Pense por um instante no que a doutrina do tormento eterno realmente exige de nós. Imagine um homem que viveu oitenta anos neste mundo. Durante esse breve período, pecou, rejeitou a graça oferecida por Deus e, infelizmente, morreu sem salvação. Segundo essa visão, sua alma é então lançada num lugar de tormento consciente, onde a dor nunca cessa. Passam-se mil anos. Depois, um milhão. Depois, bilhões de anos — até que os números percam qualquer sentido para a nossa mente. E, ainda assim, aquele homem não está nem um segundo mais próximo do fim de sua pena do que no primeiro instante. Na verdade, não existe fim do qual ele possa se aproximar.
Essa é, em essência, a visão tradicional do inferno: os ímpios e os demônios existirão para sempre, conscientes e sofrendo num fogo que jamais concluirá sua obra. Trata-se de uma crença antiga, aceita ao longo dos séculos por diversas tradições cristãs. Para muita gente, questioná-la parece quase o mesmo que questionar a própria autoridade da Bíblia. Afinal de contas, não foi o próprio Jesus quem falou do “fogo eterno”? O livro do Apocalipse não descreve um “lago de fogo”? E não seria perigoso tentar suavizar o juízo divino apenas porque sua descrição nos causa profundo desconforto?
Perguntas assim são perfeitamente legítimas. Não temos o direito de rejeitar uma doutrina simplesmente porque ela nos desagrada ou fere nossas sensibilidades. Se a Bíblia realmente ensina que Deus manterá os ímpios em tormento consciente por toda a eternidade, então, como cristãos comprometidos com a verdade, teremos de aceitar esse ensino, por mais difícil que nos pareça.
Mas a pergunta precisa ser feita também na direção contrária: e se a Bíblia não estiver ensinando isso?
E se estivermos lendo palavras como “morte”, “destruição”, “consumir” e “fogo eterno” através das lentes de uma tradição que recebemos, e não a partir do próprio texto bíblico? E se, de tanto repetirmos que o inferno é um lugar de vida consciente sem fim, tivermos deixado de perceber que as Escrituras descrevem o destino dos ímpios justamente como o oposto da vida?
Penso que precisamos começar por uma pergunta anterior. Antes de discutirmos por quanto tempo o fogo queimará, devemos perguntar o que acontece com aquilo que é lançado nele. Antes de discutirmos o inferno, precisamos compreender o significado bíblico da morte. E quando partimos dessas premissas, a visão tradicional começa a enfrentar sérias dificuldades.
Antes do inferno, precisamos compreender a morte
O que acontece quando uma pessoa morre?
Talvez a resposta que lhe venha imediatamente à mente seja mais ou menos esta: “Bem, quando uma pessoa morre o corpo permanece aqui. O coração para, a respiração cessa e, pouco a pouco, tudo aquilo que reconhecíamos como vida desaparece. Mas a pessoa propriamente dita — sua alma, sua consciência, aquilo que ela realmente é — não morre com o corpo. Ela apenas deixa esta existência e desperta em outro lugar. Se morreu salva, é recebida no céu. Ali, passa a desfrutar da presença de Deus, consciente, feliz e livre de todo sofrimento. Seu corpo pode estar no túmulo, aguardando a ressurreição, mas sua alma já experimenta a recompensa dos justos. Se, porém, morreu sem salvação, acontece o contrário. Sua alma também continua consciente, mas desperta num lugar de tormento. Antes mesmo da ressurreição e do juízo final, ela já recebe a punição, compreende sua condição e começa a sofrer a consequência de seus pecados.”
Essa é provavelmente a imagem que muitos cristãos carregam desde a infância. O corpo morre; a alma segue adiante. A morte não seria, portanto, o fim da consciência, mas apenas a passagem de um lugar para outro. Mas será essa realmente a maneira como a Bíblia descreve a morte?
Nas Escrituras, morrer é repetidamente comparado a dormir. Davi, por exemplo, ora no Salmo 13:3: “Atenta para mim, responde-me, Senhor, Deus meu! Ilumina-me os olhos, para que eu não adormeça na morte.” A imagem não é difícil de compreender. Quando alguém dorme profundamente, deixa de acompanhar conscientemente o que acontece ao seu redor. Não conversa, não planeja, não participa dos acontecimentos. Para ela, o tempo passa sem ser percebido.
Salomão fala de maneira ainda mais direta em Eclesiastes 9:5: “Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma.” Observe o contraste. Os vivos sabem das coisas, mas os mortos, não. Nos versos seguintes, o autor acrescenta que o amor, o ódio e a inveja deles já pereceram e que, na sepultura, não há obra, conhecimento nem sabedoria.
