Heródoto, o pai da historiografia grega, registrou no século V a.C. uma observação que a maioria dos cristãos desconhece: foram os egípcios os primeiros a ensinar que o ser humano possui uma alma imortal e separável do corpo no momento da morte. “Essa ideia foi adotada em diferentes períodos de tempo por alguns dentre os gregos como se fosse sua própria”, escreveu ele. O detalhe que Heródoto não poderia ter previsto é que, milênios depois, essa mesma ideia seria ensinada em igrejas cristãs como se fosse uma doutrina bíblica indiscutível.
No entanto, rastrear a genealogia de uma crença não é o mesmo que refutá-la. Uma ideia pode ter origem em qualquer lugar e ainda ser verdadeira. Mas quando a genealogia aponta consistentemente para fora da revelação bíblica — e quando o exame das Escrituras, em vez de confirmar a doutrina, a contradiz — a pergunta sobre a origem deixa de ser apenas histórica. Torna-se teológica. É essa investigação que este artigo propõe: não pressupor que a imortalidade da alma é falsa porque é pagã, mas mostrar que ela é pagã e que, por razões independentes, também não encontra sustentação na Bíblia.
Penso que o percurso histórico que precede essa conclusão tem pelo menos quatro estágios que vale examinar com cuidado.
Os egípcios e a origem da crença na imortalidade da alma
Em nenhum lugar do mundo antigo havia mais preocupação com a vida após a morte do que no Egito. As dezenas de tumbas encontradas às margens do Nilo demonstram uma crença elaborada na continuidade consciente após a morte. Para se preparar para o outro mundo, os egípcios consumiam quantidade astronômica de tempo e recursos. Rituais eram meticulosamente desenvolvidos para preparar os faraós para a jornada pós-morte; os corpos eram depositados em pirâmides e tumbas cheias de tudo que os mortos supostamente precisariam no mundo dos espíritos.
O Papiro de Ani, datado por volta de 1275 a.C. e traduzido para o inglês por E. A. Wallis Budge sob o título The Egyptian Book of The Dead, descreve com detalhes a jornada da alma rumo ao Sekhet-Aaru — os campos de junco, que na mitologia egípcia representam o paraíso dos que superaram o juízo de Osíris. O esquema é notavelmente familiar: alma que sobrevive ao corpo, julgamento após a morte, destino diferente para justos e ímpios. Essa arquitetura não surgiu da revelação hebraica.
Os gregos e a sistematização filosófica
Ora, de acordo com Heródoto, os gregos absorveram a crença egípcia. O filósofo Sócrates (470–399 a.C.) viajou ao Egito para estudar o que os egípcios ensinavam sobre a imortalidade da alma e, ao retornar, transmitiu esses ensinamentos ao seu discípulo mais famoso, Platão (428–348 a.C.).
Em sua obra Fédon, Platão relata a última conversa de Sócrates com seus amigos, antes de ser executado. Várias vezes nesse diálogo, Sócrates declara que a morte é simplesmente a “separação da alma do corpo” em que está aprisionada — e que a morte, por isso, não deve ser temida pelo filósofo, que passa a vida se preparando para essa libertação. A linguagem é curiosamente familiar a quem frequenta igrejas cristãs hoje.
O crítico poderia objetar neste ponto que identificar a origem pagã de uma doutrina não é argumento suficiente para refutá-la. Afinal, uma ideia pode ser verdadeira independentemente de quem a sustentou primeiro. Essa objeção é filosoficamente legítima e não deve ser descartada. A questão, porém, não é apenas genealógica. O argumento não é “os gregos acreditavam nisso, logo é falso”. O argumento é que a doutrina penetrou no cristianismo por um canal específico e identificável — a filosofia platônica mediada por pensadores que operavam deliberadamente entre dois mundos — e que, quando examinamos o que a Bíblia ensina sobre a natureza humana, em vez de confirmar a doutrina, a contradiz. A genealogia nesse caso não é a prova, mas o rastro que leva à investigação. A prova está no texto. (A segunda parte deste artigo examina esse argumento bíblico em detalhe.)
A igreja cristã primitiva não acreditava na imortalidade da alma
Pois bem — há um detalhe histórico que costuma surpreender: a Igreja cristã primitiva não ensinava a imortalidade da alma. Jesus e os apóstolos apresentavam a imortalidade não como atributo inato do ser humano, mas como dom que seria concedido aos justos na ressurreição.
