Com frequência crescente, ouve-se em muitas igrejas de várias denominações e também nas redes sociais uma afirmação que parece libertadora, mas que, examinada de perto, revela-se teologicamente problemática: “Jesus cumpriu toda a lei, portanto não precisamos guardar mandamento algum. Estamos sob a graça, não sob a lei.” Esta posição, conhecida academicamente como antinomismo, aparece embrulhada em linguagem cristã e citações paulinas, o que lhe confere uma aparência de solidez que ela não possui.
O problema metodológico dessa leitura é tratar a palavra “lei” como se fosse um bloco monolítico e homogêneo dentro de uma caixa. A Bíblia, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, apresenta leis em categorias distintas, que têm funções, origens e destinos diferentes. Misturar tudo sob o mesmo rótulo e jogar fora, pensando que tudo foi abolido na cruz, é um erro tremendo.
Neste artigo faremos o que o bom intérprete deve fazer: distinguir os principais tipos de lei apresentados na Bíblia, examinar cada texto no seu contexto e verificar o que a revelação bíblica, de fato, diz sobre o que foi abolido na cruz e o que permanece em vigor. E, ao longo do caminho, vamos fazer uma pergunta simples que essa doutrina nunca responde satisfatoriamente: se não há mais lei, o que é, afinal, o pecado?
A lei na Bíblia não é um bloco monolítico
O termo hebraico torah (תּוֹרָה) e o grego nomos (νόμος) são utilizados nas Escrituras com uma amplitude semântica considerável. Dependendo do contexto, podem referir-se ao Pentateuco como um todo, ao código mosaico em sua totalidade, ou especificamente a categorias legais distintas dentro desse código.
A tradição teológica reformada reconhece ao menos duas grandes categorias dentro da lei mosaica:
1ª – A Lei Cerimonial
A lei cerimonial compreendia o sistema sacrificial, as festas religiosas judaicas, os rituais de pureza, as ordenanças do santuário terrestre — em suma, todo o aparato simbólico que apontava tipologicamente para o Messias vindouro. Cordeiros eram sacrificados como tipos de Cristo (João 1:29); o sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos como tipo do ministério celestial de Jesus (Hebreus 8–9); as festas litúrgicas como a Páscoa eram sombras de realidades espirituais maiores (Colossenses 2:16-17).
Dessa forma, a lei cerimonial não tinha valor intrínseco permanente: era provisória e seu propósito era pedagógico e prefigurativo. Era um sistema de sinalizações apontando para o Cristo. Quando Cristo veio e morreu na cruz tudo aquilo que a lei cerimonial representava teve seu cumprimento. Já não era mais necessário sacrificar cordeiros, pois os cordeiros simbolizavam o sacrifício de Cristo na cruz. Já não era mais necessário cumprir as festas judaicas, a Páscoa ou qualquer outra cerimônia, porque todos esses rituais cerimoniais tinham data para terminar.
Na cruz, portanto, a lei cerimonial chegou ao seu fim, não porque foi simplesmente cancelada, mas porque foi integralmente cumprida.
2ª – A Lei Moral: Os Dez Mandamentos
Os Dez Mandamentos, por outro lado, ocupam uma categoria radicalmente distinta. Foram proclamados diretamente por Deus perante todo o Israel (Deuteronômio 5:22), escritos não em pergaminho, mas em pedra — pelo próprio dedo de Deus (Êxodo 31:18) — e depositados dentro da Arca da Aliança. O livro da lei, ao contrário, era guardado ao lado da arca (Deuteronômio 31:26). Essa distinção espacial é teologicamente eloquente: os mandamentos estavam no centro, sob a tampa da misericórdia, sob a presença divina; as ordenanças cerimoniais ficavam à margem.
E o detalhe mais importante sobre isso é que os Dez Mandamentos não foram dados somente para o povo de Israel. Foram dados para toda a humanidade porque expressam o caráter eterno de Deus. A proibição do homicídio, adultério, roubo e falso testemunho, por exemplo, não são convenções culturais semíticas — são reflexos da própria natureza divina e da dignidade humana criada à imagem de Deus.