Talvez alguém responda: “Bem, isso é apenas poesia. Não devemos construir uma doutrina inteira sobre a linguagem poética de Eclesiastes e dos Salmos”. Muito bem. Mas a mesma imagem aparece no Novo Testamento e, desta vez, foi usada pelo próprio Jesus.
Quando Lázaro morreu, Cristo disse aos discípulos: “Nosso amigo Lázaro adormeceu, mas vou despertá-lo” (João 11:11). Os discípulos entenderam que Jesus estava falando de um sono comum, por isso ele precisou ser direto: “Lázaro morreu.” Eu gosto dessa linguagem. Mas por que chamar a morte de sono? Primeiro, porque aquele que morreu já não participa conscientemente da vida. Depois, porque sua condição não é definitiva. Assim como alguém pode ser despertado do sono, o morto pode ser chamado novamente à vida na ressurreição. Por isso a comparação.
Esse, aliás, é o movimento da esperança cristã: a pessoa morre, fica em estado de inconsciência, e na volta de Cristo, é despertada. Agora coloque essa descrição lado a lado com a doutrina tradicional do inferno. De um lado, a Bíblia diz que os mortos “dormem”, não sabem coisa alguma e não participam conscientemente do que acontece. Do outro, afirma-se que milhões de pessoas mortas estão, neste exato momento, completamente despertas, sentindo dor, pensando, recordando-se da vida e sofrendo nas chamas.
São duas imagens que não se encaixam. E tentar fazê-las caber uma na outra é como lutar contra a areia movediça: quanto mais você se debate, mais afunda.
Se a morte é um estado de inconsciência, o inferno não pode ser um lugar em que os mortos continuam vivendo conscientemente. Além disso, para sofrer eternamente, o ímpio precisaria receber justamente aquilo que a Bíblia apresenta como dom dos salvos: uma existência sem fim. Isso nos conduz à pergunta seguinte.
O salário do pecado é a morte ou a vida eterna?
Paulo escreve em Romanos 6:23: “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.”
Não consigo imaginar um contraste mais claro. De um lado, morte. Do outro, vida eterna. Paulo não diz que o salário do pecado é uma vida eterna dolorosa no inferno, passada longe de Deus. A vida eterna será o dom concedido aos que permanecerem em Cristo. O pecador receberá o oposto: a morte. Mas aqui acontece algo curioso. A doutrina tradicional acaba concedendo existência eterna aos dois grupos. Os justos vivem para sempre no céu; os ímpios vivem para sempre no inferno. A diferença estaria apenas na qualidade e no lugar dessa existência.
Uns recebem imortalidade em um ambiente perfeito. Os outros, imortalidade em um ambiente infernal de contínua tortura. O problema é que esse não é o contraste apresentado por Paulo. Ele não apresenta duas formas de vida eterna. A palavra grega empregada em Romanos 6:23 é thanatos, “morte”. Seu sentido mais natural é a perda ou cessação da vida, não sua preservação interminável em condições desagradáveis.
Talvez alguém diga que “morte” significa apenas separação de Deus. Mas note o que essa definição precisa fazer: o pecador continua consciente, pensa, sente, sofre e existe para sempre, embora se diga que está morto. Nesse caso, a morte já não se distingue da vida pela duração da existência, mas apenas pela qualidade dela. Seria esse realmente o sentido que Paulo pretende transmitir ao colocar morte e vida eterna em oposição?
Acredito que não. Se o salário do pecado é morte, o fogo do juízo precisa finalmente matar. Se o pecador permanece vivo para sempre dentro dele, o salário do pecado já não é morte, mas uma forma terrível de imortalidade. Jesus aponta na mesma direção em Mateus 10:28: “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno.”
A palavra importante é “destruir”. Cristo não diz que Deus preservará eternamente corpo e alma para que continuem sofrendo. Diz que ambos podem ser destruídos. Pense num fogo que recebe a missão de destruir alguma coisa, mas nunca termina o trabalho. Ele queima durante séculos, milênios e eras incontáveis, mas aquilo que deveria consumir continua existindo. É destruído sem jamais ser destruído. Morre sem jamais morrer. É consumido sem nunca se acabar. Isso seria realmente destruição? Ou seria preservação em meio às chamas? O inferno tradicional parece exigir um fogo que realiza duas operações contrárias ao mesmo tempo: destrói o pecador e o conserva vivo para continuar sendo destruído.