Esse ensino foi encontrado inalterado em todos os escritos dos pais apostólicos — Barnabé de Alexandria, Clemente de Roma, Policarpo de Esmirna, Hermas de Roma, Inácio de Antioquia, e na Didaquê — e nos escritos de vários autores posteriores, como Justino, Irineu, Novaciano, Arnóbio e Lactâncio. Le Roy Edwin Froom, em seu estudo sobre os pais apostólicos, conclui citando uma pesquisa do padre anglicano Henry Constable: “Do princípio ao fim, não há neles nenhuma palavra sobre imortalidade da alma, que seja tão proeminente nos escritos dos pais posteriores. A imortalidade é para eles direito assegurado aos redimidos.”
O ensino platônico foi introduzido no judaísmo helenístico* pelo filósofo judeu Filo de Alexandria (c. 20 a.C.–47 d.C.), que tentou harmonizar Platão com Moisés. Mais tarde, entrou no cristianismo por meio de quatro pensadores cujo impacto ainda é sentido, e que vale examinar individualmente.
Quatro pensadores que moldaram a doutrina
1. Tertuliano e o tormento eterno
Tertuliano (c. 155–240) foi o primeiro grande teólogo cristão a sistematizar a doutrina do tormento eterno dos ímpios, como consequência lógica da imortalidade da alma. Se toda alma é imortal, salva ou perdida, então o destino dos condenados é sofrer eternamente. Ele afirmou explicitamente: “Pois algumas coisas se conhecem até pela natureza: a imortalidade da alma, por exemplo, é crida por muitos. Posso utilizar, portanto, a opinião de Platão, quando declara: ‘Toda alma é imortal’.” O apelo a Platão é direto e assumido.
Há uma implicação teológica aqui que merece atenção. Se os salvos desfrutam de felicidade eterna enquanto contemplam o sofrimento sem fim de outros seres humanos — incluindo, em muitos casos, pessoas que amaram em vida — torna-se difícil sustentar que o paraíso seja de fato um lugar de bem-aventurança plena. Seria Deus um psicopata que transforma os salvos também em psicopatas após irem para o céu, a fim de que continuem felizes enquanto veem outros seres humanos queimando no fogo?
2. Orígenes e a restauração universal dos ímpios
Orígenes (c. 185–254), considerado o homem mais erudito de sua geração, rejeitou o tormento eterno de Tertuliano, mas por razões que o levaram ainda mais longe da posição bíblica. Ele ensinava que a alma é uma substância de “natureza eterna”, participante da natureza divina e, por isso, não poderia ser destruída nem sofrer eternamente. A única alternativa lógica que lhe restava era a restauração universal: após um período de castigo corretivo, até os pecadores mais cruéis — inclusive o próprio Diabo e seus demônios — seriam eventualmente sujeitos a Deus.
Essa ideia consegue ser pior do que a de Tertuliano. Se Satanás, seus anjos maus e os seres humanos que se rebelaram contra Deus por livre-arbítrio serão restaurados de modo que todos voltem a ser subordinados a Deus, então o livre-arbítrio lhes será retirado. Sendo assim, por que Deus simplesmente não lhes removeu a possibilidade de escolha antes que se rebelassem? Teria evitado muito sofrimento.
Assim, tanto a doutrina de Tertuliano, do tormento eterno, quanto a de Orígenes, da purificação universal, são antibíblicas. As conclusões são opostas precisamente porque a premissa é insustentável — e os dois pensadores chegam a destinos teológicos diferentes não porque um leu melhor a Bíblia, mas porque os dois partiram de Platão e chegaram onde a lógica os levou.
3. Agostinho e o ensino modificado da alma imortal
Agostinho (354–430), o famoso bispo de Hipona, exerceu uma influência tão vasta que suas posições sobre a imortalidade da alma e o castigo eterno atravessaram séculos. Certa ocasião, ele perguntou: “Existe algum homem simples ou analfabeto ou mulher obscura que não acredite na imortalidade da alma e numa vida futura?” Esta pergunta mostra que a crença na imortalidade da alma já prevalecia naquela época, e que a Bíblia servia mais como peça de decoração do que como fonte de conhecimento.
Segundo Agostinho, a morte é apenas a destruição do corpo, mas a alma imortal continuará vivendo no céu ou sendo atormentada para sempre no inferno. Em seu livro A Cidade de Deus, ele escreveu que a alma “é, portanto, chamada de imortal, porque em certo sentido ela não cessa de viver e sentir; e o corpo é chamado de mortal porque pode ser abandonado por toda a vida e não pode sobreviver sozinho.”
