Seitas e Heresias

Creatio ex nihilo: resposta às objeções mórmons sobre a criação

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Ninguém em um debate sobre a criação nega que Deus é o Criador. A questão é mais específica: quando Deus começou a criar, já havia alguma coisa ali? Havia uma matéria bruta à espera de forma, algum substrato que Ele simplesmente organizou, ou a própria matéria veio à existência com tudo o mais?

A aposta mórmon

É nesse ponto que a leitura mórmon segue por outro caminho. Autores como Stephen Robinson e B. H. Roberts argumentam que a Bíblia nunca afirma explicitamente que Deus criou a matéria do nada. O verbo hebraico bārā’, usado em Gênesis 1 para “criar”, significaria antes organizar ou dar forma; e a afirmação de que “a terra era sem forma e vazia” (Gn 1:2) descreveria justamente o caos primordial sobre o qual Deus teria começado a trabalhar. A creatio ex nihilo (criação a partir do nada) seria, nessa leitura, uma ideia trazida mais tarde pela filosofia grega, não uma doutrina do antigo Israel. John Widtsoe e Orson Pratt vão ainda mais longe: uma matéria eterna, argumentam, seria até mais razoável do que um começo absoluto.

Bem, não seria justo tratar essa objeção como se fosse absurda. Há nela um ponto que precisa ser concedido desde o início: nenhum versículo isolado do Antigo Testamento diz, com essas palavras, “Deus criou a matéria do nada”. Se é essa frase exata que alguém procura, não a encontrará. Mas doutrinas bíblicas nem sempre dependem de uma única sentença que diga tudo de uma vez. Muitas vezes, elas emergem da convergência de vários textos que, lidos em conjunto, apontam na mesma direção. E é precisamente essa convergência que a leitura mórmon precisa enfrentar. O problema não é encontrar um versículo-prova, mas explicar o conjunto.

Gênesis, e o verbo que nunca pede matéria

Comecemos por Gênesis 1:1: “No princípio, criou Deus os céus e a terra.” A expressão “céus e terra” funciona, no hebraico, como uma maneira de abarcar a totalidade — o alto e o baixo, enfim, tudo o que existe. E o texto nada diz sobre alguma matéria-prima anterior sobre a qual Deus teria começado a trabalhar.

Isso, por si só, não prova nada. O silêncio sobre uma matéria preexistente não equivale à sua negação. Um mórmon pode perfeitamente responder que a matéria já estava ali e que o texto simplesmente não se ocupa dela. É uma possibilidade.

Contudo, o verbo bārā’ torna essa leitura um pouco mais difícil. Na Bíblia hebraica, quando aparece na forma empregada em Gênesis 1, seu sujeito é sempre Deus, nunca um homem ou um artesão. E há algo ainda mais sugestivo: o verbo jamais vem acompanhado da matéria da qual aquilo foi feito. Um oleiro faz um vaso a partir de algo que já existe, que é o barro; a Escritura, porém, nunca diz que Deus criou o mundo a partir de alguma coisa. A ausência é sistemática.

Mas mesmo assim não temos uma prova ainda. O mesmo verbo pode ser usado, por exemplo, quando Deus “cria” as trevas em Isaías 45:7, e trevas evidentemente não são matéria. Entretanto, embora não encerre a discussão, o padrão lexical acrescenta peso à leitura de Gênesis.

Isaías: sozinho

A meu ver, é Isaías que coloca o maior peso sobre a questão. Em Isaías 44:24, Deus fala de si mesmo nestes termos: “Eu sou o SENHOR, que faço todas as coisas, que sozinho estendi os céus e sozinho espraiei a terra”.

A palavra importante aqui é “sozinho”. Deus não aparece como alguém que trabalha sobre uma realidade eterna que já estava diante dele. Ele estende os céus e espraia a terra sem qualquer outro princípio ao seu lado. E é exatamente aí que a ideia de matéria eterna começa a encontrar dificuldade. Pois, ainda que fosse muda, impessoal e inteiramente passiva, essa matéria continuaria sendo algo não criado que existiria eternamente ao lado de Deus. Teríamos, portanto, não apenas Deus, mas também um segundo princípio coeterno. É essa possibilidade que a linguagem de Isaías parece excluir.

