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Lei e Graça

Romanos 14 fala sobre alimentos imundos?

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O tema da alimentação é um dos mais controversos no cristianismo, despertando opiniões divergentes. Entre os textos mais citados nesse debate está Romanos 14, frequentemente utilizado para sustentar a ideia de que os “débeis na fé” comem apenas legumes e que, por conseguinte, os maduros na fé não precisariam se preocupar com a distinção entre alimentos puros e impuros.

Mas será que todos os alimentos tornaram-se realmente puros, permitindo o consumo indiscriminado? As leis de saúde do Antigo Testamento, que distinguem animais limpos e imundos, foram de fato abolidas?

Pretendo demonstrar, à luz do próprio texto bíblico, que uma exegese correta de Romanos 14 revela que o capítulo não trata da abolição das leis dietéticas, mas de questões cerimoniais e contextuais específicas da igreja primitiva.

Salvação pela graça, não pela alimentação

Antes de entrarmos na análise de Romanos 14, é fundamental deixar algo claro: não ensinamos salvação por meio da alimentação, porque isso simplesmente não existe. A salvação é unicamente pela graça, um presente de Deus recebido exclusivamente pela fé em Cristo. Nada do que fazemos ou deixamos de fazer nos concede o direito à justificação.

A justificação — ou seja, ser declarado justo diante de Deus — é um dom recebido pela fé, conforme ensina Efésios 2:8-9. Nesse ponto, não há qualquer divergência.

Um estilo de vida ético para o povo salvo

Entretanto, compreendemos que Deus estabeleceu um estilo de vida ético para o Seu povo salvo pela graça, e esse estilo de vida inclui, sim, aquilo que comemos. Isso ocorre porque não existe separação entre saúde física, mental e espiritual. Somos seres holísticos.

Você certamente já ouviu falar em medicina holística — e ela precisa existir. Uma medicina que não considera o ser humano em todos os seus aspectos é, por definição, incompleta.

Se somos seres integrais, é evidente que aquilo que ingerimos, e que constrói o nosso corpo, influencia também nossa saúde mental. Uma mente danificada, por sua vez, prejudica a parte espiritual, pois não há separação real entre mente e corpo.

O contexto histórico da igreja de Roma

Para compreender Romanos 14 corretamente, é essencial lembrar que a igreja de Roma era composta por judeus e gentios convertidos. Esses cristãos viviam em um ambiente profundamente pagão, no qual grande parte dos alimentos disponíveis nos mercados havia sido sacrificada a ídolos ou associada a rituais religiosos gentílicos.

Além disso, para os judeus, muitos desses alimentos eram considerados cerimonialmente impuros, não por serem imundos segundo Levítico 11, mas por sua associação com práticas pagãs. Esse pano de fundo histórico é decisivo para entender o tipo de discussão que Paulo está tratando.

Romanos 14 e o argumento dos “débeis na fé”

Dito isso, passemos agora a Romanos 14, texto frequentemente utilizado — ainda que de forma indevida — por muitos irmãos sinceros para afirmar que não devemos nos preocupar com alimentação. Nos versos 1 a 5, lemos:

“¹ Acolhei ao que é débil na fé, não, porém, para discutir opiniões.
² Um crê que de tudo pode comer, mas o débil come legumes;
³ quem come não despreze o que não come; e o que não come não julgue o que come, porque Deus o acolheu.
⁴ Quem és tu que julgas o servo alheio? Para o seu próprio senhor está em pé ou cai; mas estará em pé, porque o Senhor é poderoso para o suster.
⁵ Um faz diferença entre dia e dia; outro julga iguais todos os dias. Cada um tenha opinião bem-definida em sua própria mente.”

Alguns concluem a partir disso: “Se um quer comer carne imunda e outro não, não se deve discutir tais opiniões”. Contudo, o texto não diz isso. Romanos 14 não está tratando de carnes imundas.

Talvez você esteja pensando agora: “Mas como não? Está me chamando de analfabeto?” De forma alguma. Não considero assim quem não compreende corretamente Romanos 14. A questão é outra: qual é, então, a interpretação correta?

Ser débil na fé não é guardar leis dietéticas

Em primeiro lugar, observe que o assunto gira em torno dos “débeis na fé”. Se não comer certos tipos de alimentos fosse sinal de fraqueza espiritual, teríamos um problema enorme.

Pois, nesse caso, quando Deus deu as orientações de Levítico 11, estaria Ele instruindo os israelitas a serem débeis na fé? Moisés, Josué, Davi, Salomão, Jeremias, Daniel, Ezequiel e Isaías eram todos fracos espiritualmente? Será que Deus teria feito uma espécie de “pegadinha”, dificultando a alimentação do Seu povo ao restringir certos tipos de carne?

E então, de repente, Deus teria mudado de ideia e pensado: “Bom, acho melhor parar com isso. Agora vou liberar tudo. Podem comer urubu, lesma, cobra, rato, porco, gambá, cachorro — está tudo purificado”?

Isso não faz o menor sentido. Não há lógica alguma em associar ser “débil na fé” ao fato de consumir ou não certos tipos de carne. Essa não é a discussão de Paulo.