Além disso, esses mandamentos não foram criados por Deus no Sinai. Séculos antes de existir o primeiro israelita ou judeu essa lei já existia. O sábado foi instituído lá no Éden. Quando Caim matou Abel, Deus o reprovou pelo ato, o que indica que o “não matarás” já havia sido instituído. O que aconteceu no Sinai foi apenas a proclamação pública de algo que todos os patriarcas já conheciam.
O que significa “cumprir a lei”? (Mateus 5:17)
A pedra de toque do antinomismo é a declaração de Jesus em Mateus 5:17. Ela merece exame cuidadoso:
“Não penseis que vim para destruir a lei ou os profetas; não vim para destruir, mas para cumprir.” (Mateus 5:17)
O argumento antinomiano sobre este versículo é o seguinte: “Jesus cumpriu tudo, logo está encerrado o caso, nós não precisamos mais cumprir lei nenhuma, pois não estamos mais debaixo da lei e sim da graça. O que permanece agora é apenas o amor.” Mas essa leitura padece de dois erros graves: um lexical e um contextual.
1. O erro lexical: πληρόω não significa “abolir“
O verbo grego traduzido como “cumprir” é πληρόω (plēroō), que significa: completar, dar plenitude a algo, trazer à sua forma mais plena, preencher totalmente. Não significa “fazer com que perca validade”. Em outras palavras, ao cumprir a lei, Jesus não nos isentou de fazer o mesmo, mas nos mostrou a forma correta de obedecê-la.
O próprio Jesus, no versículo 18, deixa claro o que não acontecerá com a lei: “Porque em verdade vos digo que, enquanto o céu e a terra não passarem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido.” (Mateus 5:18)
Se Jesus tivesse vindo para abolir a lei, seria contraditório que, no versículo imediatamente seguinte, declarasse que nem a menor letra da lei passaria. A sequência argumentativa do texto aponta na direção oposta ao antinomismo: Jesus veio para levar a lei à sua expressão mais profunda e perfeita, não para liquidá-la.
No entanto, surge aqui uma objeção legítima: se acima afirmamos que Jesus aboliu a lei na cruz, e agora dizemos que ele não aboliu, isso não é contraditório? Sim, seria contraditório se estivéssemos falando do mesmo tipo de lei. O que foi abolido, como vimos, foi a lei cerimonial, que tinha a ver com sacrifícios de animais e rituais religiosos específicos. Já a lei que Jesus não aboliu foi a lei dos 10 mandamentos, e é a essa lei que me refiro neste tópico.
Mas como ter certeza disso? A resposta está no contexto, como veremos a seguir.
2. O erro contextual: o que vem depois
O contexto imediato de Mateus 5 é decisivo. Após declarar que não veio abolir, mas cumprir, Jesus passa pelos próximos versículos (5:21-48) a apresentar uma série de aprofundamentos morais da lei, com a fórmula repetida:
“Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento.
Eu, porém, vos digo que todo aquele que [sem motivo] se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo.“
“Ouvistes que foi dito: Não adulterarás.
Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela.” (Mateus 5:21, 22; 27,28)
Perceba que pelo contexto dá para afirmar claramente a que tipo de lei Jesus se referia, pois ele cita alguns dos 10 mandamentos. Em momento algum, entretanto, Jesus cita os mandamentos com intuito de os abolir. Pelo contrário, Ele os radicaliza, internalizando-os. O mandamento “não matarás” vai além do matar fisicamente, abarcando também o sentido de não nutrir ódio contra outrem. O “não adulterarás” também vai além: segundo as palavras de Jesus, se você cultiva desejos sexuais com alguém que não seja seu cônjuge, você já adulterou com essa pessoa.