Os dois textos do Novo Testamento

Há ainda dois textos do Novo Testamento que aparecem com frequência nesse debate. Convém, porém, não exigir deles mais do que realmente dizem.

Em Romanos 4:17 Deus é descrito como aquele que “chama à existência as coisas que não existem”. À primeira vista, dificilmente encontraríamos uma frase mais apropriada à criação ex nihilo. Mas esse não é propriamente o assunto de Paulo. Ele está falando da fé de Abraão, do Deus que promete descendência a um homem velho e a uma mulher estéril, trazendo vida onde humanamente já não havia esperança. O texto certamente ressoa com a linguagem da criação, e não é difícil entender por que a tradição cristã o leu nessa direção. Mas transformá-lo numa declaração direta sobre a origem da matéria seria desonestidade minha. Ele apenas contribui para o caso.

Agora Hebreus 11:3 exige ainda mais cuidado. Frequentemente o versículo é citado como se afirmasse de maneira inequívoca que o universo não foi feito de matéria preexistente. Mas veja como esse versículo foi traduzido na versão Almeida Revista e Atualizada: “o visível veio a existir das coisas que não aparecem”. Um mórmon atento poderia responder imediatamente que isso é perfeitamente compatível com sua posição: o mundo visível teria sido formado a partir de uma matéria invisível e preexistente. E, tomado isoladamente, o texto não elimina essa possibilidade. Ele diz que aquilo que vemos não procede das coisas visíveis; não especifica, por si só, qual seria a natureza daquilo de que o mundo veio a existir.

Por que, então, incluir Hebreus 11:3 no argumento? Porque nenhum desses textos precisa carregar sozinho todo o peso da doutrina. Lido ao lado de Isaías, do padrão de bārā’ e do testemunho que ainda veremos, a margem para essa interpretação se torna cada vez menor. Nesse contexto, o “invisível” não precisa ser entendido como algum reservatório de matéria eterna, mas em relação à palavra criadora de Deus, pela qual, segundo o próprio versículo, os mundos foram formados. O ponto é que o universo não possui em si mesmo a explicação de sua existência.

Antes de Cristo: 2 Macabeus

Resta, então, a acusação de que a criação a partir do nada seria uma invenção grega incorporada ao cristianismo posteriormente. Mas, se isso fosse verdade, esperaríamos não encontrar essa ideia no judaísmo anterior a Cristo. E, no entanto, encontramos. Em 2 Macabeus, uma mãe judia, vendo o filho prestes a ser executado por se recusar a abandonar a Lei, dirige-lhe estas palavras: “Contempla o céu e a terra… e reconhece que não foi de coisas existentes que Deus os fez” (2Mc 7:28).

A frase é bem difícil de ignorar: “não foi de coisas existentes”. Temos aqui um texto judaico do segundo século antes de Cristo, muito anterior a qualquer metafísica cristã, afirmando que Deus não fez o mundo a partir de coisas que já existiam.

Porém, reafirmo, não podemos ir além do que o texto permite. Há uma discussão acadêmica séria — Gerhard May é uma das referências centrais — sobre se essa passagem já expressa a doutrina técnica da creatio ex nihilo em sua forma plenamente desenvolvida ou se temos apenas uma intuição ainda não sistematizada. Essa cautela é justa. Mas, mesmo concedendo-a, o ponto permanece: a ideia está presente em um texto judaico anterior ao cristianismo. E isso é suficiente para enfraquecer seriamente a alegação de que a doutrina simplesmente entrou na fé bíblica pela porta da filosofia grega.

A matéria eterna e a soberania de Deus

Há, porém, uma dificuldade adicional que já não é apenas exegética. Ela diz respeito à própria coerência da posição mórmon e, a meu ver, é ainda mais séria.

Se a matéria é eterna e incriada, então existe algo que Deus não fez. Há uma realidade que Ele não trouxe à existência, mas encontrou já presente, um princípio eterno que existe independentemente de sua vontade. João, porém, afirma de maneira abrangente: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez” (Jo 1:3).

