Há histórias de Jesus que parecem simples até começarmos a examiná-las com atenção. A parábola do rico e Lázaro, registrada em Lucas 16:19-31, é uma delas. À primeira leitura, o cenário parece bastante claro: um homem rico morre e vai para um lugar de tormento; Lázaro, um mendigo que passara a vida sofrendo à porta daquele homem, morre e é levado para junto de Abraão. É a imagem perfeita de dois extremos: o consolo de um lado, o sofrimento do outro, e um abismo intransponível no meio.
Por isso, durante muito tempo, esse relato tem sido usado como uma espécie de descrição do que acontece imediatamente depois da morte. O rico estaria consciente no inferno, enquanto Lázaro desfrutaria da felicidade celestial. A recompensa eterna, seja no Céu, seja no Inferno, já estaria em funcionamento, e os mortos, embora separados, poderiam se ver e até conversar.
Mas será realmente isso que Jesus estava ensinando? Essa é uma pergunta importante porque não estamos diante de um texto secundário. A maneira como interpretamos essa passagem afeta nossa compreensão da morte, do juízo, do inferno, da salvação e até mesmo do caráter de Deus. Não convém, portanto, tirar conclusões apressadas simplesmente porque a história, lida isoladamente, parece apontar numa única direção.
Agora, antes de sabermos como era o lugar em que o rico se encontrava, talvez devamos fazer outra pergunta: por que Jesus contou essa história? Estaria ele oferecendo aos discípulos uma descrição literal do mundo dos mortos ou utilizando uma narrativa conhecida para conduzir seus ouvintes a uma lição moral e espiritual?
Penso que o próprio texto nos ajuda a responder. Para isso, precisamos observar três coisas: o contexto em que a história aparece, os detalhes que compõem a narrativa e o ensino geral das Escrituras sobre a morte e o juízo.
O relato é realmente uma parábola?
Talvez a resposta que você esteja formulando agora seja: “Bem, Lucas não diz expressamente que Jesus contou uma parábola. Em outros lugares, encontramos introduções como ‘propôs-lhes outra parábola’ ou ‘ouvi outra parábola’. Aqui, porém, Jesus simplesmente começa: ‘Ora, havia certo homem rico’. Além disso, o mendigo recebe um nome: Lázaro. Nenhum outro personagem das parábolas de Jesus é apresentado dessa maneira. Não seria isso um indício de que Cristo estava relatando um acontecimento real?”
À primeira vista, o argumento parece razoável. No entanto, não podemos decidir o gênero de uma passagem apenas pela ausência da palavra “parábola” ou pela presença de um nome próprio. Precisamos olhar para o lugar que o relato ocupa dentro do Evangelho.
O que é uma perícope?
Quando abrimos a Bíblia, encontramos capítulos, versículos, títulos e divisões que facilitam enormemente a leitura. Essas divisões, porém, foram acrescentadas muito tempo depois da composição dos livros bíblicos. Lucas não escreveu o capítulo 15, encerrou o assunto e depois começou o capítulo 16. Ele escreveu uma narrativa contínua.
Isso significa que o começo ou o fim de um capítulo nem sempre coincide com o início ou o encerramento de um tema. Às vezes, uma discussão começa num capítulo e continua por vários outros. Para compreender corretamente uma passagem, precisamos descobrir onde aquela unidade de pensamento realmente começa e termina.
Os estudiosos chamam essa unidade de perícope: um bloco de texto que trata de determinado tema, episódio ou conjunto de acontecimentos. Para delimitá-lo, observamos mudanças de cenário, público, personagens, local ou assunto. Quando fazemos isso em Lucas, percebemos que a história do rico e Lázaro não aparece sozinha. Ela está inserida numa seção de Lucas densamente marcada por parábolas e diretamente ligado aos ensinamentos anteriores do capítulo 16.
No capítulo 15, Jesus conta a história da ovelha perdida. Em seguida, fala da dracma perdida. Depois vem o filho pródigo. Já no capítulo 16, ele apresenta o administrador infiel. Pouco depois, no mesmo capítulo 16, conta a história do rico e Lázaro. Em todo esse trecho, Jesus utiliza narrativas para confrontar seus ouvintes, corrigir suas falsas seguranças e explicar os princípios do reino de Deus.