Assim, pode-se notar que o padrão ético não foi abaixado ou abolido pela graça — foi elevado. Isso é o exato oposto do antinomismo.
Jesus cumpriu para nos dar o exemplo
Há ainda outra dimensão do “cumprir a lei” que o antinomismo ignora. Pedro, escrevendo a cristãos dispersos pelo mundo, explica o propósito da vida obediente de Cristo com uma palavra que desarma o argumento:
“Pois para isso mesmo fostes chamados, porque também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos um exemplo, para que seguísseis os seus passos.” (1 Pedro 2:21)
Cristo nos deixou um exemplo (ὑπογραμμός, hypogrammos — literalmente, um modelo para ser copiado, como a linha de base que um estudante devia traçar por cima ao aprender a escrever). A obediência perfeita de Jesus não foi um ato substitutivo que nos dispensasse de obedecer, como já foi dito. Em vez disso, foi um modelo que nos chama a obedecer assim como ele obedeceu. Se Jesus “cumpriu para que eu não precise cumprir”, então Pedro estava enganado ao dizer que Cristo nos deixou um exemplo de conduta para seguirmos.
O mesmo argumento aparece em 1 João 2:6: “Aquele que diz que permanece nele deve também andar como ele andou.”
Qual é o dever do cristão? Andar como Ele andou. Jesus guardou os mandamentos. Viveu sem pecado — o que, pela própria definição de 1 João 3:4, significa que nunca transgrediu a lei. Quem afirma permanecer nele deve trilhar o mesmo caminho. O cumprimento de Cristo é o modelo, não a dispensa.
“Mas a Bíblia chama tudo de lei” — O argumento mais honesto do antinomismo
Chegamos ao ponto onde o antinomismo mais sofisticado se apoia: “Essa distinção entre lei cerimonial e lei moral é uma invenção dos teólogos. Na Bíblia, Paulo chama tudo de lei, sem separar as categorias. Como saber do que ele está falando em cada texto?”
Embora seja verdade que a Bíblia chama tudo de “lei”, vimos que a distinção não é invenção de ninguém. Em cada passagem há o suficiente no contexto para determinarmos o tipo de lei em debate, como vimos no caso de Mateus 5.
Porém, como essa é a objeção mais honesta que existe dentro dessa posição antinomiana, devemos dar uma resposta completa e honesta: o hebraico usa torah (תּוֹרָה) e o grego usa nomos (νόμος) para se referir tanto ao Decálogo quanto às ordenanças cerimoniais — às vezes até ao Pentateuco inteiro. Paulo não anuncia: “veja, agora vou falar da lei cerimonial” ou “atenção, estou me referindo ao Decálogo”. O que há é algo mais confiável do que rótulos explícitos: contexto, e evidências internas ao próprio texto. Vejamos:
1. O Contexto Semântico Determina o Referente
Quando Paulo escreveu o capítulo 2 de Colossenses sobre o que foi pregado na cruz, ele mesmo fornece a lista do que está em pauta: comida, bebida, festas, luas novas e sábados cerimoniais — “sombras das coisas vindouras”.
Vale notar que o calendário levítico possuía sábados próprios, distintos do Sábado semanal do Decálogo. Festas como o Dia da Expiação, a Festa das Semanas e a Festa dos Tabernáculos tinham seus próprios dias de descanso obrigatório, chamados igualmente de sábados (ver Levítico 23:24-32). São esses sábados cerimoniais — vinculados ao sistema sacrificial e tipológico — que Paulo declara extintos, não o Sábado do quarto mandamento, que é memorial da criação (Êxodo 20:11) e antecede o pecado, o Sinai e qualquer ordenança levítica em séculos.
Já em Romanos 7:7, falando sobre a lei que define o pecado, Paulo cita o décimo mandamento: “Não cobiçarás.” Quando fala de lei em Romanos 13:9, ele lista: “Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não cobiçarás” — quatro dos Dez Mandamentos, apresentados como ainda válidos. O contexto, em cada caso, determina qual lei está sendo discutida.