É claro que um mórmon pode responder que “todas as coisas” significa todas as coisas organizadas, e não a matéria em si. Mas observe o preço dessa interpretação. A matéria se torna a única realidade que não passou pelo Verbo, algo eterno que Deus não originou e que existe ao lado dele desde sempre.

Isso já não parece uma pequena diferença de exegese. Significa admitir, no próprio fundamento da realidade, algo não criado e coeterno com Deus. E é difícil conciliar esse segundo princípio eterno com o retrato bíblico de um Deus de quem, por meio de quem e para quem são todas as coisas. Um Deus que encontra a matéria já diante de si e apenas a organiza não é, ao menos sem grande tensão, o Deus que a Escritura apresenta como fonte de tudo o que existe.

A ciência entra por último

E quanto à ciência? Resolvi deixá-la por último de propósito porque ela prova menos do que às vezes se pretende. A expansão do universo, a radiação cósmica de fundo e o próprio modelo do Big Bang apontam para um começo, não para uma explosão ocorrendo dentro de um espaço já existente, mas para a origem do próprio espaço-tempo. Como observa o físico Paul Davies, é o próprio universo físico que começa. A segunda lei da termodinâmica aponta na mesma direção. Se o universo fosse eternamente antigo, sua energia útil já teria sido dissipada e ele teria alcançado o equilíbrio termodinâmico. O fato de ainda existirem processos dinâmicos em curso sugere que o relógio cósmico não vem funcionando desde sempre.

Agora note exatamente o que esse argumento pretende estabelecer: ele depende apenas de que o universo teve um começo, não de quando esse começo ocorreu. A questão da datação é outra discussão. E também não devemos pedir à ciência mais do que ela pode oferecer: a cosmologia pode apontar para um começo do universo físico, mas não demonstra, nem poderia demonstrar, a criação metafísica a partir do nada. A doutrina da creatio ex nihilo não repousa sobre o Big Bang. O máximo que podemos dizer é que a cosmologia contemporânea se mostra bastante confortável ao lado dela.

O que fica

Voltemos, então, ao que discutimos no início. A leitura mórmon precisava enfrentar não um único texto, mas um caso cumulativo. Gênesis não apresenta uma matéria preexistente sobre a qual Deus trabalha; bārā’ nunca pede o material do qual a coisa foi feita; Isaías insiste que Deus criou “sozinho”; 2 Macabeus mostra que, já no judaísmo anterior a Cristo, se podia dizer que Deus não fez o mundo a partir de coisas existentes; João atribui ao Verbo a origem de tudo o que veio a ser; e a própria cosmologia, embora obviamente não prove a doutrina, aponta para um universo que não parece ter existido desde sempre.

Nenhuma dessas linhas, tomada isoladamente, encerra a discussão. Esse nunca foi o argumento. A força está em sua convergência. Uma interpretação pode encontrar espaço para escapar de um texto ou de outro; torna-se muito mais difícil fazê-lo quando todos apontam na mesma direção.

E talvez seja aqui que a questão deixe de ser apenas uma disputa sobre exegese. Pois há uma diferença considerável entre um Deus que encontra uma matéria eterna diante de si e a organiza, e um Deus de quem depende a própria existência de tudo o mais. No primeiro caso, Deus é só o artesão de uma realidade que não começou com ele. No segundo, nada existe independentemente dele.

É esse segundo retrato que a Escritura apresenta. Nenhuma matéria aguardava Deus no começo da criação. Nada lhe foi dado de antemão. Deus falou, e aquilo que não existia veio a existir. Quando se percebe o que isso significa, a doutrina deixa de parecer uma abstração metafísica. Se tudo o que existe depende, em última análise, de um ato livre de Deus, então nossa própria existência não é algo que lhe fosse devido ou necessário. Ele criou porque quis. E é aí que a criação a partir do nada deixa de ser apenas uma tese a defender e se torna motivo de gratidão.


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Graduando em História pela Universidade Estácio de Sá e estudioso de Teologia, defende a premissa de que o conhecimento se torna verdadeiramente valioso quando compartilhado. Junte-se a mim nessa jornada!

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