Agora pense no que seria necessário para retirar apenas o rico e Lázaro dessa sequência. Teríamos de afirmar que Jesus contou várias parábolas sucessivas e, sem que Lucas indicasse qualquer mudança clara no método de ensino, interrompeu a sequência para descrever literalmente o estado dos mortos. Depois, retomou novamente os ensinamentos figurados. Isso é possível? Em termos absolutos, talvez. Mas é a leitura mais natural do texto? Penso que não. O contexto cria uma forte expectativa de que ainda estamos diante de uma parábola. E essa impressão se torna ainda mais forte quando examinamos os detalhes da narrativa.
O que acontece quando interpretamos tudo literalmente?
Suponhamos, por um momento, que Jesus estivesse descrevendo exatamente o que ocorre após a morte. O que precisaríamos aceitar?
Primeiro, teríamos de imaginar o céu e o inferno como lugares suficientemente próximos para que seus habitantes pudessem enxergar-se e conversar. O rico levanta os olhos, vê Abraão e Lázaro e grita. Abraão o escuta e responde. Há um abismo entre eles, mas esse abismo não impede a visão nem a comunicação.
Esse seria realmente o quadro bíblico da eternidade? Imagine uma mãe salva contemplando um filho que se perdeu, queimando para sempre no fogo do inferno. Ela o vê sofrendo dia após dia, ouve seus gritos de dor e sabe que nada poderá fazer. Enquanto ele permanece ali sendo atormentado, ela deve desfrutar eternamente da felicidade celestial. Será mesmo que o céu seria um lugar de “eterna felicidade” para essa mãe? Como ela poderia viver feliz ali, tendo que ver e ouvir seu querido filho sendo torturado dia e noite?
Como conciliar isso com a promessa de Apocalipse 21:4, segundo a qual Deus enxugará dos olhos dos justos toda lágrima, e não haverá mais morte, luto, clamor nem dor? Como poderia não haver mais sofrimento se os salvos continuassem a contemplar, por toda a eternidade, a agonia de pessoas que amaram?
Talvez alguém responda que a conversa entre o rico e Abraão não deve ser interpretada literalmente. Ela seria apenas um recurso da história. Mas, se é assim, já demos um passo importante. Admitimos que pelo menos alguns elementos do relato são simbólicos. E a dificuldade não termina aí.
No verso 24, o rico pede: “Pai Abraão, tem misericórdia de mim e manda a Lázaro que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama.” Observe a linguagem: dedo, água, língua, sede e fogo. Tudo na cena pressupõe um corpo físico. Lázaro tem dedo. O rico tem língua. Ele sente sede e acredita que uma gota de água poderia proporcionar algum alívio.
Mas, segundo a interpretação tradicional, esses personagens ainda não teriam passado pela ressurreição. Seriam almas desencarnadas, aguardando a ressurreição futura do corpo. Como, então, poderiam possuir dedos e línguas? Como uma alma imaterial sentiria sede física? E que diferença faria uma gota de água em meio a chamas literais?
Pois bem, talvez alguém novamente diga que “dedo, língua, água e sede” são símbolos. Eles representariam realidades espirituais que não devem ser compreendidas de maneira corporal. Mas se for assim, acabaremos encurralados por uma pergunta inevitável: se o dedo é simbólico, a língua é simbólica, a água é simbólica, o diálogo é simbólico e a proximidade entre os dois lugares é simbólica, por que o fogo e o tormento teriam de ser literais?
Não podemos interpretar os detalhes convenientes figurativamente e conservar apenas aqueles que parecem favorecer uma doutrina previamente aceita. Precisamos tratar a narrativa de maneira coerente. Tudo indica que Jesus está construindo uma história com imagens fortes e conhecidas para conduzir seus ouvintes a uma conclusão. É assim que as parábolas funcionam.
Como devemos interpretar os detalhes de uma parábola?
Uma parábola não é uma fotografia da realidade. É uma narrativa construída para destacar uma verdade principal. Seus personagens, acontecimentos e imagens servem ao propósito da história.
Isso não significa que todos os detalhes sejam irrelevantes. Significa apenas que não devemos transformar cada elemento do enredo numa afirmação doutrinária independente. A parábola do administrador infiel, por exemplo, contada pouco antes, ajuda-nos a perceber isso. Na história, um administrador desonesto reduz as dívidas dos devedores de seu senhor para conquistar amigos que o ajudem depois de sua demissão (Lucas 16:1-13).
Bem, o que Jesus estava ensinando com essa parábola? Que seus seguidores poderiam ser desonestos e fraudar seus patrões? Obviamente, não. Embora as ações do administrador fossem deploráveis, a perspectiva de um futuro incerto o fez agir e se precaver. Jesus usou a astúcia daquele homem não para aprovar a desonestidade, mas para ensinar a urgência de agir com sabedoria diante da crise que se aproxima.
