História Bíblica

Quem foi Lilith? A história que não te contaram

1675

Digite “Lilith” em qualquer buscador e você encontrará quase sempre a mesma história. Lilith teria sido a primeira esposa de Adão, criada junto com ele, mas teria abandonado o Éden depois de se recusar a submeter-se ao marido. É uma narrativa fascinante, sobretudo porque costuma ser apresentada como uma verdade antiga que teria sido apagada ou escondida. Mas isso levanta uma pergunta inevitável: que evidência existe de que essa história algum dia tenha feito parte da Bíblia? Até onde sabemos, nenhuma.

A história de uma primeira esposa rebelde não aparece em manuscrito bíblico algum, nem é retomada por qualquer autor das Escrituras quando o relato da criação volta à discussão. O nome, esse sim, surge uma única vez, em Isaías 34:14. Mas o modo como os antigos leitores entenderam o termo é revelador. A Septuaginta nem sequer o preserva como nome próprio; a Vulgata o traduz por lamia; e as versões posteriores oscilam entre coruja, criatura noturna e fantasma. Nenhuma delas viu ali a primeira mulher de Adão. Curiosamente, a suposta “verdade antiga” parece ter passado despercebida justamente por aqueles que estavam historicamente mais próximos dela.

De onde veio, então, essa história? A resposta passa por três fontes muito diferentes: a demonologia da antiga Mesopotâmia, uma única linha do livro de Isaías e uma narrativa medieval que a maioria das pessoas que repete a lenda jamais leu. Vale a pena examiná-las em sua ordem histórica, porque isso nos permitirá entender não apenas de onde veio a figura de Lilith, mas também como uma tradição tardia pode, com o tempo, ser confundida com aquilo que a Bíblia realmente diz.

A única menção bíblica: Isaías 34:14

O único lugar em toda a Escritura em que a palavra “Lilith” aparece é numa profecia de juízo contra Edom. Isaías descreve a terra reduzida a ruínas e entregue aos animais do deserto — corvos, avestruzes, bodes selvagens e hienas. É em meio a essa lista que surge lîlîṯ:

“Os gatos selvagens conviverão aí com as hienas, os sátiros chamarão os seus companheiros. Ali descansará Lilith, e achará um pouso para si.” (Isaías 34,14, Bíblia de Jerusalém)

O que, então, é essa lîlîṯ? Algumas traduções vertem a palavra por “coruja” ou “ave noturna”, entendendo-a como mais um animal do descampado. Outros intérpretes observam que ela aparece ao lado do śāʿîr, o sátiro ou “bode-demônio”, uma criatura da demonologia do Antigo Oriente Próximo, e por isso muitos hebraístas leem lîlîṯ no mesmo registro: um espírito ou demônio da noite aparentado ao lilītu mesopotâmico. A NRSV — Nova Versão Padrão Revisada, amplamente utilizada em ambientes acadêmicos — simplesmente preserva o nome “Lilith”. A questão de saber se Isaías tinha em mente uma ave ou um espírito continua aberta, mas não precisamos resolvê-la.

Isso porque a conclusão permanece a mesma em qualquer dos casos. Suponha que Isaías esteja de fato falando de um demônio noturno. Ainda assim, tudo o que temos é uma palavra incluída numa descrição da desolação de Edom. O texto nada diz sobre a criação, Adão, o Éden, casamento, rebelião ou uma reivindicação de igualdade.

O salto realizado pela lenda, portanto, não é de “animal” para “demônio”; isso pouco mudaria a questão. O verdadeiro salto é transformar uma figura mencionada de passagem numa profecia sobre Edom na primeira mulher da humanidade, esposa de Adão e predecessora de Eva. Nada no versículo sustenta essa identificação. Ela foi acrescentada depois. Muito depois.

