Imagine que alguém chegue a você e pergunte: “Deus aprova ou não a poligamia?” Se você é cristão, provavelmente responderia sem muita hesitação: “Claro que não. A Bíblia apresenta o casamento como a união entre um homem e uma mulher. A poligamia, portanto, não corresponde ao padrão estabelecido por Deus”. Até aí, tudo bem. Mas suponha que a pessoa continue: “Se Deus realmente condena a poligamia, por que então Ele deu as mulheres do harém de Saul a Davi?”
Essa é uma boa objeção. Afinal, não estamos diante de um patriarca que resolveu, por conta própria, desobedecer a Deus e tomar várias mulheres. Em 2 Samuel 12, é o próprio Deus quem fala pela boca do profeta Natã. E o que Ele diz a Davi é isto: “E te dei a casa de teu senhor, e as mulheres de teu senhor em teu seio; também te dei a casa de Israel e de Judá. E se isso fosse pouco, te acrescentaria outro tanto” (2 Samuel 12:8).
Bem, à primeira vista, a objeção parece mesmo fazer sentido. Quem disse “e te dei a casa de teu senhor, e as mulheres de teu senhor” foi Deus. Como conciliar isso com a ideia de que Ele desaprova a poligamia? Em que sentido Deus poderia dizer que havia dado a Davi as mulheres de Saul?
E a dificuldade não termina aí. Quando olhamos para o restante do Antigo Testamento, encontramos a própria Lei de Moisés regulando o caso de um homem que toma uma segunda esposa. Em vez de simplesmente condená-lo por isso, a lei determina que ele não diminua o sustento, a roupa nem o direito conjugal dela (Êxodo 21:10). Abraão teve Agar. Jacó viveu com quatro mulheres entre esposas e servas. Davi acumulou um harém. E nenhum deles é condenado simplesmente por ter mais de uma mulher.
Agora a objeção começa a parecer bem mais séria. Se a Lei regula a poligamia, se alguns dos grandes personagens do Antigo Testamento viveram dessa forma e, sobretudo, se o próprio Deus afirma ter dado mulheres a Davi, por que não concluir que o Deus da Bíblia aprovava a prática? Talvez sejamos nós, cristãos modernos, que estejamos tentando fazer a Bíblia dizer algo que ela nunca disse.
Não penso que essa possibilidade deva ser descartada com facilidade. Joseph Smith, afinal, recorreu justamente a esse episódio para justificar a poligamia mórmon. Em Doutrina e Convênios 132, as mulheres de Davi aparecem como tendo sido “dadas por mim”, isto é, por Deus. E defensores da poligamia ainda hoje recorrem, em essência, ao mesmo argumento.
Por isso, 2 Samuel 12:8 não pode simplesmente ser deixado de lado. Mostrar que certos casos de poligamia terminaram mal não resolve a questão. Se queremos saber se a objeção procede, teremos de explicar justamente o texto em que Deus parece assumir para si a ação de dar aquelas mulheres a Davi.
Antes, porém, precisamos perguntar algo mais básico. Quando deixamos por um momento esses casos particulares e olhamos para a Bíblia em busca do modelo de casamento que ela própria apresenta, o que encontramos?
O que Deus desenhou no princípio
Comecemos pelo Éden. Quando Deus instituiu o primeiro casamento, não deu a Adão várias mulheres. Deu-lhe uma. E então lemos: “Por isso, deixa o homem a seu pai e a sua mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne” (Gênesis 2:24).
A linguagem dificilmente poderia ser mais simples. Os dois tornam-se uma só carne. O padrão aparece antes mesmo de qualquer legislação posterior sobre casamento: um homem, uma mulher e uma união que faz dos dois uma só carne. E, como veremos, não é por acaso que séculos mais tarde Jesus volta exatamente a esse texto quando é questionado sobre o casamento.
Vale notar, de passagem, que nem mesmo o mundo ao redor de Israel era tão polígamo quanto às vezes imaginamos. No antigo Oriente Próximo, a monogamia continuava sendo a forma comum de casamento, enquanto a poligamia era muito mais acessível a reis e a homens de recursos suficientes para sustentar várias mulheres. Portanto, o quadro bíblico de um homem e uma mulher não aparecia como uma estranha exceção em meio a uma sociedade formada por haréns. Também na vida comum, esse era o padrão.
A Bíblia não faz slogan, ela mostra
E aqui está algo que a leitura apressada não percebe. A Bíblia quase nunca condena a poligamia com um “não farás” direto. Ela faz outra coisa, mais eficaz: mostra. O primeiro polígamo das Escrituras é Lameque (Gênesis 4:19), descendente de Caim, o mesmo que se gaba de ter matado um homem por um arranhão. A poligamia nasce, no texto, no ramo violento da humanidade, e daí em diante toda casa polígama que a Bíblia narra vira um campo de batalha. Sara e Agar terminam em expulsão e amargura. Lia e Raquel disputam o marido filho por filho, e a rivalidade das mães ecoa nos filhos até José ser vendido como escravo. Davi colhe estupro e assassinato dentro da própria casa. Salomão, que levou a prática ao extremo, teve o coração desviado pelas mulheres e viu o reino se partir.
O erudito adventista Richard Davidson, no seu Flame of Yahweh, chama isso de “teologia da desaprovação”: o narrador não precisa dizer que a poligamia é errada, porque a narra sempre acabando mal. É o veredito do autor dado pela consequência, não pelo anúncio. Concedo que isso não é uma proibição explícita, e um crítico honesto vai apontar a ausência dela. Mas o silêncio do mandamento é preenchido pelo barulho das consequências, e um texto que reprova por dez histórias seguidas não está sendo neutro.