Enfim, se levássemos cada detalhe ao pé da letra, chegaríamos à conclusão absurda de que Cristo incentivava a fraude. No entanto, ninguém interpreta a parábola assim, porque sabemos que o enredo existe para transmitir uma lição específica. Por que, então, agiríamos de maneira diferente com a história do rico e Lázaro?
O cenário do além pode fazer parte da história sem que Jesus esteja endossando cada detalhe como descrição literal da vida após a morte. Mas, para descobrir o que ele realmente queria ensinar, precisamos perguntar para onde a narrativa se dirige. E ela se dirige claramente à conversa final entre o rico e Abraão.
Qual é o verdadeiro ponto da parábola?
Quando o rico percebe que sua condição não pode ser alterada, ele pensa nos cinco irmãos que ainda estão vivos: “Pai, eu te imploro que o mandes à minha casa paterna,
porque tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de não virem também para este lugar de tormento (v. 27, 28).”
A resposta de Abraão é direta: “Eles têm Moisés e os Profetas; ouçam-nos (v. 29).” O rico, porém, não considera isso suficiente. Ele imagina que seus irmãos precisariam de algo mais impressionante: “Não, pai Abraão; se alguém dentre os mortos for ter com eles, arrepender-se-ão (v. 30).” E então Abraão pronuncia as palavras com que Jesus encerra a história: “Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos (v. 31)“.
E a parábola termina aí. Observe que Jesus não termina explicando a natureza das chamas, a localização do inferno, a condição das almas ou a distância entre os salvos e os perdidos. O relato termina com as Escrituras e com a recusa humana em ouvi-las.
Os irmãos do rico não precisavam de uma mensagem trazida por alguém vindo do mundo dos mortos. Já possuíam Moisés e os Profetas. Tinham diante de si a revelação de Deus, suficiente para mostrar-lhes como deveriam viver. O problema não era falta de luz. O problema não era falta de luz. Era a resistência do coração em obedecer ao que Deus havia revelado.
Aparentemente, o rico imaginava que um milagre espetacular produziria o arrependimento que a Palavra de Deus não havia produzido. Abraão, porém, rejeita essa suposição. Quem se recusa a ouvir a revelação que Deus já concedeu pode permanecer incrédulo mesmo diante de algo espetacular como uma ressurreição. Essa é a grande advertência da parábola.
Enquanto há vida, existe oportunidade para ouvir a voz de Deus, se arrepender e fazer o que é correto. O momento de arrependimento não está depois da morte. Não devemos esperar uma aparição, uma voz vinda do além ou uma manifestação mais impressionante para que a nossa ficha caia. A Bíblia é a Palavra de Deus falando conosco.
“Moisés e os Profetas”
Quando Abraão menciona “Moisés e os Profetas”, está se referindo às Escrituras que os ouvintes de Jesus possuíam, aquilo que hoje chamamos de Antigo Testamento. Isso é significativo. O rico e seus irmãos pertenciam a um povo que conhecia a revelação divina. Não eram pessoas completamente ignorantes a respeito de Deus. Tinham acesso à Palavra, mas não permitiam que ela transformasse suas vidas.
A lição continua sendo importante para nós. Também não nos falta revelação. Possuímos não apenas Moisés e os Profetas, mas toda a Bíblia. Temos os Evangelhos, os ensinos apostólicos e o testemunho completo acerca de Cristo. A questão, portanto, não é se Deus falou de maneira suficiente. A questão é se estamos dispostos a ouvi-lo.
É verdade que algumas leis do Antigo Testamento cumpriram a função para a qual foram dadas. Isso, porém, não significa que todo o Antigo Testamento tenha perdido seu valor. O próprio Jesus encaminha seus ouvintes para Moisés e os Profetas como fonte de instrução espiritual. Aqueles homens não precisavam de uma nova revelação para saber que deveriam amar a Deus, praticar a justiça e tratar com misericórdia o necessitado que estava diante de sua porta. Já possuíam luz suficiente. O que lhes faltava era obediência.
O rico foi condenado por ser rico?
Nesse ponto, outra dificuldade bate à nossa porta.
Abraão diz ao rico: “Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro igualmente, os males; agora, porém, aqui, ele está consolado; tu, em tormentos (v. 25).” Tomadas isoladamente, essas palavras poderiam sugerir que o rico foi condenado simplesmente porque era rico e desfrutou de coisas boas, enquanto Lázaro foi salvo porque sofreu durante a vida toda. Mas se for assim, seria a pobreza um mérito espiritual? A riqueza, por si só, condenaria alguém?