2. As distinções estão no próprio texto
Em Efésios 2:15, Paulo não diz simplesmente “a lei”. Ele diz τὸν νόμον τῶν ἐντολῶν ἐν δόγμασιν — “a lei dos mandamentos nas ordenanças“. O qualificador dogmasin (decretos, regulamentos) é a chave: Paulo está confirmando a abolição da lei enquanto expressa em regulamentos cerimoniais, não a lei dos 10 mandamentos que é a expressão do caráter divino.
Há ainda evidências extratextuais que o próprio cânon fornece. O Decálogo foi pronunciado diretamente por Deus ao povo inteiro (Deuteronômio 5:22), gravado pelo dedo de Deus em pedra (Êxodo 31:18) e colocado dentro da Arca da Aliança (Deuteronômio 10:5). As ordenanças cerimoniais foram escritas por Moisés em um livro e colocadas ao lado da Arca (Deuteronômio 31:26). Suporte material diferente, origem diferente, localização diferente — tudo isso indica que o próprio texto bíblico tratava essas leis como categorias distintas, mesmo sem um vocabulário técnico separado.
A distinção, portanto, não é invenção dos teólogos. É o que os próprios textos ensinam quando lidos em conjunto e com atenção ao contexto. A falta de rótulos explícitos não apaga essa diferença, apenas exige mais rigor interpretativo do que uma leitura superficial fornece.
Relembrando o que foi, de fato, abolido na cruz
Há textos paulinos que falam claramente de abolição e revogação. O problema é que o antinomismo os aplica ao lugar errado. Esses textos referem-se consistentemente à lei cerimonial, não aos Dez Mandamentos.
1. Efésios 2:15 — A Lei dos Mandamentos em ordenanças
“Abolindo na sua carne a inimizade, a lei dos mandamentos expressa em ordenanças, para criar em si mesmo, dos dois, um novo homem, fazendo a paz.” (Efésios 2:15)
A expressão grega é τὸν νόμον τῶν ἐντολῶν ἐν δόγμασιν — literalmente, “a lei dos mandamentos nas ordenanças”. O elemento abolido é a lei na medida em que se expressava em dogmata (decretos, regulamentos cerimoniais). O contexto do capítulo é a divisão entre judeus e gentios, removida pela cruz. A barreira ritual e cerimonial que separava Israel das nações foi demolida — não a lei moral que une todos os seres humanos diante de Deus.
2. Hebreus 8–10 — O sistema levítico superado
A Carta aos Hebreus dedica três capítulos inteiros a demonstrar que o sacerdócio levítico, os sacrifícios animais e o santuário terrestre foram suplantados pelo sacerdócio de Cristo, pelo seu sacrifício único e pelo santuário celestial. Este é, literalmente, o argumento central da epístola.
“Ora, se a perfeição fosse por meio do sacerdócio levítico […] que necessidade ainda havia de que se levantasse outro sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque?” (Hebreus 7:11)
A conclusão do argumento do autor de Hebreus é que o sistema cerimonial foi uma pedagogia temporária — magnífica, mas provisória. Sua revogação não é empobrecimento, mas o cumprimento da promessa.
O que permanece: Os Dez Mandamentos no Novo Testamento
Se os Dez Mandamentos fossem abolidos pela cruz, esperaríamos que o Novo Testamento fizesse menção a isso. O que encontramos, porém, é o oposto: os escritores do NT repetem, aplicam e aprofundam os mandamentos do Decálogo com plena autoridade. Veja:
1. João: O pecado pressupõe a lei
Antes de examinar os textos que reafirmam os mandamentos, é preciso enfrentar uma implicação lógica que o antinomismo sistematicamente ignora. João, escrevendo décadas depois da ressurreição, oferece uma definição precisa do pecado: “Todo aquele que pratica o pecado transgride também a lei, pois o pecado é a transgressão da lei.” (1 João 3:4)
Esta é uma definição muito clara sobre o que é o pecado. João não diz que o pecado lembra a transgressão da lei — ele diz que o pecado é a transgressão da lei. E aqui a posição antinomiana se vê diante de um dilema que não consegue resolver.
