A Trindade

A doutrina da Trindade é idolatria? Uma análise de Romanos 1:25

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Talvez você já tenha presenciado alguma dessas cenas, pois a questão do antitrinitarismo voltou a ganhar força nos últimos anos: um familiar que começou a assistir certos vídeos teológicos e surge com uma “descoberta bombástica”; um irmão de fé compartilhando arquivos e áudios no WhatsApp que supostamente desmascaram o “engano trinitário”; ou até sermões em que o tema aparece de forma indireta, disfarçado em dúvidas aparentemente inocentes sobre a natureza de Deus.

E então, quando o debate se intensifica e os ânimos se exaltam, surgem frases como (quase sempre pronunciadas com o tom de quem está revelando um segredo escondido pela igreja durante séculos): “Vocês adoram três deuses. Isso é politeísmo. O cristianismo apenas disfarçou uma ideia pagã sob a aparência de monoteísmo.”

Há algo curioso no modo como essa conversa começa. O antitrinitário vai quase sempre à ofensiva e raramente se defende primeiro. E a acusação inverte os papéis antes que o debate comece: subitamente o ônus da prova trocou de mãos, e quem precisa se justificar provando que não é um idólatra é você.

Pois bem. Se o assunto é sobre a doutrina da Trindade ser idolatria, ou mesmo uma doutrina demoníaca, como já ouvi, deixemos que a Bíblia dê o veredito. Para isso, vamos analisar Romanos 1:25, um texto pouco explorado e que é decisivo para entendermos se Jesus é Deus como o Pai ou apenas uma criatura exaltada.

Nesse texto, Paulo dá o diagnóstico da humanidade decaída, e quando chega ao centro do problema, escreve que os homens “mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém!” Repare que ele poderia ter apresentado uma lista de supostos deuses e ídolos para provar o que queria dizer, mas isso não seria suficiente para abarcar toda a questão. Em vez disso, preferiu ir abaixo da superfície, na raiz do problema, e nomear o mecanismo por trás de qualquer idolatria que já existiu, que é dirigir ao que foi criado a adoração devida ao Criador.

E a distinção que o apóstolo traça é ontológica antes de ser moral. Diz respeito ao que as coisas são. O idioma grego marca isso com dois termos da mesma raiz: ktísis, a criatura, aquilo que veio a existir, e o particípio ktísanta, o Criador, aquele que dá existência. Parece-me que a implicação é inescapável: entre esses dois polos não sobra um terceiro lugar para o culto. Não há, na lógica de Paulo, criatura tão elevada que possa receber adoração sem que isso seja idolatria. A realidade, portanto, se divide em duas: de um lado temos o Criador, e do outro tudo aquilo que ele criou.

A essa altura, o argumento começa a custar caro porque o antitrinitário defende, ao mesmo tempo, duas afirmações que mal se sustentam juntas: Cristo é criatura, trazido à existência pelo Pai em algum ponto antes do qual não existia; e Cristo é adorado, afirmação da qual ele não larga sem rasgar metade do Novo Testamento. Guarde as duas, porque tudo se decide quando elas se encontram.

Como Cristo é apresentado no Novo Testamento?

A cena mais difícil para o antitrinitário contornar está em Apocalipse 5. O apóstolo João é arrebatado em visão à sala do trono, e o que vê ali deveria preocupar quem acredita que Cristo é criatura. Todos os habitantes do céu estão ali reunidos: os anjos, os seres viventes, os vinte e quatro anciãos. E rompem num cântico dirigido “ao que está assentado no trono e ao Cordeiro”, cântico em que se atribui aos dois “o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio pelos séculos dos séculos” (Ap 5:13).

Perceba como esse versículo é esclarecedor. O Pai e o Cordeiro recebem, na mesma sentença, com as mesmas palavras, a mesma glória “pelos séculos dos séculos”. O texto não apresenta graduação: nenhum louvor maior para um e menor para o outro, nenhuma reverência de primeira classe ao lado de uma homenagem de segunda. Uma única doxologia sobe aos dois ao mesmo tempo, do mesmo coro. O Cordeiro é adorado nas mesmas coisas que o Pai — e isso, por si só, já indica a igualdade entre os dois.

Agora suponha que Cristo fosse mesmo uma criatura. O que estaria acontecendo naquela sala? A resposta é incômoda. O céu inteiro, na presença imediata de Deus, estaria executando o ato que Romanos 1:25 aponta como a raiz de toda idolatria, e o próprio Deus, sentado no trono ao lado, receberia essa adoração dividida sem corrigir uma só voz. A ironia fica mais pesada quando lembramos que, nesse mesmo livro, anjos recusam mais de uma vez a adoração que João tenta lhes prestar. As criaturas celestiais conhecem a regra de que somente Deus pode ser adorado e a obedecem com rigor. Mas diante do Cordeiro, ninguém a aplica. Se Cristo fosse um ser criado, seria de se esperar que ele também recusasse adoração.