Bem, é uma ideia surpreendente. Para manter a doutrina, precisamos dizer que “destruir” não significa levar à destruição aquilo que foi lançado no fogo, mas preservar eternamente o ímpio numa condição de ruína. Em outras palavras, o destruído precisa continuar existindo para sempre. Eu não consigo ver como isso pode fazer sentido. Ainda assim, talvez alguém aceite essa definição. O problema é que ela está longe de ser o sentido mais natural das palavras de Jesus.
Mas Jesus não falou de “fogo eterno”?
Nesse ponto, imagino que alguém já esteja preparado para citar Mateus 25:41: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos.” À primeira vista, o assunto parece encerrado. Se o fogo é eterno, então deve queimar eternamente. E, se alguém está dentro dele, deve sofrer enquanto o fogo existir.
Mas espere um pouco. O que exatamente torna esse fogo eterno? Seria o fato de ele permanecer queimando sem jamais completar sua obra? Ou seria o fato de produzir uma destruição que nunca será revertida? Não precisamos adivinhar. A própria Bíblia utiliza a expressão “fogo eterno” em outro lugar. Judas 7 diz que Sodoma e Gomorra sofreram “a pena do fogo eterno”. Agora pare e pense: Sodoma e Gomorra continuam queimando até hoje? Evidentemente, não. Não existe no Oriente Médio um incêndio aceso desde a Antiguidade, consumindo aquelas cidades sem jamais conseguir destruí-las. O fogo caiu, realizou seu trabalho e se apagou.
Então por que Judas o chama de eterno? Porque seu resultado foi definitivo. As cidades foram destruídas de maneira completa e irreversível. O fogo deixou de queimar, mas aquilo que realizou jamais foi desfeito. Isso nos esclarece a questão. Um fogo pode ser eterno por causa do efeito que produz, sem que o processo de queimar precise continuar eternamente.
Quando Jesus fala do fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos, portanto, não somos obrigados a imaginar chamas que jamais cumprem sua função. O fogo é eterno no mesmo sentido em que foi eterno o fogo de Sodoma: sua obra não será revertida. As consequências são eternas.
Malaquias 4:1 reforça essa leitura: “Pois eis que vem o dia, ardente como fornalha; todos os soberbos e todos os que cometem perversidade serão como a palha. O dia que está chegando os queimará completamente.”
A imagem da palha não poderia ser mais clara. Quando a palha é lançada ao fogo, ela não recebe capacidade sobrenatural para permanecer queimando eternamente. O fogo a alcança, espalha-se rapidamente e a consome. Depois, não há mais palha para queimar.
É exatamente essa comparação que o profeta utiliza para o destino dos ímpios. Eles serão como palha. Serão queimados completamente. Não encontramos aqui seres humanos transformados em combustível indestrutível, mantidos vivos para que as chamas tenham o que consumir durante a eternidade. Encontramos o fogo realizando aquilo que o fogo normalmente faz: destruindo.
Mas essa não seria uma interpretação recente?
Em algum momento, se você ainda não ouviu, poderá ouvir que essa interpretação é uma invenção recente, criada para suavizar o juízo divino e tornar o inferno menos desconfortável para a sensibilidade moderna.
Mas não é bem assim. Edward Fudge talvez seja o nome mais diretamente ligado ao estudo moderno do tema. Advogado norte-americano, com formação em línguas bíblicas e teologia, ele recebeu a tarefa de investigar o que as Escrituras realmente ensinavam sobre a punição final. O resultado foi The Fire That Consumes, uma extensa pesquisa bíblica e histórica na qual defendeu que o fogo do juízo não preserva os ímpios eternamente em sofrimento, mas termina por destruí-los de maneira definitiva.
No meio adventista, um dos principais nomes foi Samuele Bacchiocchi, teólogo de origem italiana que ensinou história da igreja na Andrews University. Ao estudar a natureza humana e o destino final dos perdidos, Bacchiocchi argumentou que a imortalidade não pertence naturalmente ao ser humano. Ela é um dom concedido por Deus aos salvos. Os ímpios, portanto, não recebem uma existência indestrutível para sofrer eternamente; o que recebem é a consequência final do pecado: a morte.
Agora, pode ser que esses dois nomes não signifiquem nada para você. Fudge tornou-se conhecido justamente por defender a destruição final, e Bacchiocchi escrevia a partir de uma tradição que já aceitava a imortalidade condicional. O caso de John Stott, porém, é mais inesperado.