As raízes antigas: a Mesopotâmia

Antes de Lilith se tornar uma personagem, o nome designava uma categoria. Nas tradições suméria, babilônica e assíria, circulava toda uma classe de espíritos noturnos — os lilû, masculinos, e as lilîtu, femininas — associados ao vento, à noite e ao perigo. A ardat-lilî, por exemplo, era descrita como um espírito que assediava homens, enquanto figuras próximas, como a temível Lamashtu, ameaçavam mulheres grávidas e recém-nascidos. Não estamos, portanto, diante de uma única vilã com uma história definida, mas de todo um repertório de temores noturnos aos quais o mundo antigo dava nomes e formas.

Uma interpretação mais antiga chegou a identificar Lilith com o demônio ki-sikil-lil-la, que habita a árvore huluppu no ciclo sumério relacionado a Gilgamés. Essa identificação, porém, é hoje contestada entre os assiriólogos, de modo que seria imprudente apoiar nela qualquer conclusão importante. O que podemos afirmar com maior segurança é mais modesto, mas também mais interessante: muito antes de qualquer texto bíblico, já existia uma família de espíritos noturnos femininos cujo eco, tanto linguístico quanto funcional, parece ressoar na palavra hebraica empregada por Isaías.

O demônio feminino no judaísmo rabínico

É na literatura judaica posterior (sobretudo no Talmude e nos midrashim) que esses traços dispersos começam a se reunir numa figura mais definida. Lilith passa a ser descrita com forma feminina, cabelos longos e asas. Surge como uma ameaça aos homens que dormem sozinhos e, sobretudo, aos recém-nascidos, a cuja morte seu nome era associado. O Talmude menciona ainda um demônio chamado Hormin, filho de Lilith. É nesse ambiente que a antiga lilîtu mesopotâmica acaba se misturando aos temores judaicos ligados ao parto e à mortalidade infantil.

Repare que, até aqui, nada foi dito sobre Adão. A Lilith da literatura rabínica é um demônio da noite, não uma antiga esposa do primeiro homem. A peça que falta, e que fará toda a diferença na cultura popular, só vai aparecer mais tarde, e num texto de natureza bem particular.

A verdadeira origem da “primeira esposa”: o Alfabeto de Ben Sira

Se a história da “primeira esposa de Adão” não vem da Bíblia nem do Talmude, de onde ela vem? Nesse caso, podemos apontar para um texto específico. A narrativa completa aparece pela primeira vez no chamado Alfabeto de Ben Sira, uma obra composta em algum momento entre os séculos VIII e X da era cristã — mais de mil e quinhentos anos depois do Gênesis. É ali que encontramos, enfim, os elementos da história como hoje a conhecemos: Lilith criada do barro assim como Adão, sua recusa em submeter-se a ele sob o argumento de que ambos eram iguais por terem a mesma origem, a pronúncia do Nome divino, a fuga do Éden e os três anjos — Senoy, Sansenoy e Semangelof — enviados para trazê-la de volta.

É verdade, porém, que a ideia de uma mulher anterior a Eva não nasceu com o Alfabeto de Ben Sira. Os próprios rabinos já haviam se deparado com uma dificuldade nos primeiros capítulos de Gênesis. Em Gênesis 1, homem e mulher aparecem criados juntos; em Gênesis 2, Eva surge mais tarde, formada da costela de Adão. Na tentativa de harmonizar os dois relatos, alguns intérpretes passaram a especular sobre uma espécie de “primeira Eva”, ideia que aparece inclusive no Gênesis Rabá.

Mas aqui está o ponto decisivo: essa mulher não se chama Lilith. As duas tradições ainda não são a mesma coisa. De um lado, havia a antiga figura de Lilith, ligada ao mundo dos espíritos noturnos; de outro, uma especulação rabínica sobre uma mulher anterior a Eva. O que o Alfabeto de Ben Sira faz é juntar essas duas linhas e transformá-las numa única personagem. É somente a partir disso que Lilith se torna a mulher criada com Adão e, portanto, a suposta primeira esposa que a tradição popular conhece hoje.