E essa cena não é a única. O mesmo padrão reaparece de forma simples, sem margem para dúvida, quando Tomé se prosta diante do Cristo ressurreto e diz “Senhor meu e Deus meu” (Jo 20:28), e Jesus o recebe sem uma palavra de repreensão. Compare com Pedro, que levanta Cornélio do chão com um “eu também sou homem” (At 10:26), e com o anjo que repreende João com um “adora a Deus” (Ap 22:9). E em Hebreus 1:6 a ordem de adorar o Filho parte do próprio Pai: “todos os anjos de Deus o adorem.”

E não apenas nos textos do Novo Testamento. Plínio, o Jovem — governador romano que investigava os cristãos no início do século II — relatou ao imperador Trajano que os fiéis cantavam “em versos alternados um hino a Cristo, como a um deus”. Uma testemunha externa, sem qualquer interesse em favorecer o trinitarismo, confirmava o mesmo padrão.

Mas a passagem que sela tudo está em Filipenses 2:10-11. O apóstolo Paulo afirma que ao nome de Jesus todo joelho se dobrará, citando Isaías 45:23, onde o próprio Deus declara isso. O capítulo 45 de Isaías é provavelmente o texto monoteísta mais inflexível de toda a Escritura e, um pouco antes, em Isaías 42:8, Deus diz claramente: “a minha glória não darei a outrem.”

Ora, quem fez essa transferência foi o próprio Paulo (e é interessante como esse detalhe costuma passar despercebido). Estamos falando de um fariseu criado para recitar o Shemá toda manhã (“Ouve, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor”), alguém para quem entregar a glória divina a um terceiro seria a pior das blasfêmias. Que a mente mais rigorosamente monoteísta da igreja primitiva tenha aplicado Isaías 45 a Jesus mostra que ele o fez com plena consciência do peso de cada palavra. Restam, então, apenas duas saídas: ou Paulo perdeu o juízo, ou ele cria, sem hesitar, que dobrar o joelho diante de Jesus era dobrar o joelho diante do próprio Deus de Israel.

A contradição que o antitrinitário precisa resolver

Junte agora as duas afirmações que pedi para guardar: “Cristo é criatura” e “Cristo é adorado”. Como Paulo chama o ato de dirigir adoração a criaturas mesmo? Isso, idolatria. A conclusão se segue sozinha das premissas que o próprio antitrinitário aceita, sem que ninguém precise forçá-la.

A implicação é gravíssima. A própria igreja do Novo Testamento, e o próprio Deus que ordenou aos anjos que adorassem o Filho, estariam consagrando como santo exatamente aquilo que Paulo, logo no primeiro capítulo de Romanos, descreve como a raiz de toda degradação humana. Sobra ao antitrinitário explicar como isso seria possível, ou então abrir mão de uma das duas afirmações.

As saídas disponíveis

Um bom antitrinitário não vai ficar em silêncio, é claro. E seria desonesto da minha parte apresentar respostas fracas para em seguida derrubá-las. As respostas mais fortes são três, veja:

A primeira distingue adoração de honra: “não adoramos Cristo, apenas o honramos”. As Testemunhas de Jeová desenvolveram isso com mais consistência que ninguém, a ponto de traduzir a mesma palavra grega, proskyneō, de dois modos conforme o destinatário. Para o Pai, “adorar”; para o Filho, “prestar homenagem”. Uma estratégia engenhosa. O problema é que ao se deparar com Apocalipse 5:13 ela se desmancha completamente. Lá o louvor a Cristo emprega as mesmas palavras, a mesma estrutura, o mesmo “pelos séculos dos séculos” do louvor ao Pai, tudo na mesma frase, sem gradação de espécie alguma. Daquele texto não se extraem dois tipos de reverência. E acomodar a tradução de uma palavra ao resultado que a teologia quer confirmar é o oposto exato da exegese: é fazer o texto dizer o que já se decidiu de antemão.