Tenho certeza de que essa conclusão não pode estar correta, e acredito que você concorde comigo. Efésios 2:8-9 ensina claramente que somos salvos pela graça, mediante a fé, e não pelas obras. A salvação não é uma recompensa automática pelo sofrimento social, assim como a condenação não é uma punição automática pela riqueza.
A Bíblia apresenta servos de Deus que possuíam riquezas. Abraão, o próprio personagem citado na parábola, era um homem de muitos bens. Portanto, seria estranho imaginar que o rico estivesse condenado apenas por ser rico enquanto conversava com um patriarca que também havia sido rico, muito rico. O problema daquele homem não estava simplesmente no que possuía, mas no que sua vida revelava. Lázaro permanecia diante de sua porta, doente, faminto e abandonado. O rico entrava e saía de casa, vestia-se com luxo e banqueteava-se fartamente todos os dias, mas parecia incapaz de enxergar o sofrimento que estava literalmente à sua frente. Não foi a riqueza que o condenou. Sua vida de indiferença mostrava que ele não havia ouvido verdadeiramente “Moisés e os Profetas”. Ele conhecia a palavra de Deus, mas agia como se ela não se aplicasse a ele.
Lázaro, por sua vez, não foi salvo simplesmente por ser pobre. A parábola não ensina que a miséria compra a vida eterna. O contraste entre riqueza e pobreza fornece o cenário para a inversão dramática da história e expõe a responsabilidade de quem recebeu muito, mas fechou o coração ao necessitado. A posição social não decide quem entra no reino de Deus. Nem o dinheiro nem a ausência dele podem salvar. A salvação é recebida unicamente pela graça, por meio da fé em Cristo. No entanto, a maneira como tratamos os outros revela se realmente aceitamos essa salvação e fomos transformados à semelhança de Cristo.
O restante da Bíblia descreve os mortos como conscientes?
Até aqui, o contexto e o enredo da história confirmam que estamos diante de uma parábola. Mas nenhuma doutrina deveria nascer de um único texto, principalmente quando esse texto é figurativo. Precisamos comparar passagem com passagem e permitir que o ensino geral das Escrituras ilumine aquilo que estamos lendo. Eclesiastes 9:5, por exemplo, é categórico: “os mortos não sabem coisa nenhuma”. Os versos 6 e 10 acrescentam que seu amor, seu ódio e sua inveja já pereceram e que, na sepultura, não há obra, conhecimento nem sabedoria.
Talvez, porém, você esteja agora com um sorriso no rosto e uma objeção pronta em mente: “Não, amigo, Eclesiastes 9:5 descreve apenas a vida ‘debaixo do sol’, isto é, aquilo que pode ser observado daqui. O autor estaria falando da relação dos mortos com este mundo, sem pretender explicar o que acontece do outro lado. Afinal, no fim do livro, ele mesmo diz que o pó volta à terra e o espírito volta a Deus, que o deu (Eclesiastes 12:7). Isso não mostraria que algo consciente continua existindo depois da morte?”
Admito que é uma boa objeção. Eclesiastes realmente contempla muitas vezes a existência a partir da perspectiva da vida “debaixo do sol”. Mas será que isso resolve o que o capítulo 9 está dizendo?
Volte comigo ao verso 6: “Amor, ódio e inveja para eles já pereceram; para sempre não têm eles parte em coisa alguma do que se faz debaixo do sol”. O texto não diz que apenas nós, os vivos, deixamos de enxergar o amor, o ódio e a inveja dos mortos. Diz que essas coisas “já pereceram” para os mortos. O sujeito da frase são os próprios mortos, e o verbo descreve o que aconteceu com eles. Para transformar essa declaração numa simples limitação da nossa observação, seria preciso fazer o versículo falar de quem ficou olhando do lado de cá. Mas ele fala daqueles que morreram.
E o que dizer de Eclesiastes 12:7? “O pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu”. É verdade. Mas a cena evocada parece ser a da criação se desfazendo. O corpo retorna ao pó de onde veio, e o sopro de vida retorna àquele que o concedeu. O texto não diz que uma personalidade consciente sobe ao céu para continuar pensando, sentindo e conversando. Essa ideia precisa ser trazida para dentro do versículo.
Naturalmente, quem já entende “espírito” como uma alma consciente lerá o texto dessa maneira. Quem o entende como o sopro de vida dado por Deus chegará a outra conclusão. Por isso, Eclesiastes 12:7, sozinho, não decide a disputa. Cada lado o lê à luz daquilo que já acredita sobre a natureza humana.