Se os Dez Mandamentos foram abolidos na cruz, então não existe mais lei moral para ser transgredida. Se não existe lei para ser transgredida, então não existe pecado. E se não existe pecado, de que Cristo nos redimiu? A doutrina inteira da redenção — o coração do evangelho — repousa sobre a realidade do pecado como transgressão de uma lei que permanece em vigor. Todo cristão confessa que Jesus morreu para nos salvar dos nossos pecados. Mas se a lei foi abolida, o pecado não existe. E se o pecado não existe, a cruz foi um sacrifício em vão.
A contradição não é pequena. É estrutural. Abolir os Dez Mandamentos não é apenas rever uma posição sobre guarda de dias — é esvaziar o significado da expiação.
Convém notar que João não escreveu 1 João 3:4 em algum período de transição pré-cruz. Escreveu por volta do ano 90 d.C., décadas após a crucificação, a ressurreição e o Pentecostes. Para João, escrevendo do outro lado de todos esses eventos, o pecado continuava sendo, por definição, transgressão da lei. Isso por si só desmonta a ideia de que a cruz teria alterado essa realidade.
2. Paulo: A lei é santa e espiritual
O mesmo Paulo que declara a abolição das ordenanças cerimoniais é explícito sobre os 10 mandamentos: “Então anulamos a lei pela fé? De modo algum! Ao contrário, confirmamos a lei.” (Romanos 3:31)
“Que diremos então? A lei é pecado? De modo algum! Mas eu não conheceria o pecado senão por meio da lei, pois eu não saberia o que é cobiça se a lei não dissesse: Não cobiçarás.” (Romanos 7:7)
Em Romanos 7:7, Paulo cita o décimo mandamento diretamente para demonstrar que a lei moral continua sendo o parâmetro que define o pecado. Mais adiante, no versículo 12, sua conclusão é categórica:
“Assim, a lei é santa, e o mandamento é santo, justo e bom.” (Romanos 7:12)
É impossível compatibilizar “a lei é santa, justa e boa” com “a lei foi abolida na cruz”, isso é ilógico. Paulo não era antinomiano, e quem usa Paulo para defender que todo tipo de lei foi abolido está lendo Paulo contra Paulo.
3. João: Amor sem obediência é mentira
O argumento antinomiano mais popular hoje soa espiritualmente elevado: “Não precisamos de mandamentos, agora o que importa é só o amor de Jesus.” É uma frase bonita. O problema é que João, o apóstolo do amor por excelência, a contradiz de forma direta e sem rodeios.
“E por isso sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos. Quem diz: ‘Eu o conheço’, mas não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e a verdade não está nele.” (1 João 2:3-4)
O apóstolo não diz que quem não guarda os mandamentos é um cristão imaturo ou em processo de crescimento. Ele diz que é mentiroso. A linguagem é deliberadamente forte porque o problema é sério: alguém pode invocar o nome de Jesus, frequentar cultos, falar em amor — e ainda assim estar se enganando sobre sua própria condição espiritual. O critério de verificação que João oferece é objetivo: os mandamentos são guardados, ou não são.
E João vai além. Ele antecipa exatamente o tipo de objeção que o antinomismo levantaria: “mas os mandamentos são pesados, são um fardo, são lei velha”. João responde:
“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos. E os seus mandamentos não são penosos.” (1 João 5:3)
Em resumo, os mandamentos não são difíceis de obedecer. Essa afirmação desmente a narrativa que o antinomismo faz da lei moral: como se fosse um jugo insuportável do qual a graça nos livrou. Para João, guardar os mandamentos não é o oposto do amor — é a expressão do amor. Amar a Deus e guardar seus mandamentos não são alternativas em tensão; são a mesma realidade vista de dois ângulos.
