“Jesus está voltando.” Poucas frases do vocabulário cristão foram repetidas tantas vezes e com tão pouco efeito. Ela aparece em cartazes de campanha evangelística, em pregações em dias de culto, em vídeos que prometem decifrar o calendário profético da semana, e a cada repetição perde um pouco de peso, como uma nota gasta de tanto passar de mão em mão. Nas últimas décadas, o assunto virou quase um gênero de conteúdo, com seus canais, seus alarmes e suas datas. O efeito acumulado é um certo cansaço. Quem ouve “o fim está próximo” desde a infância aprende, em algum momento, a ser indiferente a isso, como alguém que se acostumou a dormir com o barulho que antes o incomodava.
E o cético, alimentado por todo esse cansaço, tem o que considera um argumento definitivo. São dois mil anos. Cada geração de cristãos esteve convencida de que veria o retorno, e cada uma envelheceu e foi enterrada ainda esperando. Uma promessa que não se cumpre em vinte séculos, dirá ele, já não é bem uma promessa, mas se parece mais com uma lenda.
Concedo que a aparente demora possa ser frustrante. Porém, note que ao abrir o capítulo 3 da segunda carta de Pedro, você encontrará essa mesma objeção cética ali, não ainda refutada, mas já descrita, com uma precisão quase desconfortável. “Nos últimos dias virão escarnecedores”, escreveu o apóstolo, “dizendo: Onde está a promessa da sua vinda? Porque desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação” (2 Pedro 3:3-4). O argumento que hoje soa mais moderno — vocês esperam há tempo demais e nada mudou — é, na verdade, um dos mais antigos que existem. Pedro o anteviu. O escarnecedor acredita estar formulando uma objeção nova, mas na verdade está, sem perceber, representando um papel escrito há dois milênios.
O apóstolo, contudo, não se contenta em descrever a objeção: ele a responde. A demora, diz Pedro, não é o que aparenta ser: “O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para convosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se” (2 Pedro 3:9). O tempo transcorrido não é prova de que a promessa falhou. É a margem de misericórdia, o espaço deixado de propósito em aberto para que mais gente ainda tenha tempo de chegar. Lida assim, a demora não enfraquece a doutrina. Ela diz algo sobre o caráter de quem fez a promessa.
Pois bem, a pergunta honesta a ser feita não é se a promessa no retorno de Cristo é mais uma história da carochinha ou se deve ser abandonada, mas o que de fato ela anuncia. E há duas maneiras clássicas de esvaziá-la. A primeira é a do escarnecedor: dizer que Jesus nunca retornará. A segunda é mais sutil, e circula dentro de igrejas de diversas denominações: dizer que Ele retornará de um jeito que quase ninguém vai perceber.
Como será a volta de Jesus: visível ou secreta?
Por volta de 1830, um pregador irlandês chamado John Nelson Darby propôs que Cristo não voltaria uma vez, mas duas: a primeira de modo silencioso, para retirar a igreja do mundo antes da grande tribulação; a segunda, sete anos depois, de modo visível e glorioso. A ideia encontrou audiência, ganhou forma em livros de enorme circulação (Hal Lindsey), em ficção religiosa (Tim LaHaye), em uma franquia inteira de cultura popular, e hoje muitos cristãos a recebem como se fosse herança dos apóstolos. Mas não é.
Deixe-me explicar o porquê. O texto que Jesus deixou sobre o assunto aponta na direção contrária. Em Mateus 24:27, ele descreveu a própria volta: “Porque assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até no ocidente, assim há de ser a vinda do Filho do homem.”
Quem defende o arrebatamento secreto lê “assim como o relâmpago” e pensa em velocidade, em algo rápido demais para ser notado antes de já ter passado. É uma leitura compreensível, mas o termo grego que foi usado aponta em outra direção. O verbo que Jesus usou foi phaínō, que não descreve movimento, e sim aparição: significa tornar-se visível, manifestar-se à vista de todos. Jesus não prometeu uma chegada veloz. Ele prometeu uma chegada que não há como ignorar. Além disso, um relâmpago que rasga o céu de um horizonte ao outro é o fenômeno mais impossível de ignorar dentro do seu alcance. Não há nada de secreto num relâmpago.
Note que Apocalipse 1:7 confirma isso sem deixar brecha: “Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até quantos o traspassaram.” O texto não diz “todo crente”, nem “toda a igreja”. Diz todo olho. E vai adiante: inclui, nesse “todo”, os que o crucificaram. Isso não é hipérbole retórica. Jesus já havia nomeado um daqueles olhos. Na noite em que foi preso, diante do tribunal que o condenaria, ele olhou para o sumo sacerdote Caifás e disse: “Vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu” (Mateus 26:64). Detenha-se por um instante nessa cena. Um homem prestes a ser executado promete, ao juiz que assina a sua sentença, que esse mesmo juiz o verá retornar. Não é assim que fala alguém planejando um retorno discreto.
