Você se considera uma pessoa ansiosa? Talvez a pergunta seja quase desnecessária. Trabalho, contas, saúde, futuro dos filhos, incertezas sobre o país — motivos para preocupação não faltam. Em estimativas da Organização Mundial da Saúde que se tornaram bastante conhecidas, mais de 18 milhões de brasileiros convivem com algum transtorno de ansiedade. Para muita gente, a ansiedade deixou de ser uma visita ocasional e passou a fazer parte da rotina.
Mas seria um erro imaginar que esse é apenas um problema do nosso tempo. Quando Jesus disse: “não andeis ansiosos pela vossa vida”, falava a pessoas que não tinham geladeira, plano de saúde ou salário garantido, e para quem uma seca podia significar fome. Se alguém tinha razões concretas para se preocupar com o amanhã, eram elas. E é a essas pessoas que Jesus oferece outra maneira de carregar o futuro: não fingindo que os motivos de preocupação desapareceram, mas aprendendo onde colocá-los.
O que Jesus quis dizer?
O verbo que Jesus emprega, merimnate, de merimnaō, significa preocupar-se, estar ansioso. Alguns comentaristas associam o termo à imagem de uma mente dividida, puxada em várias direções por diferentes cuidados. Mesmo que essa imagem vá além do sentido básico da palavra, ela descreve muito bem aquilo que a ansiedade faz conosco: a mente permanece ocupada por aquilo que ainda nem aconteceu.
Mas é importante perceber o que Jesus não está dizendo. Ele não manda ninguém fingir que as contas não existem, nem trata toda preocupação como sinal de fraqueza espiritual. Pouco depois, reconhece abertamente que precisamos de comida e roupa e afirma que o Pai sabe de tudo isso (Mt 6:8, 32). As necessidades são reais. O ponto é outro: não precisamos carregá-las como se o futuro dependesse inteiramente da nossa capacidade de prevê-lo e controlá-lo.
Três movimentos
No coração da fala de Jesus há três movimentos.
O primeiro começa com uma pergunta sobre valor: “Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes?” (Mt 6:25). Jesus muda o centro da questão. Nossa segurança não pode repousar naquilo que conseguimos acumular, prever ou controlar, porque a própria vida já é maior do que tudo isso. Antes de falar do que nos falta, Ele nos lembra de quem somos diante de Deus.
Depois, Jesus nos faz olhar para além de nós mesmos: “Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta” (Mt 6:26). Isso não significa que as aves vivam sem esforço. Elas procuram alimento, constroem ninhos, passam o dia em atividade. O ponto é que não vivem tentando garantir antecipadamente o amanhã. E então vem o argumento: se o Pai cuida delas, quanto mais de vocês? Logo em seguida, Jesus acrescenta uma pergunta quase desconcertante: “Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida?” (Mt 6:27). Ou seja, a ansiedade aparenta dar algum controle, mas não entrega sequer um dia a mais de vida, não paga um único boleto atrasado nem resolve problema algum. Apenas nos destrói aos poucos.
O terceiro movimento é uma reordenação: “buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6:33). A ansiedade cresce facilmente quando aquilo que deveria ocupar a periferia toma o centro. Buscar primeiro o reino de Deus não faz os problemas desaparecerem, mas recoloca cada coisa em seu devido lugar.
E todo o raciocínio repousa numa palavra que aparece quase discretamente no texto: Pai. Se Deus é Pai, nossas necessidades não lhe passam despercebidas. Isso não significa que Ele nos poupará de todo sofrimento — Jesus não promete isso, e seria desonesto fazê-lo dizer o que não disse. A promessa é outra: não atravessamos o futuro abandonados a nós mesmos. O Pai conhece aquilo de que precisamos antes mesmo que lhe peçamos.