O próprio Jesus havia dito o mesmo, com igual clareza: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos.” (João 14:15)
Note a estrutura: o amor vem primeiro, a obediência é sua consequência natural. Jesus não está dizendo que obedecer é o caminho para amá-lo — está dizendo que quem genuinamente o ama vai guardar seus mandamentos. A obediência não substitui o amor nem compete com ele. A obediência revela o amor. A questão, portanto, se inverte: quem diz amar a Jesus mas rejeita seus mandamentos, está amando a Jesus, ou está amando uma imagem conveniente de Jesus?
4. O Apocalipse: o povo de Deus no fim do tempo
O livro do Apocalipse, escrito décadas depois da crucificação, descreve o povo de Deus nos últimos tempos com dois marcadores identitários precisos:
“E o dragão ficou irado contra a mulher, e foi fazer guerra contra o restante da sua descendência, os que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus Cristo.” (Apocalipse 12:17)
“Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus.” (Apocalipse 14:12)
O texto é bem direto ao ponto. O povo de Deus é caracterizado por guardar os mandamentos e a fé em Jesus. Não é uma escolha entre uma coisa e outra. O próprio livro profético final da Bíblia apresenta a guarda dos mandamentos como marca escatológica do povo fiel. Se os mandamentos fossem abolidos, essa linguagem seria não apenas incoerente — seria desorientadora ao extremo.
Graça e Lei não são opostos
A dicotomia falsa entre graça e lei é o coração do problema. O antinomismo opera como se “estar sob a graça” fosse incompatível com “guardar os mandamentos”. Mas Paulo nunca propõe essa incompatibilidade.
O raciocínio correto é este: a lei moral revela o caráter de Deus e define o pecado (Romanos 3:20; 7:7). Ninguém é justificado pela obediência à lei — a justificação é pela fé em Cristo (Romanos 3:28; Gálatas 2:16). Mas a justificação pela fé não elimina o padrão moral: ela nos liberta do poder do pecado para que possamos viver em conformidade com a lei.
Paulo é contundente ao cortar esse caminho antinomiano antes mesmo que seja percorrido:
“Que diremos então? Continuaremos no pecado para que a graça se multiplique? De modo algum! Nós, que estamos mortos para o pecado, como ainda viveremos nele?” (Romanos 6:1-2)
A graça não é licença para pecar. A graça de Deus é o poder para não pecar. A nova aliança não aboliu a lei moral, ela a inscreveu em nossos corações.
“Porei as minhas leis no seu entendimento e as escreverei nos seus corações.” (Hebreus 8:10 [cf. Jeremias 31:33])
Ao contrário do que se ensina em muitas igrejas, a nova aliança não livrou o povo de Deus da lei. Em vez disso, Deus a imprimiu em seus corações. Há uma diferença enorme entre as duas coisas.
Respondendo diretamente ao argumento antinomiano
Dito isso, vejamos o que cada argumento antinomiano realmente vale quando examinado de perto:
“Jesus cumpriu toda a lei, então não precisamos guardar nada“
Resposta: “Cumprir” (πληρόω) significa dar plenitude, nada tem a ver com tornar obsoleto. Jesus aprofundou os padrões morais da lei, em vez de os extinguir. Mateus 5:17-20 é inequívoco nesse ponto.
“Estamos sob a graça, não sob a lei“
Resposta: “Sob a lei” em (Romanos 6:14-15; Gálatas 3:23) refere-se ao regime de condenação e ao sistema cerimonial como meio de justificação — não à obrigação de não matar, não adulterar ou não mentir. Não estar “sob a lei” como sistema de justificação não equivale a estar livre de toda obrigação moral. Além do mais, quem está sob (debaixo) da lei é quem desobedece, não o contrário.