A segunda resposta é um pouco mais sofisticada: “Deus autorizou a adoração ao Filho, e o que Deus ordena não pode ser pecado”. Interessante. Há força nisso, e seria leviano fingir que não há. Só que essa saída cobra um preço de Romanos 1:25. Paulo condena o ato de adorar a criatura, e não apenas a adoração desautorizada à criatura. O que ele põe no banco dos réus é a natureza daquilo que se adora, e a falta de permissão nunca foi a questão. Além disso, em Isaías 42:8 Deus diz: “a minha glória não darei a outrem.” Se Deus pudesse, por simples decreto, repassar a uma criatura a adoração que reivindica como exclusivamente sua, então a exclusividade de Isaías nunca foi real, e Deus blefou; ou, pior, Deus virou patrocinador da idolatria que ele mesmo condena. Nenhuma das duas hipóteses se sustenta.

E por último a objeção mais séria. O antitrinitário mais cuidadoso dirá que Cristo não é uma criatura no sentido comum, porque foi gerado, e não fabricado. A distinção tem fundamento: a criatura é feita do nada por um ato externo, como o barro que o oleiro molda de fora; Cristo, ao contrário, teria sido gerado da própria substância do Pai, do jeito que um filho carrega a natureza de quem o gerou, e não do jeito que um produto sai de uma fábrica. A categoria de ktísis, dirá ele, simplesmente não alcança o Filho.

A distinção entre criação e geração é real, e a aceito sem resistência. Mas a questão que decide tudo é outra: o que “gerado” quer dizer aqui? Tudo depende disso, e a palavra só comporta dois sentidos.

Suponha que “gerado” inclua um começo, um ponto antes do qual o Filho não existia. Logo o Filho tem origem. E tudo que tem origem fica do lado da ktísis, seja qual for a substância de que é feito, porque o que define a criatura para Paulo é justamente ter começado a existir, não o material que a compõe ou a forma como foi trazida a existência. Foi por isso que o Concílio de Niceia rejeitou a fórmula ariana “houve um tempo em que Ele não era”: ao atribuir um começo ao Filho, ela o jogava para o grupo das criaturas. E uma criatura que recebe adoração é, de volta ao início, o problema de Romanos 1.

Suponha agora o contrário, que “gerado” signifique uma geração eterna, sem começo, o Filho procedendo do Pai como a luz emana do sol sem que o sol jamais tenha existido sem ela. Aí o problema de Romanos 1:25 de fato se dissolve, porque um ser sem origem não pertence à ktísis. Só que, ao dizer isso, o antitrinitário acabou de afirmar que o Filho é coeterno com o Pai, que nunca houve Deus sem o Filho. E isso, levando a sério o sentido das palavras, é a própria posição do Concílio de Niceia: “gerado, não feito, consubstancial ao Pai”. Querendo escapar por uma terceira porta, ele a abriu e deu de cara com o terreno trinitário.

Não há terceiro sentido para a palavra. “Gerado com começo” mantém o Filho entre as criaturas e mantém a contradição. “Gerado sem começo” desfaz a contradição ao preço de confirmar a doutrina que o antitrinitário se propõe a combater. A objeção mais forte que ele tem, levada com honestidade até o fim, ou o devolve à contradição ou o converte.

O antitrinitarismo no adventismo

Como sabemos, esse debate não começou agora no adventismo. Boa parte dos pioneiros do adventismo foi semiariana, convencida de que Cristo, embora divino acima de qualquer medida humana, tivera um princípio. E hoje a questão está mais viva do que muitos imaginam. Geralmente quem a levanta dentro das nossas igrejas são irmãos sinceros, de Bíblia gasta e fé genuína, convencidos de que estão defendendo o monoteísmo bíblico.

Esses irmãos carregam ainda um problema que vai além de Romanos 1:25. Eles também reconhecem Ellen White como profetisa, e ela foi direta nesse ponto. Em Patriarcas e Profetas, ao tratar do plano da redenção, ela afirma que havia em todo o universo um único Ser capaz de satisfazer as reivindicações da lei transgredida, e diz por quê: “visto que a lei divina é tão sagrada como o próprio Deus, unicamente um Ser igual a Deus poderia fazer expiação por sua transgressão” (Patriarcas e Profetas, cap. 4, CPB). Poucas páginas adiante, no mesmo capítulo, ela reforça que “mesmo a vida de um anjo não poderia ser aceita como sacrifício” pela transgressão humana.

O antitrinitário adventista tem resposta para isso, obviamente. Cristo foi criado, dirá ele, mas Deus o elevou à igualdade em algum momento num passado distante, antes mesmo da criação da vida na Terra. Foi essa elevação que despertou o ciúme de Lúcifer e desencadeou a rebelião no céu. Cristo já era, portanto, “igual a Deus” antes de surgir o pecado, e foi nesse status elevado que se ofereceu para expiar os pecados da humanidade.

