Você já ouviu alguém dizer que o nome Jesus não é o verdadeiro nome do Salvador? Talvez já tenha ouvido algo ainda mais estranho: que esse nome foi adulterado pela Igreja de Roma, formado a partir de divindades pagãs e que, quando devolvido ao hebraico, significaria literalmente “Deus é cavalo”.
Pode parecer uma daquelas afirmações tão extravagantes que não merecem resposta. Mas ela circula há décadas e é defendida seriamente por grupos religiosos que sustentam que o Messias deve ser chamado por seu verdadeiro Nome: “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (Atos 4:12). Para alguns deles, porém, há muito mais em jogo do que uma questão de pronúncia. Se a salvação está no Nome, usar o nome errado poderia significar estar invocando alguém que não é o verdadeiro Messias. Antes de perguntarmos qual nome um cristão deveria usar, portanto, precisamos saber se a história sobre a origem do nome Jesus é verdadeira. E, antes de examinarmos as evidências, penso que vale entender de onde veio essa crença.
A história moderna dessa ideia nos leva a Clarence Orvil Dodd (1899-1955), membro da Igreja de Deus do Sétimo Dia que, em 1937, fundou em Salem, na Virgínia Ocidental, EUA, a revista The Faith. Poucos anos depois, abraçou a causa que ficaria conhecida como o movimento dos nomes sagrados. Ao Brasil, o movimento chegou por volta de 1987 e aqui se ramificou em grupos que o Instituto Cristão de Pesquisas identifica como as Testemunhas de Yehoshua, os Gideões de Yehoshua Hamashiach e a Igreja do Deus Yehoshua. O interessante é que nem mesmo entre os defensores do Nome existe acordo completo sobre qual seria sua forma correta. As variações mais debatidas são Yehoshua, Yahshua e Yaohushua.
Várias afirmações diferentes costumam aparecer juntas nessa acusação, como se fossem uma só. Precisamos, portanto, separá-las antes de prosseguirmos. A primeira é histórica. Os defensores dessa posição dizem que o nome Jesus não era conhecido pela igreja apostólica, mas teria surgido posteriormente como uma criação da Igreja de Roma. Na versão mais difundida da história, Jerônimo, a pedido do papa Dâmaso, teria adulterado o nome do Messias na Vulgata Latina a fim de torná-lo aceitável aos pagãos.
Há também uma alegação etimológica. É aqui que aparecem as conhecidas decomposições do nome. “Jesus” seria J, de Júpiter, mais Esus, o deus celta dos bosques da Gália. Em outra versão, o nome grego esconderia Io, a amada de Zeus, e o próprio Zeus. E, se o analisarmos no idioma hebraico, Ye significaria Deus e sus, cavalo. Daí a conclusão de que “Jesus” significaria “Deus é cavalo”.
Sobre essas duas alegações repousa uma conclusão teológica. Se a salvação está no Nome e o nome Jesus é uma invenção pagã, então aquele que o invoca não estaria simplesmente pronunciando de maneira diferente o nome do Messias, e sim invocando outro nome.
Essa conclusão teológica é importante, mas não devemos começar por ela. Antes de perguntar qual nome um cristão deve usar, precisamos descobrir se as premissas que sustentam a acusação são verdadeiras. Jesus foi realmente inventado no século IV? Sua origem tem alguma relação com Júpiter, Esus ou Zeus? Se o nome Jesus foi fabricado pela Igreja de Roma, a história deve deixar algum vestígio disso. Se foi formado a partir de Júpiter, Esus ou Zeus, a linguística deve ser capaz de demonstrá-lo. Então talvez seja melhor começar pelo ponto mais simples: quando, afinal, surgiu o J de Jesus?
O “J” que não existia
A distinção entre I e J como letras separadas, com valores próprios, só foi proposta muitos séculos depois, pelo humanista italiano Gian Giorgio Trissino, num opúsculo publicado em 1524 — cerca de onze séculos depois depois do trabalho de Jerônimo na Vulgata. É verdade que havia diferentes formas gráficas do I no latim, inclusive um traço alongado usado às vezes para marcar a semivogal. Mas isso não significa que houvesse duas letras. Havia apenas o I.
