Seitas e Heresias

Terra plana na Bíblia? O que a Bíblia realmente diz

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A alegação existe, circula com força em grupos cristãos e merece uma resposta séria, não a do desprezo, mas a da análise. A tese é simples: a Bíblia descreve uma Terra plana, com firmamento sólido acima, bordas físicas e fundamentos concretos. Logo, quem aceita a Bíblia como Palavra de Deus deveria aceitar também o terraplanismo.

Parece-me que essa conclusão está errada em cada uma de suas premissas. E as razões para isso não estão escondidas, estão no próprio texto hebraico, quando lido com o cuidado.

O problema começa antes do argumento

Há um problema metodológico que precisa ser resolvido antes de qualquer análise textual. Os autores bíblicos não estavam escrevendo livros didáticos sobre astronomia. Viviam no antigo Oriente Próximo, num mundo em que babilônios, egípcios e fenícios tinham suas próprias cosmologias, repletas de abóbadas celestes, pilares e águas primordiais. Os autores hebreus conheciam esse repertório de imagens e o utilizavam. Mas o faziam para fins teológicos: comunicar que YHWH governa o cosmos, que o caos está sob Seu domínio, que a criação pertence a Ele. A intenção nunca foi cartográfica.

Isso não é uma concessão ao ceticismo liberal. É respeito pelo texto — o mesmo respeito que nos impede de ler que o sol “se regozija como herói, a percorrer o seu caminho” no Salmo 19:5 e concluir que ele tem pernas.

O que as palavras realmente dizem

Ora, entremos no argumento propriamente dito. Os textos terraplanistas dependem de três termos hebraicos: erets, chûg e raqîaʿ. Vamos examinar cada um com honestamente.

Erets ocorre mais de 2.500 vezes no Antigo Testamento. Significa, conforme o contexto, solo, território, país ou mundo habitado — um campo semântico tão amplo que dizer “erets prova que a Terra é plana” seria como dizer que a palavra “chão” em português descreve a geometria do planeta. O termo simplesmente não carrega essa informação.

Chûg, usado em Isaías 40:22 e Jó 26:10, é o mais explorado pelos defensores da Terra plana. Traduzido como “círculo”, descreve provavelmente a linha do horizonte, aquela percepção circular que qualquer observador tem ao olhar ao redor. Seguindo a metodologia de Walton em Ancient Near Eastern Thought and the Old Testament, que examina como o repertório de imagens do Oriente Próximo funciona dentro dos textos bíblicos, parece-me que o termo expressa percepção visual e ordem cósmica. A geometria técnica simplesmente não era a preocupação do autor.

Raqîaʿ é o mais complexo dos três. A Septuaginta o traduziu como stereōma — estrutura sólida — sob influência da física aristotélica, e a Vulgata perpetuou esse entendimento com firmamentum. Essas escolhas moldaram séculos de leitura cristã ocidental. Mas elas refletem os paradigmas cosmológicos greco-romanos dos tradutores, não o hebraico original. O raqîaʿ descreve uma separação funcional dentro de uma narrativa de soberania divina — a distinção entre as águas de cima e de baixo. É linguagem de ordem e governo, não de engenharia cósmica.

A questão do gênero literário

Quando Salmos 75:3 fala nas “colunas da Terra” ou Isaías 40:22 descreve Deus “estendendo os céus como uma cortina”, estamos lendo poesia hebraica, um gênero marcado por paralelismo, hipérbole e imagens evocativas que nenhum leitor antigo tomaria como especificação técnica.

O mesmo vale para as referências apocalípticas. “Anjos nos quatro cantos da Terra” em Apocalipse 7:1 é símbolo de totalidade geográfica — os quatro pontos cardeais — não uma descrição da geometria do planeta. A Bíblia não ensina que a Terra é quadrada. Caso contrário teríamos um problema: a Bíblia estaria ensinando que a Terra é plana ou quadrada?

A ironia que o terraplanista não vê

Pois bem, chegamos ao ponto mais revelador de toda essa discussão.

Suponha que alguém decida ignorar tudo o que foi dito e insista em buscar na Bíblia uma descrição literal da forma da Terra. O que encontra?

Bom, vejamos: Isaías 40:22 fala de um círculo. Jó 26:7 diz que Deus “suspende a Terra sobre o nada” — uma imagem surpreendentemente compatível com um planeta flutuando no espaço sideral, e completamente incompatível com a ideia de uma Terra plana apoiada em pilares ou sobre o oceano. Jó 26:10 traça um “limite circular sobre a superfície das águas”, separando luz e trevas ao longo de uma fronteira curva.

Nenhuma dessas imagens favorece o terraplanismo. Todas, lidas ao pé da letra, apontam na direção oposta. Quem força o texto em busca de uma Terra plana encontra uma Bíblia que — mesmo sem nenhuma pretensão científica — se aproxima muito mais de uma Terra redonda do que de uma plana.

Isso tem peso. Não porque a Bíblia ensine esfericidade, não é esse o ponto. O ponto é que a leitura terraplanista fracassa até nos seus próprios termos. Ela trata o texto como descrição literal e, quando o texto é lido literalmente, contradiz a conclusão terraplanista.

O que o argumento estabelece

Tenho razões para crer, portanto, que a teoria de uma Terra plana baseada nas Escrituras não resiste à análise em nenhum nível — nem linguístico, nem literário, nem histórico, nem, ironicamente, em seus próprios termos literalistas. Ela depende de palavras hebraicas esvaziadas do seu campo semântico real, de gêneros literários lidos fora de seu contexto e de traduções antigas influenciadas por paradigmas greco-romanos, não pelo texto original.

A Bíblia é Palavra de Deus, e justamente por isso merece ser lida com o rigor e o respeito que textos sérios exigem. Transformá-la num atlas astronômico não é levá-la a sério. É o contrário disso.


Referências consultadas:

Bíblia Sagrada – Versão Almeida Revista e Atualizada (ARA).

WALTON, John H. Ancient Near Eastern Thought and the Old Testament: Introducing the Conceptual World of the Hebrew Bible. Grand Rapids: Baker Academic, 2018.

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Graduando em História pela Universidade Estácio de Sá e estudioso de Teologia, defende a premissa de que o conhecimento se torna verdadeiramente valioso quando compartilhado. Junte-se a mim nessa jornada!

Comentários (2)

  • 14 de setembro de 2025

    ODECIR DA COSTA

    É incrível! Como as pessoas não conseguem se libertar do paganismo que se propagou através do sistema religioso. Desculpe a minha sinceridade, mas você não conseguiu se libertar do paganismo que se propagou através do sistema religioso você falou tanto do paganismo Egípcio e grego, em outros estudos e eu concordo mas você mesmo não conseguiu se libertar do completamente do paganismo, defendendo o que a ciência dos homens nos ensinaram: A terra um globo.

    • 14 de setembro de 2025

      Amós Bailiot

      Olá, Odecir!
      Agradeço por compartilhar seu ponto de vista. Entendo que você faz uma associação entre a ciência moderna e tradições antigas, mas o entendimento da Terra como um globo baseia-se em evidências físicas e observacionais que transcendem sistemas religiosos. Meu objetivo aqui é analisar a história e a teologia sob uma perspectiva documental e fundamentada. Se em algum momento desejar debater os fatos específicos ou as fontes que utilizei, estarei à disposição. Um abraço!

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