Pois bem, há um detalhe sobre essa fonte que raramente é mencionado quando a história é contada. O Alfabeto de Ben Sira não é um texto sagrado, devocional ou sequer uma obra que pretenda ser inteiramente séria. Trata-se de um escrito de humor grosseiro, provavelmente satírico. David Stern chegou a descrevê-lo como o primeiro exemplo de paródia na literatura rabínica clássica. O texto discute com aparente gravidade assuntos como flatulência, masturbação e o acasalamento de corvos; e o próprio Ben Sira, apresentado como personagem piedoso, é dado como fruto de uma concepção grotesca: o sêmen do profeta Jeremias, forçado a se masturbar num banho ritual, teria fecundado ali a própria filha. Isso não significa que cada linha da obra deva ser tomada como piada, alguns estudiosos entendem que nela há material midráshico genuíno misturado à sátira, mas ninguém que conheça o texto e esteja em sã consciência o confunde com fonte de doutrina.

E é justamente sobre esse fundamento que repousa, em sua forma conhecida, a afirmação de que Lilith teria sido a primeira esposa de Adão. Sua origem não está num relato perdido do Gênesis nem numa antiga tradição preservada pelo Talmude, mas numa obra medieval de caráter satírico que imitava e parodiava a própria tradição rabínica. Construir sobre ela uma tese acerca das origens da humanidade seria algo semelhante a reconstruir a história de uma família a partir de uma charge de jornal. Foi sobre essa base que a tradição posterior começou a construir a Lilith que hoje conhecemos.

Lilith na cabala

Na tradição cabalística, a figura de Lilith se amplia e ganha contornos ainda mais sombrios. Ela passa a ser contada entre as quatro “mães dos demônios”, ao lado de Agrat, Mahalath e Naamah, e é associada a Samael, uma espécie de anjo da destruição. Juntos, formam um par sombrio que espelha e inverte a união celeste, como um contraponto impuro à Shekhiná, a presença divina. Lilith já não é apenas o espírito que ronda o berço ou ameaça os homens durante a noite. Torna-se símbolo de toda uma ordem de transgressão, a face feminina do mal cósmico. Assim, aquela figura que em Isaías talvez não passasse de uma palavra obscura num oráculo de juízo chega ao fim de sua trajetória medieval como rainha de um verdadeiro reino de sombras.

Amuletos e a vida prática do mito

No entanto, um mito com essa força dificilmente permaneceria apenas nos livros. Em comunidades judaicas antigas e medievais, o medo de Lilith ganhou expressão prática por meio de amuletos e encantamentos destinados a proteger mulheres no parto e recém-nascidos. Muitos deles traziam inscritos justamente os nomes dos três anjos mencionados no Alfabeto de Ben Sira.

As chamadas tigelas de encantamento babilônicas (recipientes de cerâmica gravados com fórmulas destinadas a expulsar demônios e datados aproximadamente dos séculos IV a VIII da era cristã) frequentemente apresentam a imagem de uma lilith acorrentada no centro. Aqui, porém, é importante não misturar evidências diferentes. Essas tigelas pertencem a um contexto babilônico relativamente tardio. Nos manuscritos de Qumran, bem anteriores, o nome também aparece, nas composições conhecidas como 4Q510–511, entre referências a espíritos malignos. Mas estamos falando de épocas e contextos distintos. Uma evidência não deve simplesmente ser somada à outra como se ambas testemunhassem a mesma tradição.

A Lilith moderna: da ameaça ao emblema

Então ocorreu uma transformação que dificilmente teria sido imaginada pelos antigos. A figura que durante séculos representou a ameaça noturna, o perigo ligado ao parto e à sedução destrutiva, foi reabilitada pela cultura contemporânea e transformada em emblema.

Lida à luz de valores modernos, a Lilith que se recusa à submissão e reivindica igualdade deixa de ser vista como demônio e passa a funcionar como símbolo de resistência, aparecendo na literatura, na arte e no discurso contemporâneo. Como fenômeno cultural, essa ressignificação é perfeitamente compreensível. E ela também revela algo importante sobre a própria história de Lilith: o mito nunca permaneceu inteiramente fixo. Cada época recebeu a personagem que herdou e a remodelou de acordo com suas próprias preocupações.