Mas suponhamos que alguém ainda não esteja satisfeito. Suponhamos até que queira retirar Eclesiastes 9 da discussão por considerar sua perspectiva limitada ao que acontece “debaixo do sol”. Muito bem. O argumento não depende apenas dele. O Salmo 146:4 afirma que, no dia em que o homem expira, “perecem todos os seus desígnios”. E o Salmo 115:17 acrescenta que “os mortos não louvam ao Senhor”. Note que os Salmos não estão desenvolvendo uma reflexão filosófica sobre a aparente vaidade da vida debaixo do sol. Ainda assim, descrevem a morte como o fim dos planos, da atividade e do louvor consciente.
Assim, quem quiser retirar Eclesiastes da discussão poderá fazê-lo. O argumento, porém, se comporta como uma Hidra de Lerna: cortada uma cabeça, os Salmos erguem outras duas em seu lugar.
Portanto, o quadro geral permanece o mesmo: a morte é apresentada como um estado de inconsciência. A pessoa não continua participando dos acontecimentos deste mundo, sentindo emoções, conversando ou fazendo planos. Por isso, Lucas 16 não pode ser usado para provar exatamente o contrário. Seria estranho interpretar literalmente os detalhes de uma parábola e, com base neles, contradizer declarações diretas sobre a condição dos mortos.
Há ainda outra dificuldade. A Bíblia associa a recompensa dos justos e o castigo dos ímpios a acontecimentos futuros. Em Mateus 25:31-46, a separação entre os dois grupos ocorre quando o Filho do Homem vier em sua glória. Apocalipse 22:12 apresenta Jesus dizendo: “Eis que venho sem demora, e comigo está o galardão que tenho para retribuir a cada um segundo as suas obras.”
A recompensa não é apresentada como algo entregue individualmente no instante da morte. Ela está ligada à volta de Cristo. A sequência do Apocalipse reforça isso. O capítulo 19 descreve a segunda vinda. O capítulo 20 apresenta o milênio, o juízo e, finalmente, o lago de fogo. Seguindo essa ordem, o castigo final dos ímpios ainda não está acontecendo. Ele ocorre depois dos acontecimentos escatológicos descritos no texto.
E isso nos traz de volta ao rico da parábola. Se ele já estivesse sofrendo literalmente num inferno ativo logo depois de morrer, teria recebido sua punição antes do juízo em que seu caso seria decidido. Como alguém pode ser sentenciado primeiro e julgado depois?
O fogo destruirá ou atormentará os ímpios eternamente?
Bem, esse assunto merece uma análise própria — e eu já escrevi um artigo detalhado sobre isso, que você pode ler aqui no site. De qualquer forma, vale a pena adiantar um ponto central: Apocalipse 20:9 afirma que o fogo desce do céu e consome os ímpios. A linguagem aponta para a destruição final: o fogo cumpre sua função e elimina definitivamente o mal.
Essa ideia é diferente da imagem de seres humanos mantidos vivos por toda a eternidade para continuarem sofrendo. Se o fogo consome, seu resultado é o fim daqueles que são atingidos por ele, não a preservação interminável de sua existência em tormento. Isso também se harmoniza com a promessa de Apocalipse 21:4. Quando o pecado e a morte forem eliminados, Deus enxugará toda lágrima. Não haverá mais sofrimento, clamor ou dor.
Seria impossível dizer que todo sofrimento terminou se, em algum lugar do universo, multidões continuassem sendo torturadas eternamente. Além disso, como os salvos desfrutariam de paz perfeita sabendo que pessoas que amaram estão em agonia sem fim? A justiça de Deus é real. O pecado será extirpado. Mas o Deus das Escrituras não é um psicopata que encontra prazer na tortura. Seu juízo eliminará o mal, em vez de conservá-lo eternamente como um espetáculo de sofrimento.
Por isso, não devemos transformar as chamas da parábola numa descrição literal de um tormento consciente e interminável. Tal interpretação entra em conflito com a cronologia do juízo, com o estado dos mortos e com a promessa de restauração final.
E o “inferno compartimentado”?
Alguns intérpretes procuram resolver certas dificuldades afirmando que, antes da ressurreição de Cristo, existiria no Hades uma espécie de divisão. De um lado estaria um lugar de consolo, chamado “seio de Abraão”; do outro, um lugar de tormento. Os mortos permaneceriam conscientes nesses dois compartimentos, aguardando o juízo final.