Veja, porém, que para funcionar essa resposta precisa assumir que uma igualdade conferida por decreto signifique tanto quanto uma igualdade que se tem por natureza. O problema dessa concepção é que o valor de um sacrifício expiatório nasce daquilo que o ser é; o cargo que ele ocupa não entra na conta. Uma criatura promovida a status divino exerce autoridade delegada, e o mérito que ela movimenta continua pertencendo a quem a promoveu. No limite disso teríamos Deus quitando a dívida da humanidade caída por ter violado Sua lei, que é tão sagrada quanto ele próprio, por meio de um instrumento que, sozinho, não acrescenta valor nenhum. Ellen White descreveu outra coisa quanto a isso. Para ela, a igualdade por natureza de Cristo para com Deus Pai é a razão pela qual o sacrifício tem valor infinito, e não um figurino de igualdade aplicado por cima de uma criatura.

E Filipenses 2:6, texto que os próprios antitrinitários costumam citar, fecha o cerco por outro ângulo. Paulo escreve que Cristo, “subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus”. A expressão grega central — harpagmón hēgeisthai — foi examinada num estudo filológico de Roy Hoover, publicado na Harvard Theological Review, que rastreou seu uso na literatura grega da época do Novo Testamento. Hoover demonstrou que a expressão descreve o ato de tratar algo que já se possui como vantagem a explorar em proveito próprio — leitura que se tornou padrão entre os principais comentaristas do texto. Repare no que isso pressupõe. Para que Cristo decidisse não explorar a igualdade com Deus, era preciso que ele já a tivesse; ninguém deixa de tirar proveito daquilo que não possui. A frase retrata alguém que detém a igualdade por natureza e recusa transformá-la em troféu. A narrativa da elevação inverte esse retrato: um ser recém-promovido estaria agarrado ao que acabou de receber, ansioso por exibi-lo, longe da serenidade de quem larga o que sempre lhe pertenceu.

Quanto à ideia de que a elevação de Cristo teria provocado o ciúme e inveja de Lúcifer, isso é uma inferência colada em Ellen White, e não algo que ela escreva. Em Patriarcas e Profetas e O Grande Conflito, por exemplo, ela descreve Lúcifer cobiçando a posição de Cristo, mas cobiçar uma posição não exige que ela seja recente. O que muda, nos textos dela, é a disposição interior de Lúcifer; o status de Cristo permanece o mesmo, eterno e inerente, do começo ao fim.

E há neste argumento algo curioso, que talvez explique por que ele incomoda mais do que os outros. As discussões sobre a divindade de Cristo costumam girar em torno de textos distantes, da aplicação equivocada de significados de palavras gregas, de concílios do século IV. Mas esta não. Esta discussão se refere a algo que o próprio antitrinitário faz nos dias de culto na igreja. Ele canta a Cristo. Ora em nome de Cristo. Entrega a Cristo a salvação da própria alma. O que está em jogo não é o significado de alguns versículos. A questão é: se Cristo é uma criatura, elevada ou não, a adoração prestada a Ele não seria exatamente o que Romanos 1:25 descreve como idolatria? Assim sendo, das duas uma: ou Cristo não é um ser criado e, portanto, pode ser adorado. Ou ele é uma criatura e, como vimos, criaturas não podem receber adoração.

Acusar outros de serem cegos espiritualmente, de idólatras é fácil. A parte difícil para o antitrinitário se dá quando, percorrido um longo caminho, a acusação volta intacta para suas próprias mãos. Nesse momento, a pergunta que ele precisa responder não diz respeito à doutrina alheia, e sim à própria crença e atos: aquele diante de quem você se ajoelha todo sábado é o Criador, ou é a criatura? Paulo não deixou as duas categorias abertas à negociação. E nenhum joelho se dobra sem que isso signifique alguma coisa.

“Pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém!” (Romanos 1:25)


Referências Consultadas:

Bíblia Sagrada – Versão Almeida Revista e Atualizada (ARA).

DORNELES, Vanderlei (ed. port.). Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia. Tatuí: CPB, 2014. v. 7, p. 856.

DORNELES, Vanderlei (ed. port.). Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia. Tatuí: CPB, 2011. v. 7, p. 139.

PLÍNIO, o Jovem. Cartas, X.96.

Leia também:

Provérbios 8: o texto que o antitrinitário usa contra si mesmo

A Trindade na Bíblia: O Mistério de Deus em Três Pessoas

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Graduando em História pela Universidade Estácio de Sá e estudioso de Teologia, defende a premissa de que o conhecimento se torna verdadeiramente valioso quando compartilhado. Junte-se a mim nessa jornada!

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