E os próprios manuscritos tornam isso bastante fácil de ver. Nos textos cristãos latinos, o nome frequentemente aparece abreviado como IHS, forma herdada do grego ΙΗΣ. Quando escrito por extenso, temos IESVS. Não há J, assim como não há U, porque o latim clássico ainda não fazia essas distinções gráficas. Júpiter, por sua vez, era escrito como IVPPITER, e seu genitivo era IOVIS. Portanto, se o argumento é que o J de “Jesus” foi tomado do J de “Júpiter”, temos um primeiro problema: nenhuma das duas palavras possuía um J.
Nesse ponto, um defensor mais cuidadoso poderá objetar: “Mas o argumento não depende da letra. O que importa é o som. O I inicial de IVPPITER e o de IESVS tinham valor consonantal, justamente o uso que mais tarde passaria a ser distinguido graficamente pelo J”
Muito bem. Essa é uma objeção legítima. Mas ela não nos leva a Júpiter. O valor consonantal desse I tem uma explicação perfeitamente comum dentro do próprio latim. Quando aparecia diante de vogal, o I podia assumir valor consonantal. Não era necessário tomar esse som emprestado do nome de um deus; era simplesmente uma característica da língua. O mesmo ocorre em palavras como iam, iustus e Iesus. E há ainda uma segunda explicação, independente dessa: o nome já nascera com esse som lá atrás, no hebraico, onde Yeshuaʿ começa com iode. São duas rotas distintas até o mesmo resultado, e nenhuma delas passa pelo deus Júpiter.
Portanto, temos duas coisas que a tese precisa explicar e nenhuma delas aponta para o deus Júpiter. O J como letra ainda não existia, e o som que mais tarde seria representado por ele já tinha explicação tanto no funcionamento do latim quanto na forma hebraica do nome. Isso se torna especialmente importante porque a acusação popular não fala apenas de uma vaga semelhança sonora. Ela literalmente separa J + Esus e atribui o primeiro elemento a Júpiter. Mas o J que supostamente teria sido retirado de Júpiter não existia como letra — e Júpiter tampouco o possuía.
E quanto a Esus? Aqui a história fica ainda mais interessante. Lucano, poeta romano do primeiro século, menciona, no livro Farsália, três divindades gaulesas: Teutates, Esus e Taranis (I.444-446). Ele as caracteriza brevemente, mas não diz que sejam equivalentes a deuses romanos. Essas identificações aparecem posteriormente nos chamados escólios de Berna, comentários anônimos que apresentam um inconveniente para quem pretende construir uma genealogia segura a partir deles: eles discordam entre si. Em um conjunto de comentários, Esus é identificado com Marte e Taranis com Dis Pater. Em outro, Esus torna-se Mercúrio e Taranis, Júpiter. Portanto, mesmo se aceitássemos essas identificações tardias, elas não fariam de Esus um deus romano, muito menos uma espécie de equivalente celta de Júpiter.
O problema, então, começa a aparecer. Das várias centenas de nomes divinos contendo elementos celtas atestados na Gália, a maioria ocorre uma única vez. Há uma enorme variedade de divindades e nomes locais. Escolher justamente Teutates, Esus e Taranis, reuni-los como se formassem uma “trindade pagã” e depois transformar Esus em peça de uma composição romana do nome Jesus exige muito mais do que semelhança entre algumas letras. É necessário evidência histórica de que essa composição realmente aconteceu.
E até agora, essa evidência simplesmente não apareceu.
E quanto a Zeus?
Há ainda outra versão da acusação. Em vez de Júpiter + Esus, alguns afirmam que o nome grego Ἰησοῦς teria sido formado a partir de Io, a amada de Zeus, e do próprio Zeus. Aqui temos uma vantagem: as palavras gregas estão diante de nós e podemos simplesmente compará-las.
Zeus, em grego, é Ζεύς, com zeta. O nome do Salvador é Ἰησοῦς — aproximadamente iessús —, com sigma. Não se trata da mesma letra nem do mesmo som. E o problema começa ainda antes. Io é Ἰώ, com iota e ômega, enquanto Ἰησοῦς começa com iota e eta. Portanto, nem a primeira parte nem a segunda correspondem às palavras das quais o nome supostamente teria sido formado.