Conclusão

Voltemos agora ao que discutimos no início. A afirmação que costuma abrir qualquer discussão popular sobre Lilith — de que ela teria sido a primeira esposa de Adão — simplesmente não resiste ao exame histórico. E o problema não é apenas que falte um versículo que conte essa história. É que podemos acompanhar o desenvolvimento de suas diferentes peças, e nenhuma delas nos leva de volta ao Gênesis. O único texto bíblico em que aparece lîlîṯ, Isaías 34:14, fala, no máximo, de uma figura ou espírito noturno entre as ruínas de Edom. A mulher criada junto com Adão, a reivindicação de igualdade e a fuga do Éden entram na história muito mais tarde, num escrito medieval que tratava a própria tradição rabínica com evidente humor e sátira.

Penso que isso não torna Lilith menos interessante. Poucas figuras permitem acompanhar com tanta clareza o modo como um mito pode atravessar culturas e assumir significados inteiramente novos. A lilîtu associada aos perigos da noite e do parto acabou se tornando, séculos depois, símbolo de emancipação e resistência. Nesse sentido, Lilith funciona quase como um espelho: cada época recebeu a personagem e nela projetou seus próprios medos, valores e preocupações.

Acredito que não há problema algum em estudar essa história, reinterpretá-la na literatura ou empregá-la como símbolo cultural. O problema começa quando essa longa história posterior é projetada de volta sobre o Gênesis e apresentada como algo que teria estado ali desde o princípio. Porque, quando seguimos as evidências em sua ordem histórica, é justamente isso que não encontramos: uma primeira esposa de Adão escondida nas páginas da Bíblia. Encontramos uma personagem que levou muitos séculos para se tornar aquilo que hoje chamamos de Lilith.


Referências:

Scholem, Gershom. “Lilith.” In: Encyclopaedia Judaica. Jerusalém, 1971. (Verbete de referência do qual provém a documentação primária mais antiga aqui mencionada — R. Margaliot, Malʾakhei ʿElyon, 1945, pp. 235–241; L. Ginzberg, The Legends of the Jews, vol. 5, 1925, p. 87; e os estudos do próprio Scholem em Kiryat Sefer 10, 1934/35, pp. 68–73, e Tarbiz 19, 1947/48, pp. 165–175, todos em hebraico e não consultados de forma direta neste artigo.)

Lesses, Rebecca. “Exe(o)rcising Power: Women as Sorceresses, Exorcists, and Demonesses in Babylonian Jewish Society of Late Antiquity.” Journal of the American Academy of Religion, vol. 69, n. 2, 2001, pp. 343–375.

Dan, Joseph. “Samael, Lilith, and the Concept of Evil in Early Kabbalah.” AJS Review, vol. 5, 1980, pp. 17–40.

Stern, David; Mirsky, Mark J. (eds.). Rabbinic Fantasies: Imaginative Narratives from Classical Hebrew Literature. Jewish Publication Society, 1990. (Tradução e estudo do Alfabeto de Ben Sira, base para sua caracterização como paródia.)


Imagem: Relevo de Burney, também chamado “A Rainha da Noite”. Mesopotâmia, período paleobabilônico (c. 1800–1750 a.C.), British Museum. É comum ver essa peça apresentada como uma representação de Lilith, mas o próprio British Museum não a identifica assim: a associação foi proposta nos anos 1930 e hoje é largamente abandonada, com os estudiosos favorecendo Ishtar/Inanna ou Ereshkigal. A imagem ilustra, portanto, não Lilith, mas exatamente o tipo de projeção retroativa que este artigo procura desfazer. Fonte: Wikimedia Commons / British Museum.

Leia também:

Creatio ex nihilo: resposta às objeções mórmons sobre a criação

O Sábado foi transgredido por Jesus? Veja o que a Bíblia diz

Os Frutos do Espírito em Gálatas 5:22-23

img

Graduando em História pela Universidade Estácio de Sá e estudioso de Teologia, defende a premissa de que o conhecimento se torna verdadeiramente valioso quando compartilhado. Junte-se a mim nessa jornada!

Deixe uma resposta

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

Artigos Relacionados