Some-se a isso a única lei que fala diretamente ao homem com mais poder para ser polígamo, o rei:
Tampouco para si multiplicará mulheres, para que o seu coração se não desvie; nem multiplicará muito para si prata ou ouro. (Deuteronômio 17:17)
Não multiplicará mulheres. Foi exatamente o que Davi e Salomão fizeram, e foi exatamente o desvio de coração previsto na lei que os alcançou. A regra existia, eles a quebraram, e o estrago veio na ordem anunciada.
As duas pedras no caminho
Agora sim, de volta aos textos que pareciam entregar a poligamia a Deus.
A primeira pedra é Êxodo 21:10, e ela cai depressa. A lei protege a esposa do homem que toma outra: ele não pode reduzir-lhe o alimento, o vestuário nem o direito conjugal. Ora, regular não é aprovar. Uma norma que ampara a mulher dentro de um casamento polígamo já existente é contenção de dano, não endosso, do mesmo modo que a certidão de divórcio de Deuteronômio 24 não faz do divórcio um bem; apenas impede que a repudiada fique desamparada. A Lei encontra as pessoas onde elas estão, e encontrar onde estão não é o mesmo que aprovar onde estão.
A segunda pedra é a pesada, a de 2 Samuel 12:8, e ela exige que se leia o parágrafo inteiro, não meia frase. Repare em três coisas.
Primeiro, o contexto. Natã não está elogiando Davi; está prestes a demoli-lo. O versículo seguinte diz: “Por que desprezaste a palavra do Senhor… A Urias, o heteu, mataste à espada, e a sua mulher tomaste para ser tua mulher” (v. 9). A lista de bênçãos (casa, mulheres, reino) está ali para uma única função: agravar a ingratidão de Davi. O sentido é “eu te dei tudo isto, e ainda assim você foi tomar a mulher de outro”. Um versículo que serve para condenar Davi não pode, ao mesmo tempo, estar abençoando a poligamia dele.
Segundo, o que significava “as mulheres de teu senhor em teu seio”. No Oriente antigo, herdar o harém do rei anterior era o sinal público de que se herdara o trono. É por isso que Abner é acusado de tomar a concubina de Saul (2 Samuel 3:7); que Absalão se deita com as concubinas do pai à vista de Israel para se proclamar rei (2 Samuel 16:22); e que o simples pedido de Adonias pela serva de Davi lhe custa a vida, porque Salomão o lê como investida contra o trono (1 Reis 2). “Dei-te as mulheres do teu senhor” quer dizer “entreguei-te a casa de Saul por inteiro, o reino era teu”. É linguagem de sucessão, não bênção matrimonial.
Terceiro, e isto decide a questão: poucas linhas adiante, no mesmo discurso, Deus usa a mesmíssima expressão de “dar as mulheres”, só que como maldição. “Tomarei tuas mulheres perante os teus olhos, e as darei a teu próximo” (v. 11). Se “dar as mulheres” fosse aprovação divina da poligamia no versículo 8, teria de ser aprovação divina do adultério no versículo 11. Ninguém lê assim. O que prova que a fórmula é de transferência de bens e poder, e não um selo sobre quantas esposas alguém tem.
A objeção mais séria contra tudo isto
Aqui o crítico mais afiado guarda a melhor cartada. Ele dirá: vocês chamam de “tolerância” toda vez que Deus permite algo que não lhes agrada, e assim a tese fica imune, nunca pode ser refutada. É trapaça.
A acusação seria justa se a distinção entre tolerar e aprovar fosse invenção nossa. Mas não é. Quem a formula é o próprio Jesus. Quando lhe perguntam por que Moisés permitiu o divórcio, Ele responde:
Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o princípio. (Mateus 19:8)
Está tudo ali, em uma frase: a permissão, o motivo dela (o coração humano endurecido) e o padrão original ao qual se deve voltar. A categoria “tolerado, não aprovado” não é um remendo apologético inventado para salvar a Bíblia de um texto difícil. É a chave que o próprio Cristo entrega para ler a Lei de Moisés. E o que vale para o divórcio vale, pela mesma lógica, para a poligamia: Deus trabalhou dentro de um mundo quebrado sem nunca largar o projeto do Éden.
Por isso, quando Jesus é interrogado sobre casamento, Ele não cita Davi nem Salomão como modelo. Volta a Gênesis: os dois serão uma só carne (Mateus 19:5). E quando Paulo define quem pode conduzir a igreja, exige que o bispo seja “esposo de uma só mulher” (1 Timóteo 3:2). O Novo Testamento não precisou abolir a poligamia por decreto. Bastou reabrir a página da criação.
Conclusão
No fim, os dois textos que pareciam entregar a poligamia a Deus fazem o contrário quando lidos por inteiro. Êxodo 21 protege a mulher de um mal que já existia. Segundo Samuel 12 acusa Davi em vez de absolvê-lo. O que se vê na Bíblia não é um Deus que projetou o harém e depois fingiu desgostar dele. É um Deus que encontrou a humanidade caída no ponto em que ela estava, conteve o estrago, protegeu os mais fracos dentro de arranjos que Ele não escolhera, e nunca abriu mão do desenho que traçou no princípio, até que, em Cristo, o restaurou por inteiro.
Não fico em cima do muro: a poligamia foi tolerada, jamais abençoada. E fica uma ironia que vale guardar. O versículo que o polígamo cita para provar que Deus está do seu lado é, palavra por palavra, aquele em que Deus abre a acusação contra o homem que já tinha mulheres demais e ainda quis a de outro. Quem usa 2 Samuel 12:8 para defender a poligamia está, sem perceber, lendo em voz alta a própria sentença.









