Imortalidade da Alma

A imortalidade da alma: crença pagã? II

representação da imortalidade da alma antigo egito
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Em Gênesis 2:7 encontramos um dos textos mais citados no debate sobre a natureza humana, e um dos mais lidos de forma invertida. O texto diz que Deus formou o homem do pó da terra, soprou-lhe nas narinas o fôlego de vida “e o homem passou a ser uma alma vivente”. A leitura tradicional inverte o predicado: entende que o homem recebeu uma alma, em vez de tornar-se uma. É uma diferença gramatical pequena com consequências teológicas enormes.

Na primeira parte deste estudo, examinamos como a doutrina da imortalidade da alma chegou ao cristianismo por um percurso identificável: do Egito para a Grécia, da Grécia para o judaísmo helenístico, e do judaísmo helenístico para os teólogos cristãos do século II em diante. Aqui, o argumento muda de natureza. Já não se trata de genealogia, mas de exegese. A pergunta é: o que a Bíblia, lida em seus próprios termos, ensina sobre o que é o ser humano?

Tenho razões para crer que a resposta é consistente do Gênesis ao Apocalipse — e que essa consistência é o que torna a doutrina da imortalidade da alma incompatível com as Escrituras, independentemente de sua história filosófica.

Leia a primeira parte: A imortalidade da alma: crença pagã?

A definição bíblica no Antigo Testamento sobre o que é a alma

1. Gênesis 2:7 e a “alma vivente”

Voltemos ao texto de partida. “Deus formou o homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, tornando-o uma alma vivente” (Gn 2:7). O hebraico diz nephesh hayyah — literalmente, alma vivente, ser vivente. O que o texto afirma é que, quando Deus soprou o fôlego de vida no corpo inerte, um ser vivo passou a existir. O coração começou a bater, o cérebro a pensar, os olhos a ver. A nephesh não foi um ingrediente adicionado ao corpo vivo, mas o resultado da combinação entre corpo (o boneco de argila) e fôlego de vida soprado por Deus. Ou seja, não temos uma alma — somos uma alma. São duas afirmações gramaticalmente próximas e teologicamente opostas.

Essa leitura não é exclusiva de uma tradição confessional. O teólogo alemão Hans Walter Wolff, em seu estudo clássico Anthropology of the Old Testament, comentou sobre Gênesis 2:7: “O que nephesh significa aqui? Certamente não alma no sentido dualístico tradicional. Nephesh foi projetada para ser vista junto com a forma completa do homem e, principalmente, com sua respiração; além disso, o homem não tem nephesh, ele é nephesh e vive como nephesh.”¹

O pesquisador católico Dom Wulstan Mork, em The Biblical Meaning of Man — publicado com o imprimatur católico oficial —, chegou à mesma conclusão: “É a nephesh que dá vida ao bashar [corpo], mas não como uma substância distinta. Adão não tem nephesh; ele é nephesh, assim como ele é bashar. Ao invés de estar dissociado de seu princípio animador, o corpo constitui a nephesh visível.” O fato de que um livro publicado com aprovação católica afirme o contrário do que o Catecismo ensina é, por si só, revelador.

A maioria dos estudiosos que examinaram a questão sem pressuposto dualístico chegou à mesma conclusão: a frase “o homem passou a ser nephesh hayyah” de forma alguma implica que o corpo de Adão foi criado com uma alma imortal que se separa na hora da morte. Significa que quando Deus soprou o fôlego de vida no corpo inerte, um ser vivo passou a existir — nada mais do que isso.

2. Animais também são “almas viventes”

Há um dado que confirma essa leitura de forma ainda mais direta. O mesmo termo nephesh hayyah (alma vivente) aparece em Gênesis 1:20, 21, 24 e 30 para se referir aos animais. A maioria das traduções em português prefere “seres viventes” nesses versículos, provavelmente porque os tradutores pressupunham que apenas os seres humanos possuem uma alma imortal e imaterial. Mas o hebraico usa exatamente a mesma expressão. Não há defesa textual para traduzir o mesmo termo de forma diferente conforme o referente — isso é deixar a pressuposição dualística ditar a tradução, em vez de deixar o texto falar.

Esses versículos mostram de modo inequívoco que nephesh nada tem a ver com uma alma imortal concedida ao ser humano, mas sim com o princípio vital de vida presente tanto nos humanos quanto nos animais. Embora haja diferença qualitativa entre os animais e os seres humanos — criados à imagem e semelhança de Deus — todos são almas viventes no sentido hebraico do termo. A nephesh é o ser vivo, não um componente imaterial escondido dentro dele.