Agostinho modificou a ideia de Platão sobre a alma, ensinando que o ser humano é uma alma que se utiliza de um corpo mortal e material, mas a alma não está aprisionada no corpo como Platão afirmava, nem é preexistente, mas passa a existir quando encarna em um corpo. Essa versão modificada do platonismo, defendida por Agostinho, foi popular em grande parte do pensamento católico medieval até o advento de Tomás de Aquino.
4. Tomás de Aquino e a definição católica
Tomás de Aquino (1225–1274), o maior teólogo católico, recebeu forte influência da filosofia aristotélica. Diferentemente de Agostinho, defendia que a alma é a “forma do corpo”, não uma substância separada que o habita, mas o princípio que o organiza e lhe confere existência humana. Embora mais sofisticada, sua posição mantinha o essencial: a alma pode existir independentemente do corpo após a morte, aguardando a ressurreição para se reunir a ele.
Essa definição tornou-se o ensino oficial da Igreja Católica. O Catecismo da Igreja Católica ainda reflete isso: “A Igreja ensina que cada alma espiritual é criada por Deus de modo imediato e não produzida pelos pais; e que é imortal, isto é, não morre quando, na morte, se separa do corpo; e que se unirá de novo ao corpo na ressurreição final.”
A meu ver, o que esse percurso mostra não é apenas que a doutrina tem raízes pagãs, mas que sua entrada no cristianismo seguiu uma trajetória identificável, mediada por pensadores que o próprio registro histórico mostra operando na fronteira entre a filosofia grega e a fé cristã — e que a Igreja primitiva, mais próxima dos apóstolos, não a conhecia.
Conclusão
A pergunta que este artigo levanta não é apenas histórica. Ela vai além disso: o que acontece quando uma doutrina sem raízes bíblicas ocupa o centro da fé cristã? Para Tertuliano, o resultado foi o tormento eterno. Para Orígenes, a restauração universal. Para Agostinho e Aquino, construções elaboradas que ainda hoje são o alicerce do pensamento católico sobre o destino humano após a morte. O que une essas posições, tão diferentes entre si, não é a Bíblia. O que as une é a filosofia pagã de Platão que possui sua origem na crença egípcia da vida após a morte.
A necessidade da volta de Cristo para conceder a imortalidade aos crentes na ressurreição (1 Co 15:54; 1 Ts 4:16,17) não é uma peculiaridade adventista. É o que a Igreja cristã primitiva ensinava antes que a filosofia grega lhe fornecesse uma alternativa mais confortável. A segunda parte deste artigo examina o que a Bíblia, Antigo e Novo Testamento, realmente diz sobre a natureza humana.
Referências Bibliográficas:
E. A. Wallis Budge, O livro dos Mortos do Antigo Egito (2021), 3ª ed. p. 11-12.
Examinar Le Roy Edwin Froom, The Conditionalist Faith of Our Fathers (1961), v. 1, p. 632 – 755.
Tetuliano, On the Resurrection, capítulo 1, seção 36, em Ante-Nicene Fathers, v. 3, p. 547.
Orígenes, De Principiis, livro 4, capítulo 1, seção 36, em Ante-Nicene Fathers, v. 4, p. 381.
Agostinho, Epistle 137, capítulo 3.
Tomás de Aquino, Summa contra Gentiles IV, 79.
Catecismo da igreja Católica (1994), p. 93.
Samuele Bacchiocchi, Crenças Populares, capítulo 2, p. 48 – 60.
* Helenístico: período intertestamentário, que são os quatro séculos que separam o fim do Antigo Testamento do início do Novo. Nesse mesmo período, um grupo de escritores judeus influenciados pela filosofia de Platão ensinava às pessoas a acreditar na imortalidade da alma e a rezar pelos mortos, além de negar a ressurreição. Os ensinamentos desse grupo podem ser encontrados nos livros apócrifos do Antigo Testamento, e aparecem na Bíblia católica, mas não na Bíblia protestante. Esses livros são: 1 e 2 Macabeus, Baruque, Judite, acréscimos em Daniel e Ester, Eclesiástico, Tobias e Sabedoria de Salomão.
Leia também:
A imortalidade da alma: crença pagã? – Parte 2
O que significam as almas debaixo do altar? Apocalipse 6:9-11














Paulo
Há um equívoco no texto sobre o período helenístico, quando se diz que havia um grupo de escritores judeus que negavam a ressurreição e quando é mencionado o segundo livro de Macabeus entre outros como sendo desses escritores. O segundo livro de Macabeus, é bem verdade, que ensina sobre orar pelos mortos, mas não nega a ressurreição. Muito pelo contrário. No mesmo trecho que se fala sobre orar pelos mortos, fala-se também da crença na ressurreição.