Stott foi pastor anglicano, autor de dezenas de livros e uma das vozes evangélicas mais influentes do século XX. Não era alguém conhecido por tratar levianamente a Bíblia ou por abandonar rapidamente as doutrinas tradicionais. Ainda assim, quando examinou os textos bíblicos sobre o inferno, Stott encontrou razões suficientes para levar o aniquilacionismo a sério. Ele não chegou a defendê-lo com absoluta certeza, mas reconheceu que a linguagem bíblica de morte e destruição tornava essa interpretação difícil de descartar.
Por fim, há Oscar Cullmann, um dos mais importantes teólogos protestantes do século XX e especialista no Novo Testamento. Cullmann ensinou em universidades como Estrasburgo, Basileia e Paris e dedicou boa parte de seu trabalho ao cristianismo primitivo e à história da salvação. Ele não escreveu uma defesa completa do aniquilacionismo, reconheço isso. Sua contribuição para este debate está em outro ponto: Cullmann questionou a ideia de que o ser humano possua uma alma naturalmente imortal e insistiu que a esperança cristã está na ressurreição. Para ele, o homem não vence a morte porque uma parte indestrutível de seu ser escapa do corpo, mas porque Deus o chama novamente à vida.
Concedo que citar estudiosos conhecidos não prova uma doutrina. Fudge, Bacchiocchi, Stott e Cullmann podem estar errados. A questão final continua sendo o que as Escrituras ensinam. Meu ponto, no entanto, é mais modesto: a destruição final dos ímpios não surgiu ontem, na mente de pessoas que simplesmente não suportavam a ideia do tormento eterno. Ela foi considerada por estudiosos de tradições bastante diferentes, alguns deles profundamente comprometidos com a autoridade bíblica.
E todos, cada um à sua maneira, nos agarram pelo colarinho e nos obrigam a voltar à pergunta da qual não podemos escapar: quando a Bíblia fala em morte, destruição e consumo pelo fogo, será que devemos permitir que essas palavras conservem seu significado natural? Ou devemos atribuir-lhes outros significados a fim de que a doutrina do tormento eterno continue de pé?
Uma eternidade para pagar pecados de uma vida
Há ainda uma dificuldade moral que não pode ser varrida para debaixo do tapete.
A vida humana é limitada. Mesmo alguém que viva muitos anos pratica seus pecados dentro de um intervalo finito. Isso não torna o pecado insignificante. Alguns atos humanos são terríveis, destroem vidas e deixam marcas que atravessam gerações. A justiça exige que o mal seja julgado. Mas uma punição infinita por pecados cometidos durante uma existência finita seria proporcional?
Volte agora à cena com que começamos essa conversa. Depois de um milhão de anos de sofrimento, o pecador não terá se aproximado um milímetro do fim da pena. Depois de um bilhão, sua situação será exatamente a mesma. Não existe um momento em que a dívida esteja paga, o juízo tenha alcançado seu objetivo ou a justiça possa dizer: “Basta”. A punição não chega a lugar algum. Ela simplesmente continua porque deve continuar.
Isso começa a parecer menos com justiça e mais com tortura perpetuada sem finalidade. Deuteronômio 32:4 descreve Deus assim: “Ele é a Rocha, suas obras são perfeitas, e todos os seus caminhos são justos. Deus é fiel, que não comete erros; justo e reto é ele.” A justiça de Deus não é impulsiva ou arbitrária. Ele não é um sádico cruel nem aplica penas desconectadas da culpa. Seus juízos são retos porque correspondem perfeitamente à verdade de cada caso.
A destruição final preserva esse princípio. Os ímpios recebem o resultado do pecado: a perda definitiva da vida. A pena é terrível e irreversível, mas chega a uma conclusão. O tormento eterno, ao contrário, transforma todo pecado não perdoado numa dívida infinita. Um homem pode ter pecado por vinte anos; outro, por oitenta. Ambos recebem a mesma pena: sofrimento sem fim.
Pense no que isso significa. A diferença entre os pecados, as circunstâncias, o conhecimento e o grau de culpa desaparece diante de uma punição que nunca termina. Toda pena infinita é igualmente infinita. Você acha que isso combina com um Deus justo?
Mas a destruição final não seria uma pena muito leve?
Suponhamos que, a essa altura, alguém ainda esteja incomodado: “Mas, se os ímpios simplesmente deixam de existir, não seria isso uma punição branda? A aniquilação não torna a justiça divina meio fraca?”