O problema não era carne imunda, mas alimentos sacrificados a ídolos

Observe que, no verso 2, é dito que o débil na fé comia legumes. Mas será que Deus é contra uma dieta vegetariana? Em Gênesis 1:29, foi o próprio Deus quem estabeleceu a dieta vegetariana. Logo, precisamos analisar o contexto.

Quando estudamos Romanos 14 em conjunto com 1 Coríntios 8 — que trata exatamente do mesmo problema — percebemos que a questão envolve o consumo de alimentos sacrificados a ídolos. Em 1 Coríntios 8, o debate era se os cristãos deveriam ou não comer carnes oferecidas em sacrifício a divindades pagãs.

Havia pessoas tão débeis na fé, tão temerosas de terem ingerido carne sacrificada a ídolos ou considerada cerimonialmente impura, que optavam por comer apenas legumes. Portanto, a questão não era carne imunda no sentido levítico, mas alimentos envolvidos em práticas idólatras ou rituais.

Três categorias distintas de impureza

Para evitar confusões interpretativas, é importante distinguir três categorias diferentes de impureza presentes na Escritura:

  1. Impureza moral, relacionada ao pecado;
  2. Impureza cerimonial, ligada a rituais e associações religiosas (koinós);
  3. Imundícia alimentar, referente às carnes proibidas em Levítico 11 (akáthartos).

Romanos 14 trata claramente da segunda categoria, e não da terceira.

A chave está no termo grego usado por Paulo

Isso fica ainda mais claro quando analisamos Romanos 14:14: “Eu sei e estou persuadido, no Senhor Jesus, de que nenhuma coisa é de si mesma impura, salvo para aquele que assim a considera; para esse é impura.”

A palavra grega traduzida como “impura” aqui é koinós, e não o termo utilizado para animais imundos. Essa distinção é fundamental.

Koinós refere-se a algo cerimonialmente impuro, isto é, algo considerado comum ou contaminado por associação ritual. Se Paulo estivesse tratando de carnes imundas segundo Levítico 11, ele teria usado o termo akáthartos, exatamente o termo empregado na Septuaginta para se referir a animais imundos.

Mas Paulo não usa akáthartos. Ele usa koinós. Portanto, o que Paulo afirma é que nenhum alimento é cerimonialmente impuro em si mesmo, tenha ele passado ou não por rituais ou sido oferecido a ídolos.

O Reino de Deus não é ritual de comer e beber

Outro ponto importante está em Romanos 14:17: “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo.”

As palavras gregas usadas para “comida” e “bebida” são brósis e pósis, que não se referem ao alimento em si, mas ao ato de comer e beber, especialmente em um contexto ritualístico. Mais uma vez, o foco está em práticas cerimoniais, não em leis dietéticas de Levítico 11.

Se Paulo estivesse abolindo essas leis, estaria contradizendo a própria Escritura que ele considerava inspirada.

Marcos 7 e a tradição dos homens

Antes que alguém cite Marcos 7 nos comentários, o mesmo princípio se aplica a esse capítulo. O contexto não é Levítico 11, mas as tradições farisaicas acerca de um ritual de purificação das mãos. Jesus não está declarando todos os alimentos lícitos, mas ensinando que a verdadeira contaminação não anula daquilo que entra pela boca, e sim do que procede do coração.

O texto trata de tradição humana e pureza ritual, não de leis dietéticas dadas por Deus (ver Mateus 15).

Levítico 11: saúde, ética e separação

Levítico 11 apresenta uma lei dietética clara e importante. Ao final do capítulo, Deus declara que o consumo de carnes imundas é algo abominável. Se fosse apenas uma questão cerimonial, Deus não utilizaria o termo “abominável”.

Esse vocabulário revela que as orientações dietéticas de Levítico envolvem saúde, ética e um estilo de vida separado para Deus. São princípios que transcendem o mero ritual e apontam para o bem-estar integral do ser humano.

Conclusão

Espero que essas considerações tenham ajudado você a distinguir claramente, em Romanos 14 e outros textos do Novo Testamento, a diferença entre alimentos considerados cerimonialmente impuros e aqueles classificados como imundos segundo as leis dietéticas de Levítico 11 e Deuteronômio 14.

Se alguém pensar em citar Colossenses 2:16, vale lembrar que ali aparecem novamente os termos brósis e pósis, relacionados ao ato ritual de comer e beber, e não ao alimento em si. Uma análise cuidadosa revela que não há base bíblica no Novo Testamento para afirmar que os princípios dietéticos do Antigo Testamento foram abolidos.

Nada disso é apresentado para julgar irmãos ou estabelecer salvação por regras, mas para buscar fidelidade ao texto bíblico e coerência na interpretação das Escrituras. Afinal, a Bíblia é uma só, harmoniosa e consistente do começo ao fim.

Que Deus te abençoe!


Referências consultadas:
  • Bíblia Sagrada – Versão Almeida Revista e Atualizada (ARA).
  • Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, vol. 6, Ed. CPB, págs. 698-711.
Para se aprofundar ainda mais neste tema, leia também:

As Leis de Saúde na Bíblia: uma orientação divina para a vida

A Bíblia proíbe comer carne de porco?

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Graduando em História pela Universidade Estácio de Sá e estudioso de Teologia, defende a premissa de que o conhecimento se torna verdadeiramente valioso quando compartilhado. Junte-se a mim nessa jornada!

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