Ora, o defensor do arrebatamento secreto tem duas respostas de praxe, e é justo examinar as duas no que elas têm de mais forte. A primeira está em Mateus 24:40-41: “dois estarão no campo, um será tomado e o outro deixado.” A segunda está em 1 Tessalonicenses 4:17, onde o próprio Paulo usa a palavra “arrebatados”. Vejamos cada uma.
Em Mateus 24, a leitura dispensacionalista recorta os versículos 40 e 41 e os trata como uma cena isolada. Mas o capítulo não permite o recorte. O versículo 30 diz explicitamente: “verão o Filho do homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória.” É depois dessa aparição — pública, audível, impossível de não notar — que Jesus posiciona os dois no campo. Nenhuma leitura honesta do capítulo desloca o “um tomado, outro deixado” para antes do versículo 30, transformando-o numa operação silenciosa. O que Jesus mostra ali é o destino que se bifurca entre pessoas que viviam lado a lado. Um estava preparado para ir para o céu, mas o outro não. Esse é o sentido de “um será tomado e o outro deixado”. E isso nada tem a ver com arrebatamento secreto.
Agora, em 1 Tessalonicenses 4 o problema do dispensacionalista fica ainda mais sério, porque o texto lhe entrega a palavra que ele quer e, no mesmo fôlego, descreve o oposto do que ele defende: “o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares.”
Perceba que há uma palavra de ordem (em grego, kéleusma, o grito de comando de um general no campo de batalha). Há a voz do arcanjo. Há a trombeta de Deus. Há a ressurreição dos mortos. E só então, depois de toda essa comoção, os vivos são arrebatados. Esta é a única passagem da Bíblia que descreve um arrebatamento ligado à volta de Cristo, e ela é tudo menos discreta. O dispensacionalista cita a palavra como se ela vencesse a discussão, mas o texto em que a palavra aparece descreve a cena mais barulhenta que se pode imaginar. Há uma ironia nisso, e ela não é pequena.
Assim, o que os três textos mostram juntos é mais do que cada um dizia por conta própria. Phaínō, em Mateus 24, fala de visibilidade e não de velocidade. “Todo olho o verá”, em Apocalipse 1, inclui de propósito os inimigos de Cristo. E o único texto bíblico sobre arrebatamento descreve um acontecimento estrondoso. Três caminhos independentes terminam no mesmo lugar: a volta de Cristo é única, visível e impossível de ignorar.
Por que Jesus virá novamente?
Se a segunda vinda de Jesus não será secreta, resta a pergunta sobre o que Ele vem realizar. A resposta está em Apocalipse 22:12: “Eis que venho sem demora e comigo está o galardão que tenho para retribuir a cada um segundo as suas obras.” Cristo volta para entregar aquilo que já foi decidido. E essa pequena palavra, “decidido”, carrega uma implicação que costuma escapar.
Se o galardão é entregue no momento da volta, então a decisão sobre cada caso é necessariamente anterior a ela. Ninguém entrega uma sentença que ainda está sendo deliberada. Jesus aparecerá nas nuvens trazendo o veredito pronto. Isso é precisamente o que Daniel 7:9-10 e Apocalipse 14:7 descrevem: um julgamento que acontece antes da vinda, não depois. Quem objeta que esse julgamento prévio seria supérfluo inverte a ordem das coisas: é a entrega justa das recompensas que exige a deliberação anterior, e não o contrário.
Sendo assim, a volta alcança quatro grupos ao mesmo tempo, e a cada um ela entrega, com exatidão, aquilo que sua história com Deus determinou.
Os justos vivos são transformados no próprio instante da vinda. O apóstolo Paulo mede esse instante em frações de segundo: “num momento, num abrir e fechar de olhos” (1 Coríntios 15:52). O corpo corruptível se reveste de incorruptibilidade; o mortal, de imortalidade. Pense no que isso significa: se é nesse momento que os salvos receberão a imortalidade, significa que ninguém é imortal ainda.
Os justos mortos ressuscitam primeiro, antes mesmo da transformação dos que estão vivos; é a ordem que Paulo faz questão de detalhar em 1 Tessalonicenses 4:16. Esse detalhe desfaz uma confusão difundida: a de que os salvos que morreram já estariam no céu, e desceriam de lá com Cristo. Se já estivessem lá, não haveria o que ressuscitar. O texto diz que ressuscitarão. A morte, na linguagem de Jesus, é comparada ao sono (João 11:11-14); a ressurreição é o despertar. E o sono, para quem dorme, não tem duração que se perceba, nem há consciência do que acontece ao redor. O crente que morreu no primeiro século e o que morrer no último abrirão os olhos no mesmo instante.