Não vejo razão para pensar assim. Perder a vida eterna é perder tudo. É ser privado para sempre da comunhão com Deus, da alegria, do amor, da esperança e de cada bem que poderia ter sido recebido. Não haverá retorno, nova oportunidade ou restauração futura. Ora, perder tudo isso pode realmente ser chamado de pena leve?
A morte será definitiva. Uma punição não precisa continuar sendo aplicada a cada segundo da eternidade para ser terrível, nem para que seu resultado seja eterno. Tampouco a destruição final significa necessariamente que o juízo ocorrerá sem dor ou consciência de culpa. Significa apenas que esse sofrimento não será preservado para sempre.
Conclusão
Volte comigo, uma última vez, ao homem que imaginamos no início deste artigo. Bilhões de anos se passaram, mas sua situação não mudou. Outros bilhões virão, e depois outros, sem que ele esteja um único instante mais próximo do fim de sua pena. Segundo a visão tradicional, isso continuará mesmo depois de Deus ter restaurado todas as coisas. O sofrimento jamais terminará, porque o fogo jamais concluirá sua obra.
Penso que não é esse o desfecho apresentado pelas Escrituras.
Naturalmente, isso não significa que o juízo de Deus seja brando ou que possamos tratar o pecado como algo de pouca importância. Quem rejeita a vida oferecida em Cristo sofrerá uma perda definitiva. Não haverá retorno, segunda oportunidade ou restauração posterior. A morte será, de fato, a morte eterna.
Mas o ponto é exatamente esse. O salário do pecado será recebido, o fogo consumirá aquilo que foi lançado nele e o mal não continuará produzindo sofrimento por toda a eternidade. Deus não precisará manter o pecador vivo eternamente para que seu juízo tenha consequências eternas. Seu juízo alcançará o propósito para o qual foi pronunciado.
Pois bem, talvez alguém ainda prefira a interpretação tradicional do inferno. Mas terá de explicar por que a Bíblia chama o destino dos ímpios de morte, destruição e consumo pelo fogo, quando aquilo que realmente pretende dizer seria uma existência consciente que jamais chega ao fim. Acredito que as evidências que examinamos são suficientes para concluir que devemos entender essas palavras em seu sentido natural. A vida eterna é o dom oferecido em Cristo. Aqueles que o recusam não recebem outra forma de vida eterna, agora mergulhada em sofrimento. Eles simplesmente perdem a vida.
Observe, então, a sequência com que João encerra a história. Depois do juízo final, ele escreve: “Então, a morte e o Hades foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte, o lago de fogo. E, se alguém não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado no lago de fogo” (Apocalipse 20:14-15).
Só depois dessa cena João contempla o mundo restaurado: “Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo. Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram.” (Apocalipse 21:1-4).
Admito que a promessa de Deus enxugar todas as lágrimas é dirigida diretamente aos redimidos. Mas note o cenário em que ela se cumpre. O juízo final já aconteceu, a morte foi lançada no lago de fogo e a antiga ordem passou. João não contempla um universo no qual a dor tenha sido apenas empurrada para algum lugar distante, onde continuará para sempre. Ele contempla novos céus e nova terra, depois da segunda morte, quando aquilo que pertencia à antiga ordem finalmente deixou de existir.
A meu ver, devemos levar essa sequência a sério. O mundo restaurado que João contempla não é um lugar dividido entre a felicidade eterna dos salvos e a agonia igualmente eterna dos perdidos. É um mundo no qual a morte, o pranto, o clamor e a dor pertencem às coisas que passaram.
Referências Bibliográficas:
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Immortality of the Soul or Resurrection of the Dead?
Wipf & Stock Pub, 2000. (Edição em inglês).
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Evangelical Essentials: A Liberal–Evangelical Dialogue.
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FUDGE, Edward.
The Fire That Consumes: A Biblical and Historical Study of the Doctrine of Final Punishment.
Wipf and Stock, 2011. (Edição em inglês).
BACCHIOCCHI, Samuele.
Immortality or Resurrection? A Biblical Study on Human Nature and Destiny.
Berrien Springs: Biblical Perspectives, 1998. (Edição em inglês).
BACCHIOCCHI, Samuele.
Crenças Populares: O Que as Pessoas Acreditam e o Que a Bíblia Realmente Diz.
Casa Publicadora Brasileira, 2013. (Edição em português).
















Amadeu
Adorei esse comentário sobre o sofrimento eterno no inferno, quantos estão enganando com essa doutrina falsa.obrigado.
Amós Bailiot
Que bom que foi esclarecedor para você, Amadeu. 😃 Que Deus o abençoe grandemente!