Temos ainda um detalhe morfológico interessante. Quando o grego forma nomes teofóricos relacionados a Zeus, normalmente não emprega a forma Ζεύς, mas seus radicais oblíquos Δι-/Διο- e Ζην-/Ζηνο-. É daí que vêm nomes como Διογένης (Diogenes, “nascido de Zeus”), Διόδωρος (“dádiva de Zeus”), Ζηνόδωρος, Ζηνόβιος e Ζηνόδοτος. Em Ἰησοῦς, não encontramos nenhum desses radicais.
Não quero fazer esse argumento dizer mais do que pode. Se alguém tivesse deliberadamente inventado um nome, nada o obrigaria a seguir os padrões normais de formação de nomes gregos. Portanto, isso é um indício, não uma demonstração. Mas certamente não fornece apoio à ideia de que Ἰησοῦς tenha sido construído a partir de Zeus.
E agora aparece um problema ainda mais amplo. As etimologias propostas para Jesus parecem se multiplicar conforme procuramos. Já o vi derivado de Zeus, de Esus, do latim sus, “porco”, e até da deusa grega da cura Ἰασώ, cuja forma jônica Ἰησώ realmente começa com as mesmas três letras. Poderíamos perseguir cada uma dessas propostas separadamente, mas isso acabaria nos afastando do ponto principal. Há uma maneira muito mais simples de resolver a questão: descobrir se Ἰησοῦς pode ser explicado normalmente a partir do nome hebraico.
Comecemos, então, pelo sigma. O grego antigo não possuía o som de sh do hebraico. Por isso, o shin hebraico era normalmente representado por sigma. Shelomoh, por exemplo, tornou-se Σαλωμών na Septuaginta, daí o latim Salomon e o nosso Salomão. Mosheh tornou-se Μωϋσῆς, de onde veio Moisés. Yeshaʿyahu tornou-se Ἠσαΐας, de onde temos Isaías.
Com Shimʿon aconteceu algo ligeiramente diferente, e vale a pena fazer a distinção. A transliteração propriamente dita é Συμεών, mas os judeus de língua grega também adotaram, por semelhança sonora, Σίμων, um nome grego que já existia — daí o nome Simão. E o sigma no fim de Ἰησοῦς (iessús)? Também não precisamos de Zeus para explicá-lo. Trata-se da terminação natural do nominativo masculino grego, a mesma que encontramos em nomes como Μωϋσῆς e Ἰούδας.
Assim, aquilo que à primeira vista pode parecer uma combinação misteriosa começa a se revelar bastante normal. O sigma no interior do nome corresponde ao modo como o grego lidava com o shin hebraico; o sigma final pertence à forma masculina grega. Não precisamos recorrer a Zeus, Io ou qualquer outra divindade para explicar nenhum dos dois.
Mas ainda falta a evidência mais importante. Até aqui mostrei que a forma grega não exige nenhuma origem pagã para ser explicada. No entanto, a pergunta decisiva é outra: podemos encontrar Ἰησοῦς em uso antes que Roma tivesse qualquer oportunidade de inventá-lo?
Muito antes de Jerônimo
Pois bem, chegamos ao ponto decisivo. Até aqui vimos que Ἰησοῦς pode ser explicado normalmente a partir do hebraico, sem recorrer a Zeus ou qualquer outra divindade pagã. Mas uma explicação possível ainda não é o mesmo que uma explicação historicamente demonstrada. É fácil dar a impressão de que temos meia dúzia de provas independentes quando, na verdade, algumas delas pertencem à mesma cadeia de transmissão. As antigas Bíblias latinas, por exemplo, dependem do Novo Testamento grego, e este segue uma convenção que já encontramos na Septuaginta. Portanto, não pretendo contar cada testemunho como se fosse um argumento novo. O que importa é seguir o nome através dos documentos.
A melhor maneira de saber se Ἰησοῦς foi realmente uma invenção cristã tardia é voltar a uma época em que ainda nem existia cristianismo. No século III a.C., em Alexandria, tradutores judeus começaram a verter as Escrituras hebraicas para o grego, dando origem ao que conhecemos como Septuaginta. Nessa parte aparece um dado difícil de conciliar com a tese da adulteração romana.