A parábola do rico e Lázaro costuma ser usada como principal fundamento para essa doutrina. O problema é que ela depende justamente de interpretar literalmente o cenário de uma história que apresenta várias características simbólicas. Não encontramos nos ensinamentos diretos de Jesus uma exposição clara desse suposto sistema de compartimentos. Tampouco o restante das Escrituras descreve o mundo dos mortos dessa forma.
A doutrina acaba sendo construída sobre o cenário da parábola, embora o objetivo da narrativa esteja em outro lugar: “Eles têm Moisés e os Profetas; ouçam-nos.” Quando o pano de fundo de uma história passa a receber mais atenção do que a conclusão para a qual Jesus a conduziu, provavelmente perdemos o centro do ensino.
Mas por que o mendigo recebe o nome Lázaro?
Talvez, porém, você ainda não esteja convencido. Há, afinal, um detalhe incomum nessa história: o mendigo recebe um nome. Nas outras parábolas, Jesus fala de um semeador, de um pai, de dois filhos, de uma mulher ou de um administrador. Aqui, porém, ele chama o pobre de Lázaro. Não seria isso uma indicação de que estava falando de uma pessoa real?
O argumento merece ser considerado, mas parece exigir do nome mais do que ele pode provar. Um personagem fictício não deixa de ser fictício simplesmente porque recebe um nome. Pelo contrário, nomeá-lo pode tornar a história mais viva e concreta para quem a ouve. Basta abrir um romance qualquer para perceber isso. Portanto, o fato de Jesus chamar o mendigo de Lázaro não nos obriga a concluir que tudo o que acontece na narrativa ocorreu literalmente.
Nesse ponto, alguém poderia responder: “Mas Lázaro não é o único nome mencionado. Abraão também aparece na história, e Abraão foi uma pessoa real”. Isso é verdade. Abraão não é um personagem fictício. Mas daí não se segue que a conversa narrada entre ele e o rico tenha realmente acontecido. Uma pessoa histórica pode perfeitamente ser introduzida numa história figurada sem transformar essa história num relato histórico. A questão não é se Abraão existiu, mas se Jesus estava descrevendo um encontro que de fato ocorreu entre Abraão, Lázaro e o rico depois da morte. E a mera presença de Abraão não prova isso.
Na verdade, seu papel na história é bastante compreensível. Para os ouvintes judeus de Jesus, Abraão representava o pai do povo da aliança. Colocar Lázaro junto dele tornava imediatamente clara a ideia de acolhimento e favor, assim como fazer o rico chamá-lo de “pai Abraão” ressaltava a confiança que aquele homem ainda depositava em sua descendência religiosa. Nada disso exige que a cena seja uma transcrição literal de uma conversa no mundo dos mortos.
E mesmo que os nomes possuam alguma importância especial, eles ainda não resolvem as dificuldades que já encontramos. Continuaríamos tendo mortos sem corpo com dedos e línguas, céu e inferno próximos o bastante para que seus habitantes se vejam e conversem, e o rico recebendo seu castigo antes do juízo final. A presença de uma pessoa histórica na narrativa dificilmente pode carregar o peso de todas essas conclusões.
Uma narrativa conhecida pelos ouvintes
Durante o período helenístico, ideias pagãs sobre a vida após a morte influenciaram parte do pensamento judaico. Narrativas sobre ricos e pobres recebendo destinos invertidos no além circulavam naquele ambiente cultural. Jesus podia muito bem utilizar uma história familiar aos seus ouvintes sem afirmar que todos os elementos dela correspondiam literalmente à realidade.
Ele fazia isso em outras parábolas. Utilizava situações conhecidas, personagens comuns e até condutas moralmente problemáticas para conduzir o público a uma lição específica. Como vimos, na parábola do administrador infiel, Cristo não endossa a desonestidade do personagem. Ele aproveita a situação para ensinar sobre prudência e urgência.
Da mesma forma, no rico e Lázaro, Jesus pode empregar uma narrativa culturalmente conhecida para confrontar seus ouvintes. Ele entra no mundo imaginativo deles e, a partir dali, conduz a história a uma conclusão inesperada. O rico pensa que seus irmãos precisam de alguém ressuscitado para caírem em si. Abraão responde que eles não precisam disso, pois já possuem as Escrituras. É nesse momento que percebemos que a história não trata da geografia do além. Trata da incredulidade daqueles que possuem a Palavra de Deus e, mesmo assim, recusam-se a ouvi-la.
O que a parábola pergunta a nós?
