardar com ele qualquer parentesco etimológico. Sons curtos costumam se chocar por pura sorte, um fenômeno que constitui a regra geral da linguagem.

Há, porém, um motivo ainda mais forte para que esse parentesco distante seja incapaz de salvar a acusação, e ele nos dispensa de cruzar a fronteira da família linguística. Como já vimos, o “amém” nasce inteiramente dentro do hebraico, gerado por uma raiz nativa e cercada de palavras irmãs. Diante de uma formação interna tão transparente, a hipótese de um empréstimo estrangeiro desmorona por completo.

De quem é o ônus da prova

Resta a versão mais escorregadia da acusação, a que larga a derivação direta e se refugia na insinuação: “não digo que ‘amém’ venha de ‘Amon’; digo apenas que o vocabulário religioso do Antigo Oriente era mestiço, e cabe a você provar que é coincidência”.

Tenho razões para crer que o ônus dessa prova corre na direção oposta, sendo essa inversão o artifício que estruturalmente sustenta a manobra. Afinal, a afirmação de que uma palavra constitui um empréstimo de outra língua exige uma demonstração metodológica rigorosa, fundamentada em correspondência sonora regular entre os idiomas, uma rota de transmissão historicamente atestada e o perfeito encaixe de sentido. A hipótese de que o “amém” derive de “Amon” falha em atender a esses três critérios essenciais. Diante da ausência de regularidade fonológica ou de qualquer registro histórico de transmissão, os significados se distanciam completamente, visto que a expressão hebraica cumpre o papel de afirmar a verdade, enquanto o termo egípcio designa uma divindade específica. Assim, o argumento passa a repousar unicamente na semelhança fonética casual, que representa a forma mais fraca de evidência disponível e constitui um produto natural gerado continuamente pelas línguas. Desse modo, a responsabilidade de sustentar o suposto empréstimo recai inteiramente sobre quem o postula, uma tarefa que carece de qualquer base factual para se sustentar.

E já que falamos em manobra, boa parte da força emocional dessa acusação vive de detalhes que se desmancham assim que examinados. Diz-se que Moisés, criado no Egito, “tinha de conhecer Amon”, como se conhecer o nome de um deus fosse o mesmo que tomá-lo emprestado para uma palavra que nada tem a ver com ele. E aparece, de vez em quando, o argumento de que “até as estátuas antigas mostram Moisés com chifres de carneiro, como Amon”. Ora, os chifres de Moisés não vêm do Egito, e sim de um erro de tradução. Em Êxodo 34, o texto diz que o rosto de Moisés qaran, “resplandecia”, e Jerônimo, na Vulgata latina, leu a forma como se fosse qeren, “chifre”. Michelangelo esculpiu o engano no mármore do seu Moisés, hoje na igreja romana de San Pietro in Vincoli, e o engano virou prova. É assim que esses paralelos costumam nascer: não de uma raiz comum, mas de um deslize que alguém, séculos depois, recolhe do chão como se fosse arqueologia.

De onde veio a acusação?

Essa perspectiva, aliás, possui um panorama histórico que atua diretamente contra ela. A tese de que o vocabulário judaico e cristão descende secretamente do Egito provém de uma linha esotérica do século XIX, fundamentada na premissa de que toda religião constitui apenas uma forma disfarçada de mitologia egípcia. Seu proponente mais célebre foi Gerald Massey, poeta autodidata e egiptólogo amador que deu continuidade às especulações de Godfrey Higgins, cabendo à Teosofia de Helena Blavatsky — profunda admiradora dos estudos de Massey — a tarefa de disseminar essa corrente em ampla escala.

No ambiente acadêmico, os egiptólogos profissionais sempre desconsideraram tais formulações, mantendo uma rejeição constante desde a sua origem até os dias atuais. Hoje, essa acusação restringe-se quase por completo aos memes de redes sociais e ao arsenal retórico de determinados círculos do ‘nome sagrado’, dedicados a buscar traços de paganismo em cada sílaba da liturgia cristã. Como consequência, a pesquisa científica rigorosa, tanto na egiptologia quanto na linguística semítica, ignora o assunto por completo, de modo que a controvérsia inexiste no meio acadêmico, configurando unicamente uma conversa de boteco revestida de um falso ar de erudição.

O que a palavra é, afinal

Repare, então, no ponto a que chegamos. O “amém” consolida-se como uma palavra hebraica nativa e de sentido transparente, gerada por uma das raízes mais férteis do idioma. Ela se faz presente nas Escrituras desde as maldições e bênçãos de Deuteronômio 27 e o ritual de Números 5, atravessando os Salmos, o judaísmo e a igreja primitiva mantendo sempre inalterado o seu significado de firmeza, confirmação e verdade. Tamanha é sua autonomia que os escritores do Novo Testamento optaram por transcrevê-la diretamente como amḗn para o grego, preservando a forma exata como é no hebaico, em um percurso histórico completamente alheio ao Egito.

Existe ainda uma ironia final que desbanca a acusação por completo, revelando que o termo rotulado como pagão funciona, na verdade, como um título de Cristo na própria Escritura. Em Apocalipse 3:14, Jesus se apresenta precisamente nesses termos: “Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus”. Ele é o Amém, aquele em quem, conforme a perspectiva de Paulo em 2 Coríntios 1:20, todas as promessas de Deus se confirmam como “sim” e “amém”. Trata-se do mesmo Deus a quem Isaías denomina Elohei amém, o “Deus da verdade” (Isaías 65:16). Ao tentar transformar um vocábulo que designa o Fiel e a Verdade no nome de um ídolo, a crítica equivocou-se na máxima extensão possível.

Assim, da próxima vez que você proferir essa palavra, pode fazê-lo com total serenidade e consciência tranquila. Distante de ser o eco de uma divindade esquecida em Tebas, o “amém” constitui uma afirmação de fidelidade antiga e sólida, que a Escritura escolheu repousar, com toda a sua força, sobre o próprio Cristo.


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Graduando em História pela Universidade Estácio de Sá e estudioso de Teologia, defende a premissa de que o conhecimento se torna verdadeiramente valioso quando compartilhado. Junte-se a mim nessa jornada!

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