Veja o caso de Josué, filho de Num. Seu nome em hebraico é Yehoshuaʿ, o mesmo nome que mais tarde aparece em sua forma abreviada, Yeshuaʿ. Quando os judeus tiveram de traduzi-lo para o grego, que forma escolheram? Ἰησοῦς — exatamente a forma grega que o Novo Testamento empregaria séculos depois para Jesus de Nazaré.
Para ser mais preciso, na Torá, o nome de Josué aparece na forma longa Yehoshuaʿ, enquanto Ἰησοῦς corresponde mais de perto à forma curta Yeshuaʿ, encontrada nos livros pós-exílicos. Mas isso não muda o ponto principal. Estamos diante de judeus traduzindo um nome hebraico para o grego, dentro de uma tradição judaica, cerca de seiscentos anos antes de Jerônimo nascer.
E isso muda bastante a discussão. Já não estamos procurando palavras que se parecem umas com as outras e tentando imaginar como poderiam ter sido combinadas. Temos o nome hebraico de partida, a forma grega de chegada e uma tradição de tradução historicamente identificável. A forma Ἰησοῦς não deixa um pedaço inexplicado que precise ser preenchido por Zeus, Esus ou qualquer outro nome pagão. Ela já se explica pelo hebraico e pelas possibilidades fonéticas do grego.
Nesse sentido, é aqui que a discussão etimológica realmente se encerra. Quando existe uma derivação documentada que explica o fenômeno, uma segunda derivação construída apenas a partir da semelhança entre letras deixa de ser uma hipótese concorrente. Torna-se desnecessária. Mas a história não para na Septuaginta.
O próprio Novo Testamento grego usa exatamente a mesma forma. Em Atos 7:45 e Hebreus 4:8, Josué, filho de Num, é chamado de Ἰησοῦς. É o mesmo vocábulo empregado para Jesus de Nazaré. A própria King James chegou a transliterá-lo como “Jesus” nesses dois versos, o que ainda hoje causa alguma confusão entre leitores. Isso cria uma situação bastante intrigante para a tese que estamos examinando. Se Ἰησοῦς é uma composição pagã fabricada pela Igreja de Roma no século IV, então os autores do Novo Testamento já estavam usando essa suposta invenção romana para designar Josué, um personagem que viveu mais de mil anos antes de Cristo.
E não era apenas o nome de Josué. Em Colossenses 4:11, Paulo envia saudações de um de seus colaboradores: “Jesus, chamado Justo”. Estamos diante de um judeu cristão, cooperador de Paulo no Reino, que simplesmente se chamava Jesus. O nome era suficientemente comum para que ele precisasse de um qualificativo que o distinguisse de outros.
Josefo confirma o mesmo quadro. No primeiro século, Flávio Josefo emprega Ἰησοῦς para numerosos personagens judeus ao longo de sua obra. E quando ampliamos o olhar para a onomástica judaica da Palestina, a impressão se torna ainda mais clara. O levantamento de Tal Ilan, tabulado por Richard Bauckham, coloca o nome como o sexto nome masculino mais comum no corpus palestino: são 99 ocorrências entre 2.625 registros, contando conjuntamente as duas formas do nome. Os ossuários judaicos do primeiro século também o apresentam repetidamente.
Portanto, não estamos diante de um título religioso inventado especialmente para Jesus de Nazaré, mas diante de um nome judeu real, usado por judeus reais no período em que o cristianismo nasceu. O P⁴⁶, geralmente datado por volta de 200 d.C. — e que, até onde sei, ninguém propôs situar depois do século III — traz o nome na forma abreviada dos nomina sacra: ΙΗΣ, com um traço sobre as letras. Sabemos o que a abreviatura representa tanto pelas formas flexionadas presentes no próprio papiro (ΙΗΣ, ΙΗΥ, ΙΗΝ) quanto pelas grafias plenas preservadas na tradição manuscrita. Não estamos lidando aqui apenas com uma reconstrução teórica. Trata-se de um objeto físico, aproximadamente duzentos anos anterior à Vulgata.