3. A alma como pessoa: necessidades e fragilidade

No Antigo Testamento, a palavra nephesh aparece 754 vezes e é traduzida de 45 formas diferentes, o que reflete não a riqueza do conceito, mas a dificuldade dos tradutores em lidar com um termo que não se encaixa na categoria dualística que presupõem.

Em situações de perigo e risco de morte, a Bíblia caracteriza a nephesh como a vida que precisa de proteção. O salmista clama: “Livra a minha alma [nephesh] do ímpio” (Sl 17:13). Em outro salmo, ele pede a Deus que tire sua alma da tribulação: “Por amor da tua justiça, tira a minha alma [nephesh] da angústia” (Sl 143:11). Jeremias expressa gratidão a Deus por ter livrado “a alma [nephesh] do necessitado das mãos dos malfeitores” (Jr 20:13). Raabe, em Jericó, roga aos espiões israelitas que salvassem sua família e livrassem a alma [nephesh] deles da morte (Js 2:13).

A alma enfrentava não apenas perigos de inimigos, mas também privações físicas. Ao lamentar a situação de Jerusalém, Jeremias escreveu: “Todo o seu povo anda suspirando, buscando o pão; deram as suas coisas mais preciosas em troca de mantimento para refrescarem a alma [nephesh]” (Lm 1:11). No deserto, os israelitas reclamavam: “Agora, porém, nossa alma [nephesh] está seca, e não vemos nada além deste maná” (Nm 11:6). Em todos esses textos, a alma é simplesmente a pessoa viva — concreta, frágil, necessitada.

4. Alma como sede das emoções

Um outro aspecto do ser humano também chamado de alma no Antigo Testamento é a vida emocional e mental. Em um diálogo entre Eliseu e Geazi, referindo-se à Sunamita, em 2 Reis, lemos: “A sua alma [nephesh] nela está triste de amargura” (2 Rs 4:27). Davi também nos dá outro exemplo: “A minha alma [nephesh] está profundamente perturbada” (Sl 6:3). Os salmos estão cheios de expressões nessa linha: “desfalecia neles a alma” (Sl 107:5), “a minha alma, de tristeza, verte lágrimas” (Sl 119:28), “a minha alma suspira e desfalece pelos átrios do Senhor” (Sl 84:2).

Esses textos mostram que a nephesh pode ser compreendida como representação da vida interior da pessoa — suas emoções, desejos e estado mental — não como uma entidade separada que sente essas coisas independentemente do corpo, mas como a própria pessoa, que pensa, sente e sofre como unidade.

5. A alma como o centro da personalidade

A nephesh é também o centro da responsabilidade moral no Antigo Testamento. Um texto esclarecedor está em Miquéias 6:7: “Darei o meu primogênito pela minha transgressão, o fruto do meu corpo pelo pecado da minha alma [nephesh]?” Ao contrário do que possa parecer, Miquéias não está fazendo contraste entre corpo e alma. A referência continua sendo a pessoa viva. Nesse contexto, Mork observa que: “A responsabilidade pelo pecado é atribuída à nephesh como pessoa.”

O mesmo padrão aparece em outros textos: “Quando uma alma [nephesh] pecar por erro” (Lv 4:2); “E quando alguma alma [nephesh] pecar, levará a sua iniquidade” (Lv 5:1); “A alma [nephesh] que fizer alguma coisa atrevidamente será extirpada do meio do seu povo” (Nm 15:30); “A alma que pecar, essa morrerá” (Ez 18:4). Portanto, a alma e a pessoa que pensa, decide e peca são a mesma coisa. Não existe no Antigo Testamento divisão de atividade entre alma e corpo. A ideia dicotômica da filosofia grega simplesmente não aparece no texto hebraico.

6. A alma diante da morte

Pois bem, se a nephesh é a pessoa viva, o que acontece na morte? O Antigo Testamento é bem direto ao ponto quanto a isso: quando a morte atinge o corpo, atinge a totalidade da pessoa. Por isso encontramos a expressão “matar uma alma [nephesh]” em Números 31:19; 35:15, 30; Josué 23:3. Juízes 16:30 e Números 23:10 falam da alma que morre. Ezequiel 22:25 e 27 mencionam sua destruição. Jó 11:20 fala da alma que expira.

