Introdução
A poligamia é um tema que frequentemente gera tensão na interpretação bíblica contemporânea. Como um Deus santo poderia permitir que patriarcas e reis bíblicos tivessem múltiplas esposas? A resposta passa por uma distinção fundamental entre tolerância e aprovação. As Escrituras revelam um Deus que se relaciona com a humanidade em sua condição caída, mas sem legitimar práticas que se desviam de Seu propósito original.
Embora a poligamia tenha sido socialmente aceita no mundo antigo, a Bíblia indica que ela nunca fez parte do desígnio primordial para o casamento. Neste artigo, vamos examinar a origem histórica dessa prática, as razões pelas quais Deus a tolerou temporariamente e como ela contrasta com o modelo monogâmico estabelecido na criação e reafirmado no Novo Testamento.
O contexto histórico: por que a poligamia era comum?
No Antigo Oriente Médio, entre aproximadamente 2000 e 500 a.C., a poligamia era amplamente praticada e socialmente legitimada. Seus principais fatores motivadores incluíam:
- Demografia e sobrevivência: altas taxas de mortalidade incentivavam estratégias para garantir descendência e continuidade familiar.
- Economia agrária: famílias numerosas representavam mais mão de obra e estabilidade produtiva.
- Alianças políticas: casamentos múltiplos fortaleciam vínculos entre clãs e reinos.
- Proteção social: mulheres sem amparo masculino podiam encontrar sustento dentro de arranjos poligâmicos.
A Bíblia reconhece esse contexto, mas não o endossa. Ao longo das narrativas bíblicas, a poligamia é apresentada associada a conflitos e desordem, sugerindo que ela se distancia do ideal divino.
O plano original de Deus para o casamento
Gênesis estabelece o padrão normativo para o matrimônio: “Por isso, deixará o homem pai e mãe e se unirá à sua mulher, e serão uma só carne.” (Gn 2:24)
A expressão “uma só carne” indica uma união exclusiva, indivisível e pessoal entre um homem e uma mulher. Esse princípio aponta para a monogamia como projeto original de Deus.
Além disso, Eva é apresentada como “ajudadora idônea” (ezer kenegdo), expressão que no hebraico indica parceria correspondente e complementar, e não subordinação. O casamento, portanto, foi concebido como uma relação de igualdade, cooperação e exclusividade.
Teologicamente, esse modelo monogâmico encontra eco em dois grandes paradigmas bíblicos:
- A unidade relacional da Trindade, que oferece um padrão de comunhão e fidelidade.
- A relação entre Cristo e a Igreja (Ef 5:25-32), apresentada como um vínculo exclusivo entre um noivo e uma noiva.
Nesse sentido, a poligamia não apenas se afasta do plano criacional, mas também distorce a imagem teológica do casamento.
Casos bíblicos: quando a poligamia gerou desordem
A Escritura não romantiza a poligamia; pelo contrário, expõe suas consequências negativas.
1. Abraão, Sara e Agar (Gn 16)
A decisão de Abraão e Sara de recorrer à serva Agar foi uma tentativa de dar uma “ajudinha” a Deus para resolver a questão da esterilidade de Sara. O resultado foi conflito doméstico e tensões que marcaram gerações posteriores. Deus abençoou Agar e Ismael por misericórdia, mas cumpriu Sua aliança por meio de Isaque, reforçando que a solução poligâmica não correspondia ao Seu plano.
2. Jacó, Lia e Raquel (Gn 29–30)
A família de Jacó foi marcada por rivalidade, ciúmes e competição entre esposas, repercutindo na relação entre seus filhos. A venda de José como escravo ilustra como essa dinâmica familiar gerou profundas rupturas.
3. Davi e Salomão
Davi teve múltiplas esposas, e seu envolvimento com Bate-Seba trouxe graves consequências morais e políticas. Salomão levou essa prática ao extremo, e suas alianças matrimoniais contribuíram para sua idolatria e para a divisão do reino (1Rs 11). Em ambos os casos, a poligamia aparece como fator de corrupção espiritual.