Poderíamos acrescentar o P⁶⁶ e o P⁷⁵, que apresentam as mesmas abreviaturas, mas prefiro não fazê-los carregar um peso de que o argumento não necessita. A datação de ambos é hoje objeto de discussão séria, e há estudiosos que os colocam no século IV. O P⁴⁶ basta para o ponto que estamos estabelecendo.
Também havia Bíblias latinas antes de Jerônimo. A chamada Vetus Latina já circulava antes da Vulgata, e o Codex Vercellensis é tradicionalmente relacionado a Eusébio de Vercelli, morto em 371 d.C. — portanto, antes mesmo da suposta encomenda do papa Dâmaso. Jerônimo não recebeu um cristianismo sem nome e então criou um para ele. Ao trabalhar nos Evangelhos, revisou textos latinos à luz do grego; no Antigo Testamento, traduziu a partir do hebraico.
E há ainda um testemunho especialmente interessante porque nos leva para fora do mundo latino. As igrejas de língua siríaca, fora da jurisdição de Roma, chamam o Redentor de ܝܫܘܥ — Yeshuʿ no siríaco ocidental e Išoʿ no oriental. Aqui estamos novamente em território semítico. Não é necessário imaginar um nome romano sendo levado de volta artificialmente ao Oriente. O nome aramaico permanece em sua própria família linguística, com a mesma consoante inicial e a mesma raiz.
Quando juntamos essas peças, portanto, a história que emerge é muito mais simples do que a teoria da adulteração romana. O nome não desapareceu durante os primeiros séculos para então reaparecer pelas mãos de Jerônimo de forma adulterada. Ele estava no hebraico e no aramaico, passou ao grego entre judeus, aparece no Novo Testamento, em autores judeus, em ossuários, em papiros cristãos, no latim anterior à Vulgata e nas igrejas siríacas. O nome nunca se perdeu. Foi apenas assumindo, em cada língua, a forma que aquela língua comportava.
E o “Deus é cavalo”?
Resta ainda aquela afirmação que talvez seja a mais surpreendente de todas: a de que o nome Jesus, quando levado de volta ao idioma hebraico, significaria “Deus é cavalo”.
Bem, nessa parte não precisamos de uma longa discussão. Basta olhar para as palavras. “Cavalo”, em hebraico, é סוּס (sus): sâmeque, vav, sâmeque. O nome יֵשׁוּעַ (Yeshuaʿ), por sua vez, é formado por iode, shin, vav e ayin. As duas palavras simplesmente não têm a composição que a tese exige. Em Yeshuaʿ não há sequer um sâmeque, e tanto o shin quanto o ayin não encontram correspondente algum em sus. O único elemento gráfico que aparece nas duas formas é o vav, que em ambos os casos participa da representação vocálica do u. Isso, evidentemente, não estabelece qualquer relação etimológica entre as duas palavras.
Mas de onde vem, então, esse “Ye + sus”? Não do nome hebraico. Para encontrá-lo, é preciso partir da forma grega Ἰησοῦς, levá-la de volta ao hebraico e depois tratar essa reconstrução como se fosse a forma original do nome. O problema é que não precisamos reconstruir nada: o nome hebraico יֵשׁוּעַ (Yeshuaʿ) está preservado. E, como acabamos de ver, nele não há nenhum sus. A etimologia só aparece depois que se abandona exatamente a palavra cuja etimologia se pretende explicar.
A origem real do nome é muito menos misteriosa. Sua raiz verbal é ישע, salvar. A forma Yehoshuaʿ significa “YHWH é salvação”, enquanto Yeshuaʿ é a forma abreviada que se firmou depois do exílio babilônico. E não estamos reconstruindo isso por conjectura: a própria Bíblia usa Yeshuaʿ para Josué em Neemias 8:17 e para o filho de Jozadaque em Esdras 5:2.
Portanto, quando perguntamos o que Yeshuaʿ significa, não precisamos desmontar o nome em pedaços escolhidos por semelhança sonora. O hebraico já nos dá sua história, sua origem e seu uso. E “Deus é cavalo” simplesmente não faz parte disso.
Afinal, Yehoshua, Yeshua ou Jesus?