Os ímpios vivos são alcançados e desintegrados pela glória do retorno. Paulo escreve que o Senhor destruirá o iníquo “pela manifestação da sua vinda” (2 Tessalonicenses 2:8); a palavra grega, epiphaneía, nomeia a aparição luminosa em si mesma. Não há um discurso de condenação; a glória basta. Apocalipse 6:15-17 mostra a reação desses perdidos: preferirão ser esmagados por rochedos a encarar o rosto de quem está no trono. E o que torna a cena trágica não é a incompreensão. É o contrário. Não será o desespero de quem não entende o que está acontecendo, mas o de quem entende com clareza total — e percebe, tarde demais, de que lado ficou.
Os ímpios mortos permanecem onde estão. “Os outros mortos não reviveram até que se completaram os mil anos”, diz Apocalipse 20:5. A ressurreição deles, a segunda, a que Jesus chamou de “ressurreição da condenação” (João 5:29), só ocorre depois do milênio, e abre o último ato do juízo.
O que fazer enquanto Ele não vem?
Voltemos, então, ao cansaço do início. Se a volta é certa, visível e decisiva, mas a sua data permanece desconhecida, surge a pergunta prática que o escarnecedor de Pedro nunca chega a fazer: como se espera por algo assim durante uma vida inteira, sem desistir e sem enlouquecer?
Jesus foi exato quanto ao que não podemos saber: “Quanto ao dia e à hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, mas unicamente o Pai” (Mateus 24:36). O elenco de quem não sabe é impressionante. Os anjos não sabem. O próprio Filho, na sua condição encarnada e voluntariamente limitada, não sabia. Só o Pai sabe. Isso encerra, de uma vez, toda a longa tradição dos que tentaram calcular a data: William Miller e o ano de 1844, Charles Russell e 1914, Harold Camping e 2011. Todos repetiram o mesmo erro de origem. Quiseram saber aquilo que Jesus afirmou, com todas as letras, que ninguém saberia. E a cada data fracassada, vale dizer, alimentou um pouco mais o cansaço de que falei no começo.
O que Jesus ofereceu não foi um relógio, mas um termômetro. Os sinais que ele enumera em Mateus 24 medem proximidade de seu retorno. Quem os despreza cochila no posto; quem extrai deles uma data cai no erro inverso, e não menos grave. A meu ver, a única postura coerente é dupla: recusar todo cálculo, porque a data pertence ao Pai, e recusar toda indiferença, porque os sinais foram dados de propósito, para que o dia não chegasse como ladrão sobre quem estivesse atento.
É aqui que a parábola das dez virgens, em Mateus 25, esclarece mais do que parece. As dez saíram ao encontro do noivo — as dez esperavam, as dez estavam posicionadas. A diferença entre as prudentes e as néscias não foi a intenção nem o ponto de partida: foi o azeite. Cinco estavam preparadas quando a hora chegou; cinco não estavam. E quando a porta se fechou, não havia mais tempo para buscar o que deveria ter sido providenciado antes.
O critério, portanto, não foi o cálculo correto da hora — nenhuma das dez sabia quando o noivo chegaria. Foi a condição em que cada uma se encontrava no momento em que ele chegou. Isso responde diretamente à pergunta de como se espera por algo assim sem desistir: não é acumulando previsões sobre a data, mas mantendo acesa a chama que precisará estar acesa quando ele aparecer. Jesus não deixou margem para relaxamento espiritual — “vigiai, pois, em todo tempo, orando” (Lucas 21:36). A vigilância que ele pede é a fidelidade ativa enquanto Ele não chega. Pois de que adiantaria Jesus voltar agora se não estivéssemos preparados para encontrá-lo?
O escarnecedor de 2 Pedro 3 pergunta: “Onde está a promessa da sua vinda?” A resposta, depois de tudo, é quase desconcertante de tão simples. A promessa está exatamente onde sempre esteve: sendo cumprida, neste exato momento, na forma do tempo que ainda lhe está sendo concedido. A demora que ele toma por abandono é, na verdade, uma porta que continua aberta. Mas nenhum acesso fica aberto para sempre. Um dia a espera termina; e quando terminar, a pergunta “onde ele está?” deixará de fazer sentido, porque não haverá um só olho que deixe de vê-lo.
Referência:
Bíblia Sagrada – Versão Almeida Revista e Atualizada (ARA).
* Compilado de versos sobre a volta de Jesus, clique aqui para acessar.
















Dionatan Lemos Da Silva
encontrei sua pagina hoje 06/06/2025 pesquisando e procurando uma fonte confiável achei muito interessante as explicações, eu nao estou afastado da presença Senhor Jesus cristo mais estou estudando as escritura muito bom o conteúdo abre o entendimento.
Amós Bailiot
Amém, irmão! 🙏 Que Deus seja louvado por isso! Que Ele continue abençoando você e abrindo o seu entendimento para as Escrituras.