Entretanto, aqueles que leem a Bíblia apenas em português podem não encontrar a palavra “alma” em todos esses textos, porque os tradutores — pressupondo que a alma é imortal e portanto não pode morrer — preferiram traduzir nephesh como “pessoa” ou “vida” nesses contextos. Mas a palavra hebraica está no original. Não há como escapar da conclusão: na Bíblia, o destino da alma está inextricavelmente ligado ao destino do corpo, e a destruição do corpo é considerada igual à destruição da alma. Qualquer teoria que sustente a sobrevivência consciente da alma após a morte precisa encontrar seu fundamento em outro lugar, não na Bíblia.

A definição bíblica no Novo Testamento sobre o que é a alma

A visão holística da natureza humana é consistente em toda a Bíblia. Os escritores do Novo Testamento permaneceram fiéis ao Antigo Testamento nesse ponto. A palavra grega psyche tem o mesmo significado fundamental que nephesh no hebraico, e o conceito de imortalidade da alma está completamente ausente nos escritos neotestamentários. A seguir, veremos alguns textos que exemplificam isso claramente.

1. Uma alma significa uma pessoa

Em Atos 2:41, encontramos o relato de que “quase três mil almas [psyche]” foram batizadas no dia de Pentecostes — obviamente pessoas de carne e osso, não espíritos desencarnados. Já em Atos 7:14, ao falar sobre a família de Jacó em seu impressionante discurso, Estevão mencionou que “setenta e cinco almas [psyche]” desceram ao Egito, a mesma contagem de Gênesis 46:26-27 e Êxodo 1:5. Pedro escreveu que “oito almas [psyche] se salvaram pela água” no dilúvio (1 Pe 3:20). Em todos esses casos, a alma é simplesmente a pessoa viva. O entendimento que os cristãos do Novo Testamento tinham sobre a alma não era o mesmo que muitos têm hoje, de uma entidade imaterial que deixa o corpo após a morte. Para eles, a alma e a pessoa eram a mesma coisa.

E, por fim, dentro deste contexto, encontramos a famosa promessa de Cristo em Mateus 11:28, 29: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma.” Ao usar a expressão “descanso para vossa alma”, Cristo está fazendo uma alusão a Jeremias 6:16, onde encontramos a promessa de descanso da alma aos que caminham de acordo com os mandamentos de Deus.

Contudo, é importante frisar que o descanso que Cristo oferece à alma nada tem a ver com o ensinamento de que, após a morte, algo consciente se desprende do corpo e sobe para o Pai na glória. Pelo contrário, o descanso que Cristo oferece se dá quando o crente aceita a maravilhosa provisão da salvação (vinde a mim) e vive em conformidade com os princípios de vida que ele ensinou e exemplificou (aprendei de mim).

2. A alma como vida

Um dos significados mais comuns da palavra alma, que fornece uma tradução adequada do termo grego “psyche” no Novo Testamento, é “vida”. Um bom exemplo disso pode ser encontrado em Atos 27:22 (cf. 27:10), quando Paulo, no auge de uma tempestade, tranquilizou os membros da tripulação, garantindo-lhes: “nenhuma alma [psyche = vida] se perderá de entre vós, mas somente o navio”. Em versões como a ARA, o termo grego é traduzido corretamente como “vida”, pois Paulo, obviamente, estava falando da perda de vidas.

Outro exemplo esclarecedor pode ser encontrado em Mateus 2:20, que diz: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e vai para a terra de Israel, pois os que procuravam tirar a vida [psyche = vida] do menino já morreram”. Esses textos fazem parte das muitas referências sobre atentados contra a alma, morte da alma e salvamento da alma (psyche).

Todas elas sugerem que a alma não é, de modo nenhum, uma parte imortal da natureza humana, mas sim a própria vida física que pode correr perigo. Em toda a Bíblia, vemos que a sobrevivência da alma está ligada à sobrevivência do corpo. Afinal, alma e pessoa são sinônimos para se referir a um ser humano.

3. Compreendendo a morte da alma como morte eterna

A objeção mais séria ao argumento holístico parte de Mateus 10:28: “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, Aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo.” Os que creem na alma imortal argumentam que, se os homens podem matar o corpo mas não a alma, a alma é por natureza imortal.

Parece-me que essa leitura inverte o sentido do texto. O que Cristo afirma não é que a alma é indestrutível. Ele afirma exatamente o oposto: Deus pode destruir tanto a alma quanto o corpo. A distinção que o versículo faz não é entre alma imortal e corpo mortal; é entre o poder limitado dos homens, e o poder ilimitado de Deus, que alcança a pessoa inteira. Se a alma pudesse ser destruída apenas por Deus e não pelos homens, isso prova que ela é condicionalmente mortal, não que seja naturalmente imortal. Oscar Cullmann, teólogo protestante suíço sem compromisso confessional neste debate, reconhece explicitamente: “Ouvimos o próprio Jesus declarar, em Mateus 10:28, que a alma pode ser morta. A alma não é imortal.”