Depois de tudo isso, a resposta à pergunta do título fica bem menos misteriosa. O hebraico Yeshuaʿ passou ao grego como Ἰησοῦς (iessús), daí ao latim como Iesus e, por fim, chegou ao português como Jesus. Em cada passagem, o nome simplesmente se acomodou aos sons e às formas que a nova língua possuía. É o que acontece o tempo todo quando nomes atravessam fronteiras linguísticas.
Isso significa que a história segundo a qual Jesus teria sido inventado pela Igreja de Roma no século IV simplesmente não se sustenta. A forma grega do nome já estava em uso entre judeus séculos antes do cristianismo e aparece em documentos cristãos muito anteriores à Vulgata. Jerônimo chegou tarde demais para inventar aquilo que já existia havia séculos.
O mesmo vale para as etimologias pagãs. O J de Jesus não pode ter sido retirado do J de Júpiter, porque essa letra ainda não existia como letra distinta — e Júpiter tampouco era escrito com ela. No grego, zeta não é sigma, assim como ômega não é eta. E, no hebraico, Yeshuaʿ simplesmente não contém o sus necessário para transformar o nome em “Deus é cavalo”.
Mas talvez o ponto mais importante seja outro. O problema dessas explicações não está apenas em cada erro particular, e sim no método empregado para construí-las. Não descobrimos a origem de uma palavra procurando outras palavras que se parecem com pedaços dela e depois tentando encaixá-las. Seguimos sua história. E, neste caso, podemos acompanhar esse caminho nos próprios documentos: do hebraico ao grego, do grego ao latim e, por fim, às formas modernas do nome.
Por isso, Yehoshua, Yeshua e Jesus não são nomes rivais entre os quais precisamos descobrir qual escapou de uma adulteração pagã. Estamos olhando para formas historicamente relacionadas de um mesmo nome, moldadas pelas línguas pelas quais ele passou. A história é menos exótica do que a acusação. Mas é também muito melhor documentada.
Referências Consultadas:
1. A acusação, com estes termos, pode ser lida em português em sítios do movimento — por exemplo em http://igrejayaohushua.blogspot.com/2018/05/sobre-origem-do-nome-jesus.html, onde se propõe também a derivação a partir de Ἰασώ, e em https://verdade-messias.blogspot.com/p/yaohushua.html, que traz a combinação “J de Júpiter” com o Esus gaulês. A variante que lê o sus como o latim sus, suis (“porco”) circula em material avulso na internet brasileira.
2. Instituto Cristão de Pesquisas, “Os adeptos do nome Yehoshua e Suas Variantes – Parte 01 – Introdução”, https://www.icp.com.br/apologetica160.asp — de onde vêm a datação da chegada ao Brasil e a nomenclatura dos três grupos. Trata-se de fonte apologética, e não de estudo acadêmico; registro-a como tal. Sobre a origem norte-americana e sobre C. O. Dodd, ver Nathan Fredrickson, “Sacred Name Movement”, em Encyclopedia of Christianity in the United States, ed. George Thomas Kurian e Mark A. Lamport (Lanham, MD: Rowman & Littlefield, 2016), 2003-2005, e J. Gordon Melton, “Sacred Name Groups”, em Melton’s Encyclopedia of American Religions, 8ª ed. (Detroit: Gale, 2009). Note que a Igreja de Deus do Sétimo Dia é corpo sabatista distinto da Igreja Adventista do Sétimo Dia, com a qual não deve ser confundida.
3. Gian Giorgio Trissino, Ɛpistola del Trissino de le lettere nuωvamente aggiunte ne la lingua italiana (Roma: Lodovico degli Arrighi e Lautitio Perugino, 1524); edição crítica em Brian Richardson, ed., Trattati sull’ortografia del volgare, 1524-1526 (Exeter: University of Exeter, 1984). Na tipografia inglesa a distinção só se firma no século XVII; os marcos usualmente apontados são a revisão de Cambridge da King James (1629) e Charles Butler, The English Grammar (Oxford: William Turner, 1633).