Perceba que é bem fácil terminar a leitura discutindo apenas se o fogo é literal, se o Hades possui compartimentos ou se Lázaro foi uma pessoa real. Essas perguntas têm sua importância. Mas podemos responder a todas elas e ainda escapar da advertência de Jesus. O rico tinha irmãos vivos. Eles possuíam “Moisés e os Profetas”. Tinham oportunidade de ouvir, arrepender-se e mudar de vida.
Nós também estamos vivos. Nós também possuímos a Palavra. E, mesmo assim, parece que desejamos alguma manifestação extraordinária. Quem sabe se víssemos um milagre incontestável, se alguém voltasse dos mortos ou se Deus falasse de maneira irresistível, creríamos com mais firmeza. Você já sentiu isso em algum momento?
Jesus, porém, dirige nossa atenção para aquilo que já recebemos. Quem não ouve a Palavra pode encontrar uma forma de resistir até mesmo ao extraordinário. O problema fundamental não está na ausência de evidência, mas na disposição do coração. A pergunta da parábola, portanto, não é apenas: “Onde estão os mortos?”. É também: “O que estamos fazendo com a voz de Deus enquanto ainda podemos ouvi-la?”
Conclusão
A história do rico e Lázaro não deve ser tratada como um mapa do céu e do inferno. O contexto em que aparece, os elementos simbólicos da narrativa e o ensino geral das Escrituras apontam para uma parábola.
Quando tentamos interpretar literalmente todos os detalhes, somos atolados em um lamaçal de dificuldades quase imediatamente. Quando, porém, permitimos que a história funcione como parábola, seu propósito se torna claro. Jesus está falando da responsabilidade de quem recebeu a revelação de Deus. O rico e seus irmãos tinham Moisés e os Profetas. Eles não precisavam de uma voz vinda do mundo dos mortos. Precisavam apenas ouvir aquilo que Deus já havia dito.
Vimos também que a vida eterna não é conquistada por posição social ou mérito humano. Ela é oferecida pela graça e recebida pela fé. Ainda assim, nossa maneira de viver revela se realmente ouvimos a Palavra. O rico possuía as Escrituras, mas permaneceu indiferente ao homem ferido à sua porta. Sua religião não alcançou seu coração.
Esse é o peso da narrativa. A oportunidade de ouvir, arrepender-se e responder a Deus existe agora. Não devemos esperar uma aparição, uma mensagem do além ou algum sinal mais impressionante. Deus já falou. A questão é se estamos dispostos a ouvi-lo.
Referências consultadas:
- Bíblia Sagrada – Versão Almeida Revista e Atualizada (ARA).
- Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, vol. 5, Ed. CPB, págs. 915, 916.
Leia também:
A imortalidade da alma: crença pagã?
O que significam as almas debaixo do altar? Apocalipse 6:9-11














Gessi Pimentel
Me foi muito útil a explicação dessa passagem. Acreditava que não era literal, mas não tinha argumentos bíblicos e agora marquei todos os versículos com anotações. Obrigado por compartilhar conosco seu conhecimento, e DEUS o abençoe. 🙏🙏
Amós Bailiot
Obrigado, irmã Gessi. Que Deus seja louvado por isso! E que Ele continue abençoando você e sua família. 🙏
Mirian
Gostei da explicação argumentativa de que o texto trata-se de uma parábola. Faz todo sentido. Porém, fiquei com algumas dúvidas: - O texto em questão diz que o rico (no inferno) via Lázaro (no céu). Isso me leva a crer que os ímpios verão o gozo dos justos no céu. Entretanto, na sua argumentação, o irmão citou como exemplo a mãe no céu vendo o filho no inferno. Ou seja, contrário ao que o texto sagrado diz. - No que se refere ao destino dos ímpios, foi citado Ap. 20:9 . Continuando a leitura, o versículo 10 deste capítulo fala sobre o destino do diabo, da besta e do falso profeta - lançados no lago de fogo e enxofre . E os versículos de 11 a 15 tratam do juízo final e do destino daqueles que rejeitaram a Jesus - o lago de fogo. Logo, a explicação referente ao versículo 9 não se sustenta, né? Se puder responder, ficarei grata. Gosto muito de ler, estudar e entender a Bíblia. Aprendi muito com a sua explicação, porém, fiquei com essas dúvidas. Deus o abençoe!🙌🏾
Amós Bailiot