“Paulo ensina que a lei foi abolida“
Resposta: O mesmo Paulo que fala de abolição de ordenanças cerimoniais diz que “confirmamos a lei pela fé” (Romanos 3:31), que “a lei é santa, justa e boa” (Romanos 7:12), e que “o cumprimento da lei é o amor” (Romanos 13:10). Ler Paulo seletivamente é usá-lo como pretexto para continuar no erro.
“Só o amor importa agora“
Resposta: Precisamente. E Jesus definiu o amor como obediência: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (João 14:15). O amor não substitui os mandamentos, ele os motiva e os concretiza. Reduzir o amor a um sentimento difuso, sem conteúdo nem critério, não é evangelicalismo maduro, mas apenas um sentimentalismo teológico barato.
Se pecado é a transgressão da lei, como afirma 1 João 3:4, e Jesus aboliu todas as leis na cruz, como dizem muitos cristãos antiniomianos, então o que Jesus fez foi nos liberar para pecarmos à vontade? O que era pecado já não é pecado mais? Deus mudou de ideia?
Não, dizem eles, “se estamos no amor de Jesus e o amamos é claro que não vamos cometer adultério, assassinato ou roubo”. Certo, mas por que não? Por que cometer essas coisas seria “não permanecer no amor de Jesus”? Seria desobediência, é isso? Porque se não há mais 10 mandamentos a serem obedecidos, então adulterar, roubar, matar já não é pecado, já não é errado praticar essas coisas.
Portanto, dizer que agora que estamos no amor de Jesus já não temos que observar lei nenhuma é ridiculamente antibíblico. Que amor é esse que não tem forma, não tem direção e não tem obrigação? Jesus não pregou esse amor. Paulo não pregou esse amor. João menos ainda.
Conclusão: Jesus não aboliu os 10 mandamentos na cruz
A doutrina antinomiana paga um preço altíssimo pela aparente liberdade que oferece: ela transforma a graça em permissividade, esvazia o pecado de definição, e cria um Deus que, misteriosamente, muda de padrões morais a cada dispensação.
Por outro lado, a leitura bíblica cuidadosa revela outra realidade: há uma distinção fundamental entre a lei cerimonial — que era pedagógica, tipológica e temporária — e a lei moral dos Dez Mandamentos, que é a expressão do caráter eterno de Deus. A cruz aboliu o sistema sacrificial, porque esse sistema apontava para o sacrifício perfeito que era Jesus. Mas o padrão moral, os 10 mandamentos, não foram abolidos, porque o caráter de Deus não muda.
O Novo Testamento, de Mateus a Apocalipse, passando por Paulo e João, preserva, aprofunda e reafirma os mandamentos como parte integral da vida cristã. A nova aliança não é um contrato onde Deus baixou seus padrões — é um pacto onde Deus se comprometeu a inscrever seus padrões imutáveis no coração transformado. Ele nos salvou por sua graça para que vivêssemos uma nova vida em obediência a Ele.
Não há conflito entre graça e lei quando se entende o papel de cada uma. Somos salvos unicamente pela graça. Já a lei tem o papel de definir o caminho do salvo, pois é ela que nos mostra o que é pecado. E como disse João a respeito dos salvos: “Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado” (1 João 3:9). Portanto, guardar a lei não serve para nos salvar, pelo contrário, guardar a lei é a resposta natural de quem já foi salvo pela graça, e isso é feito por amor àquele que nos salvou (João 14:15).
Sendo assim, quem foi salvo e ama a Jesus segue o seu exemplo de obediência à lei de Deus. E o povo que o segue, pela força do mesmo Espírito que ressuscitou Cristo, guarda os mandamentos de Deus e a fé em Jesus (Apocalipse 14:12).
Referências Consultadas:
Bíblia Sagrada – versão ARA.
BACCHIOCCHI, Samuele. Divine Rest for Human Restlessness. Rome: Pontifical Gregorian. Biblical Perspectives, 2014.
SCHREINER, Thomas R. Romans. Baker Exegetical Commentary on the New Testament. Grand Rapids: Baker, 1998.