4. Lucano, Farsália I.444-446, onde Esus é dito horrens e associado a altares selvagens. As identificações com deuses romanos vêm dos Commenta Bernensia e das Adnotationes super Lucanum, escólios anônimos de camadas sucessivas e mutuamente contraditórios: num conjunto Teutates é Mercúrio, Esus é Marte e Taranis é Dis Pater; no outro Teutates é Marte, Esus é Mercúrio e Taranis é Júpiter. A frase citada sobre os teônimos gauleses é de Myles Dillon, “Celtic religion: The Celtic gods”, Encyclopædia Britannica; cf. Nicole Jufer e Thierry Luginbühl, Répertoire des dieux gaulois (Paris: Errance, 2001).
5. A leitura entre parênteses é aproximação em sons do português, não transcrição estrita de nenhuma convenção acadêmica. Note-se, aliás, que em português o s intervocálico de “Jesus” soa como z — o que é fato da fonologia portuguesa, não do grego, e ilustra bem como os sons de um nome se acomodam a cada língua que o recebe.
6. Alfred Rahlfs, ed., Septuaginta, 2 vols. em um (Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1979). Ver Êxodo 17:9-13, onde o nome ocorre três vezes, uma delas no dativo. Para o quadro geral, Karen H. Jobes e Moisés Silva, Invitation to the Septuagint (Grand Rapids: Baker Academic, 2000). Observe que as testemunhas contínuas do texto da Septuaginta são códices cristãos dos séculos IV e V; os fragmentos judaicos pré-cristãos sobreviventes não cobrem passagens com o nome. A datação da tradução do Pentateuco ao século III a.C., porém, não depende dos manuscritos que a transmitem e é matéria pacífica.
7. K. H. Rengstorf, ed., A Complete Concordance to Flavius Josephus, 4 vols. (Leiden: Brill, 1973-1983), s.v. Ἰησοῦς.
8. Tal Ilan, Lexicon of Jewish Names in Late Antiquity, Part I: Palestine 330 BCE-200 CE (Tübingen: Mohr Siebeck, 2002); Richard Bauckham, Jesus and the Eyewitnesses: The Gospels as Eyewitness Testimony (Grand Rapids: Eerdmans, 2006), cap. 4, tabela 6. A rubrica de Ilan agrega as formas longa e curta, e os números são de ocorrências no corpus onomástico reunido — inscrições, ossuários, documentos e fontes literárias —, não de frequência populacional aferida.
9. L. Y. Rahmani, A Catalogue of Jewish Ossuaries in the Collections of the State of Israel (Jerusalém: Israel Antiquities Authority e Israel Academy of Sciences and Humanities, 1994), índice onomástico.
10. Larry W. Hurtado, The Earliest Christian Artifacts: Manuscripts and Christian Origins (Grand Rapids: Eerdmans, 2006), cap. 3, “The Nomina Sacra”. Sobre a datação disputada: Pasquale Orsini e Willy Clarysse, “Early New Testament Manuscripts and Their Dates: A Critique of Theological Palaeography”, Ephemerides Theologicae Lovanienses 88/4 (2012): 443-474; Brent Nongbri, “The Limits of Palaeographic Dating of Literary Papyri”, Museum Helveticum 71 (2014): 1-35, e “Reconsidering the Place of Papyrus Bodmer XIV-XV (P75) in the Textual Criticism of the New Testament”, Journal of Biblical Literature 135 (2016): 405-437.
11. Bruce M. Metzger, The Early Versions of the New Testament: Their Origin, Transmission and Limitations (Oxford: Clarendon, 1977), cap. 7, “The Latin Versions”.
12. A alegação de que “a Igreja de Roma compôs um nome blasfemo para o Redentor a partir de nomes de divindades gregas e romanas” está no material citado na nota 1. A versão que nomeia especificamente Jerônimo, a Vulgata e o papa Dâmaso é reportada como argumento corrente do movimento por Reinaldo W. Siqueira, “O nome de Jesus: Yehoshua, Yeshua ou Jesus?”, que a rastreia à Revista Teológica do SALT-IAENE 3:1 (jan-jun 1999).
