A Lei de Moisés: contenção de danos, não legitimação
Deus não instituiu a poligamia, mas regulou seus efeitos dentro de uma sociedade que já a praticava. Duas leis são especialmente relevantes:
- Deuteronômio 21:15-17: garantia o direito do primogênito, mesmo que fosse filho da esposa menos favorecida, evitando injustiças na herança.
- Êxodo 21:10: impedia que o marido negligenciasse alimentação, vestuário e direitos conjugais da primeira esposa ao tomar outra mulher.
Essas normas não validam a poligamia; apenas limitam seus abusos e protegem os mais vulneráveis.
Por que Deus tolerou a poligamia?
A tolerância divina deve ser entendida à luz da “dureza do coração” humano (Mt 19:8). Assim como no caso do divórcio, Deus não impôs imediatamente o ideal, mas conduziu Seu povo progressivamente — primeiro restringindo abusos e, posteriormente, restaurando plenamente o padrão original em Cristo.
Essa abordagem revela uma pedagogia divina paciente: Deus trabalha dentro das limitações humanas sem abandonar Seu propósito final.
O ideal restaurado no Novo Testamento
Com a Nova Aliança, o padrão monogâmico é reafirmado de forma clara.
- Jesus retoma Gênesis 2:24 (Mt 19:4-6) e reafirma a união exclusiva entre um homem e uma mulher.
- Paulo exige que líderes da igreja sejam “marido de uma só mulher” (1Tm 3:2,12), destacando a fidelidade conjugal como requisito moral.
- Efésios 5 apresenta o casamento como reflexo do amor exclusivo de Cristo por Sua Igreja.
- 1 Coríntios 7:2 orienta relações conjugais exclusivas como proteção contra a imoralidade.
Respostas a objeções comuns
1. “Deus abençoou Salomão, mesmo sendo polígamo.”
As bênçãos concedidas a Salomão não legitimam sua poligamia. Pelo contrário, a própria Escritura mostra que suas múltiplas esposas desviaram seu coração e resultaram no juízo divino sobre Israel (1Rs 11:11-13).
2. “A Bíblia nunca proibiu explicitamente a poligamia.”
Embora não haja um mandamento direto nesse sentido, a Bíblia consistentemente reafirma o ideal monogâmico (Gn 2:24; Mt 19:4-6) e adverte contra o acúmulo de esposas por parte dos reis (Dt 17:17), sinalizando sua incompatibilidade com o propósito divino.
Conclusão
A poligamia aparece na Bíblia como uma realidade cultural tolerada, mas nunca aprovada por Deus. Desde Gênesis, o casamento foi estabelecido como uma união exclusiva entre um homem e uma mulher — padrão reafirmado por Cristo no Novo Testamento.
Assim, o chamado cristão é viver relacionamentos que reflitam o amor fiel, sacrificial e exclusivo de Cristo por Sua Igreja, honrando o desígnio divino para o matrimônio.
Referências e leituras recomendadas:
As obras e estudos abaixo são amplamente utilizados em pesquisas sobre o contexto histórico do Antigo Oriente Médio, a interpretação de Gênesis e a compreensão bíblica do casamento e da poligamia. Elas ajudam a fundamentar a análise apresentada neste artigo:
- Mulvaney, Ryan M. (2019). Polygamy in the Old Testament. Paper acadêmico apresentado no New Orleans Baptist Theological Seminary. Disponível em: https://www.academia.edu/116954049/Polygamy_in_the_Old_Testament
- Wenham, Gordon J. Genesis 1–15. Word Biblical Commentary. Zondervan Academic, 2014.
- Keener, Craig S. Comentário Histórico-Cultural do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2017.
- IVP Bible Background Commentary: Old Testament. InterVarsity Press, 2012. (Comentário de contexto histórico e cultural do Antigo Testamento).
Imagem: hypescience.com