Olá, querida irmã, que a paz de Cristo esteja contigo! Agradeço profundamente sua mensagem, suas palavras gentis e, sobretudo, o seu desejo sincero de compreender melhor as Escrituras. Vamos refletir cuidadosamente sobre suas dúvidas, com base na Palavra de Deus e dentro do contexto apresentado no artigo. Vamos às explicações. 1. O rico vê Lázaro — os ímpios verão o gozo dos justos? De fato, na narrativa de Lucas 16:23, lemos que o rico “levantou os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Abraão e Lázaro no seu seio”. Essa cena faz parte do enredo da parábola, e por isso utiliza elementos simbólicos e didáticos, característicos do estilo parabólico de Jesus. Como destaquei no artigo, essa parábola segue o padrão de outras que também usam linguagem figurada para transmitir verdades espirituais profundas. Por exemplo, em Lucas 16:9, Jesus havia acabado de dizer: “Fazei para vós amigos com as riquezas da injustiça, para que, quando estas faltarem, vos recebam eles nos tabernáculos eternos” — uma expressão claramente simbólica. Portanto, o fato de o rico ver Lázaro não ensina literalmente que os ímpios verão os justos no céu. Ao contrário, Jesus utiliza esse recurso narrativo para confrontar os fariseus, que eram apegados às riquezas e desprezavam os pobres (Lucas 16:14). A ênfase está na inversão dos destinos eternos: o homem rico, tido como abençoado, está agora em tormentos; o mendigo, considerado amaldiçoado, está no seio de Abraão. Entendeu? Quanto ao exemplo que citei sobre a mãe que não veria o filho no inferno, não há contradição alguma. Isso foi usado como uma argumentação contra a ideia de um inferno eterno, onde os ímpios sofreriam conscientemente para sempre. E minha argumentação foi clara (e está no artigo): “Além disso, Apocalipse 21:4 afirma que Deus eliminará toda dor e lágrimas dos justos. Essa promessa seria incoerente se, por exemplo, uma mãe testemunhasse eternamente o sofrimento de seu filho em um suposto ‘lago de fogo’ próximo. Tal cenário contradiria o cumprimento da profecia. Ademais, a própria natureza de Deus — que não é cruel nem psicopata — reforça que Ele não torturaria alguém perpetuamente.” Você entendeu? Foi um exemplo argumentativo que mencionei no artigo. Se os ímpios fossem queimar para sempre no inferno, como ficaria o coração de uma mãe cujo filho se perdeu? Ela o veria? Ou, no mínimo, saberia que ele está sofrendo eternamente. Isso tornaria Apocalipse 21:4 impossível de ser cumprido. Isso sim seria uma contradição. Se no céu houvesse memória do sofrimento eterno dos entes queridos, não haveria plenitude de alegria, o que contraria a promessa da vida eterna com Deus. Portanto, não há contradição alguma: Jesus usa a imagem da visão entre os personagens como um recurso didático, e não como uma descrição literal do mundo espiritual. 2. Apocalipse 20:9 e o lago de fogo — os ímpios não vão para lá também? Sua observação é muito pertinente. De fato, Apocalipse 20:10 menciona que o diabo, a besta e o falso profeta são lançados no lago de fogo, e os versículos de 11 a 15 falam do juízo final e do destino dos que rejeitaram a Cristo. No artigo, citei Apocalipse 20:9 com ênfase na aniquilação dos ímpios diante do “fogo que desce do céu”. Muitos estudiosos veem esse fogo como o juízo final de Deus, consumindo os ímpios — o que é reforçado pelo versículo 15: “E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo.” Ou seja, não é só o diabo, a besta e o falso profeta que serão lançados no fogo, certo? Além disso, observe os versículos 7 e 8 do mesmo capítulo: “Quando, porém, se completarem os mil anos, Satanás será solto da sua prisão; e sairá a seduzir as nações que há nos quatro cantos da terra, Gogue e Magogue, a fim de reuni-las para a peleja. O número dessas é como a areia do mar.” Ou seja, após os mil anos, Satanás será solto e sairá a enganar as nações — os ímpios. E veja que o número deles é como a areia do mar. É muita gente. E o que acontece logo em seguida? O verso 9 responde: “Marcharam, então, pela superfície da terra e sitiaram o acampamento dos santos e a cidade querida; desceu, porém, fogo do céu e os consumiu.” Você entendeu? Todos esses ímpios serão consumidos pelo fogo. E o verso 10 apenas especifica que o diabo, a besta (símbolo de um sistema religioso corrompido) e o falso profeta também estarão no lago de fogo — e serão igualmente destruídos. Devemos ler todo o contexto para não interpretarmos equivocadamente a Palavra de Deus. Caso ainda haja dúvidas, estarei à disposição. Que Deus a abençoe! 🙏