Frankmar Corrêa
O NOME DE JESUS. PROVA DE QUE O NOME DE JESUS É DE ORIGEM JUDAICA E É SAGRADO. O Nome Jesus Vem do Aramaico Yeshua que Significado: Javé Salva que foi Transliterado por Judeus do Idioma Aramaico para Idioma Grego no Seculo III Antes da era Cristã na Septuaginta do Antigo Testamento como Iesous. No Seculo I a Igreja Cristã usou a Grafia Grego Judaica do Nome de Jesus para escrever O Novo Testamento que foi escrito em Grego e Não em Aramaico ou Hebraico. Manuscrito Gregos do Novo Testamento Provam que a Grafia Grego Judaica Iesous era usada pelos Apóstolos de Jesus e Primeiros Cristã do Seculo I era o Nome Iesous considerado Sagrado pela Igreja Cristã Antiga do Seculo I.tambem era O Nome Iesous considerado Sagrado pela Igreja Cristã do Seculo II e III como prova os Manuscrito Grego do Novo Testamento do Seculo II e III assim como escritos dos chamados Pais da Igreja Cristã. Uma Prova muito importante que mostra o Nome Grafia Grego Judaica do Nome de Iesous como Sagrado para os Cristão está no Mais Antigo Papiro do Evangelho de João que é o Papiro P 52 conhecido também como Fragmento de João que esta na Biblioteca de John Rylands na Inglaterra que é datado do Ano 125 da Era Cristã foi achado no Egito e contém João 18:31-33,37-38.O Nome do Messias que é Jesus aparece escrito 2 Vezes com a Grafia Grego Judaica. Isso Prova que o Nome de Jesus esta certo. O Nome Yahushua ou Yausha Não tem prova Arqueologia e Não tem prova Documental e só uma Teoria e Teoria Não é prova. No Seculo II Antigos Cristãos na Antiga Latina Transliterado o Nome em Grego Iesous para o Latim Iesus e mais tarde no Seculo IV Jerônimo usou a Grafia Latina Iesus na Tradução Vulgata Latina. A Respeito da Letra J a Letra J é uma Variação da Letra Latina I e tinha no Latim Som de I. No Alemão a Letra J tem Som de I.O Nome de Iesus em Latim passou para Português: Jesus. O Nome de Jesus Significa:Salvador. Prova da Antiga Igreja Cristã de que o Nome de Jesus era considerado Sagrado. "Quanto a Jesus, é nome da língua hebraica, que significa em grego Sotér, isto é, Salvador. " ( Justino de Roma- Primeira Apologia -150 da Era Cristã ) " O Nome do Salvador ( Iesous)é de seis letras,...O Nome Jesus que Pertence a outra Língua, Traduzido Para O Grego...O Nome do Salvador que é Sotér...Quanto Ao Nome Jesus, Na língua Hebraica á qual Pertence, .., Como dizem os Sábios Judeus.." ( Irineu de Lião-180 da Era Cristã ) Um estudo a respeito do nome de Jesus. ''O nome "YeSHUA" é geralmente vertido como "Ἰησοῦς"(Iesous) por dois motivos. O primeiro é o de que não existe som correspondente à letra SHIN (ש) em grego. O som mais próximo é o sigma (Yeshua -> Iesua). O final em "S" representa o nominativo masculino. O nome aparece escrito também como Ἰησοῦ (genitivo e dativo), Ἰησοῦν (acusativo) e Ιησου (vocativo).''... ''Os primeiros manuscritos em geral usam o nome abreviado. Mas note que por vezes o nome Jesus é abrivado como "IH" (iota-eta, "Iê") ou "IHS" (iota-eta-sigma, "Iês"). Por exemplo, o manuscrito P108 (datado entre 175 e 225 d.C.) apresenta ΙΗΣ (iota-eta-sigma, "Iês") no nominativo e ΙΗΝ (iota-eta-nü, ("Iên") no acusativo, de modo que as duas primeiras letras eram necessariamente ΙΗ (iota-eta) e a última letra necessariamente Σ no nominativo e Ν no acusativo. A única leitura possível é IHΣOYΣ (Iêsus), correspondente direto ao aramaico YeSHUA.'' O Nome de Jesus é Sagrado e é Confirmado por Documento Históricos e Provas Arqueológicas.Jesus é O Nome do Filho do Deus Vivo.Jesus é o Nome do Messias que Ressuscitou e Vive Para Sempre.