Portanto, à luz da revelação bíblica sobre a natureza humana, o sentido correto da declaração de Cristo é: não temais aqueles que podem pôr um fim à vossa existência terrena, mas não podem aniquilar a vossa vida eterna em Deus; temei, antes, a Deus, que pode destruir completamente todo o vosso ser eternamente”. Não há nada na declaração de Cristo que possa embasar a crença na imortalidade da alma. Pelo contrário, Cristo ensina que Deus pode destruir a pessoa por inteiro, eliminando para sempre qualquer possibilidade de que ela volte à vida.

O que a Bíblia afirma positivamente

A visão bíblica não se limita a refutar a doutrina da alma imortal. O que ela afirma positivamente é que o ser humano é uma unidade indissolúvel de corpo e fôlego de vida. Não há em nenhum texto bíblico a ideia de uma entidade imaterial consciente que se desprende do corpo e continua existindo após a morte.

O que existe é a promessa da ressurreição, o ato pelo qual Deus reconstituirá a pessoa inteira e lhe concederá a imortalidade como dom. Paulo foi preciso em 1 Coríntios 15:53 ao dizer: “É necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade.” Sendo assim, a imortalidade é algo que os crentes ainda não possuem — será concedida no futuro, na ressurreição. E isso é exatamente o oposto da doutrina da alma imortal.

Conclusão

O que ficou demonstrado ao longo das duas partes deste estudo é uma convergência de dois argumentos independentes. O primeiro é histórico: a doutrina da imortalidade da alma tem uma genealogia identificável que passa pelo Egito, pela Grécia e pelos teólogos do século II — nenhum dos quais está na linha de transmissão apostólica, e a Igreja primitiva mais próxima dos apóstolos não a conhecia. O segundo é exegético: tanto o termo hebraico nephesh quanto o grego psyche descrevem o ser humano como um ser holístico, uma unidade viva. Não há base bíblica para uma alma imaterial que habita temporariamente um corpo, e muitos estudiosos que não têm compromisso confessional com a posição adventista chegam à mesma conclusão quando examinam o texto.

Os dois argumentos se reforçam. A doutrina não tem raízes bíblicas, e quando verificamos o texto bíblico, entendemos por quê: a Escritura não a conhece. A esperança cristã, tal como a Bíblia a apresenta, não repousa na imortalidade inata da alma, mas na ressurreição — o ato pelo qual Deus, na volta de Cristo, devolverá a vida àqueles que dormem nele e os revestirá do que só ele pode conceder.


Referências Bibliográficas:

WOLFF, Hans Walter. Anthropology of the Old Testament. Philadelphia: Fortress Press, 1974, p.10.

MORK, Dom Wulstan. The Biblical Meaning of Man. Londres: Geoffrey Chapman, 1967, p. 34.

CULLMANN, Oscar. “Immortality of the Soul or Ressurrection of the Dead?”. In: STENDAHL, Krister (ed.). Immortality and Ressurrection: Death in the Western World: Two Conflicting Currents of Thought, 1968, p. 36-37.

Leia também:

A imortalidade da alma: crença pagã? – Parte 1

O que significam as almas debaixo do altar? Apocalipse 6:9-11

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Graduando em História pela Universidade Estácio de Sá e estudioso de Teologia, defende a premissa de que o conhecimento se torna verdadeiramente valioso quando compartilhado. Junte-se a mim nessa jornada!

Comentários (6)

  • 28 de maio de 2024

    Ernestina Alencar Neta Santana

    Acredito em tudo o que vc ensinou

    • 19 de junho de 2024

      Amós Bailiot

      Amém! Que Deus a abençoe.

      • 16 de agosto de 2024

        Amauri Nascimento Lima

        Amós vc é adventista?

        • 16 de agosto de 2024

          Amós Bailiot

          Olá, Amauri! Sim, sou adventista.

  • 1 de novembro de 2024

    Wilson Nunes

    Que o Deus do céu seja louvado por ter revelado as coisas ocultas aos simples, especialmente por mi ter feito parte deste grupo. quanto a ti, meu irmão, muito obrigado por seres uma esferográfica na mão de Deus para escrever estas verdades nos nossos corações.

    • 1 de novembro de 2024

      Amós Bailiot

      Amém, meu irmão! Deus seja louvado.

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