O que a psicologia redescobriu
É interessante perceber como alguns desses ensinos, pronunciados há quase dois mil anos, encontram ecos no que a psicologia passou a observar por outros caminhos. A Terapia Cognitivo-Comportamental, por exemplo, trabalha com a maneira como interpretamos aquilo que acontece e com a revisão de pensamentos que ampliam nossos medos. Há algo familiar nisso para quem acabou de ouvir Jesus confrontar a lógica da ansiedade com perguntas como: “Não é a vida mais do que o alimento?”. Do mesmo modo, a atenção ao presente, tão valorizada em abordagens contemporâneas como o mindfulness, lembra o conselho: “não vos inquieteis com o dia de amanhã” (Mt 6:34). Viver o dia que temos, reconhecer os limites do nosso controle e aprender a não entregar o presente ao medo do futuro são pontos em que a sabedoria antiga e a psicologia moderna acabam se encontrando.
Mas aqui é preciso fazer uma distinção importante. Jesus está tratando, em Mateus 6, da preocupação com o amanhã, e nem toda ansiedade se reduz a isso. Há momentos em que ela deixa de ser uma inquietação passageira e se torna persistente, intensa e capaz de interferir no sono, no trabalho e na vida cotidiana. Nesses casos, procurar ajuda médica ou psicológica não é sinal de falta de fé. É simplesmente reconhecer que também somos corpo e mente, e que ambos precisam de cuidado. Confiar em Deus e receber tratamento adequado não são caminhos concorrentes. Não há razão para colocá-los um contra o outro.
Quem confiou antes de nós
A Bíblia está cheia de pessoas que atravessaram situações capazes de despertar medo sem se deixarem governar por ele. Davi foi perseguido por Saul, escondeu-se em cavernas e conheceu de perto a ameaça da morte. Ainda assim, pôde escrever: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo” (Sl 23:4). O perigo não desapareceu. O que mudou foi aquilo que Davi enxergava no meio dele: “tu estás comigo”.
Daniel enfrentou algo ainda mais concreto. Foi lançado numa cova de leões e passou a noite entre as feras, mas saiu ileso. Maria, por sua vez, recebeu um anúncio que colocava diante dela um futuro inteiramente fora de seu controle, com consequências que poderiam atingir sua reputação e seu casamento. Sua resposta foi simples: “Aqui está a serva do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra” (Lc 1:38).
Em nenhum desses casos a fé tornou a situação menos séria. Davi continuava perseguido, Daniel continuava dentro da cova e Maria continuava sem saber tudo o que viria pela frente. O que encontramos nos três é uma confiança que não depende de controlar as circunstâncias antes de obedecer a Deus.
Na prática
Como tudo isso chega ao dia a dia? Talvez o melhor lugar para começar seja justamente onde a ansiedade costuma começar: naquilo que já pesa antes mesmo de o dia ganhar forma. Entregue isso a Deus pela manhã; não é preciso uma oração longa, apenas honesta. Ao fim do dia, pare por alguns minutos e se lembre do que recebeu, em vez de permitir que a mente se ocupe apenas do que ainda falta. Faça o que está ao seu alcance e reconheça o limite do que não está. Você não foi feito para controlar todas as variáveis da vida. E, quando a mente correr para um futuro que ainda não chegou ou voltar repetidamente a um passado que já não pode ser alterado, traga-a novamente para o dia que Deus lhe deu. O agora é o que temos.
Isso não é fácil. Há algo em nós que prefere a sensação de controle, mesmo quando esse controle é apenas imaginado. Talvez por isso seja tão difícil “soltar” o amanhã. Mas é bem aí que a confiança começa.
Descanse
Mateus 6 não oferece uma fórmula para fazer a ansiedade desaparecer. Jesus sabe que o amanhã pesa, que há necessidades reais e coisas que simplesmente fogem das nossas mãos. Por isso, em vez de prometer uma vida sem preocupações, Ele nos lembra de algo que a ansiedade facilmente nos faz esquecer: não precisamos carregar o fardo de nossas preocupações sozinhos. Há um Pai que conhece aquilo de que você precisa e que não observa sua vida à distância.
A ansiedade é real. Pode tirar o sono, apertar o peito e ocupar a mente. Mas ela não precisa se tornar a voz que governa sua vida. O convite de Jesus é aprender a trocar a tentativa de controlar o amanhã pela confiança no Pai e a ansiedade pelo que ainda não aconteceu pela fidelidade ao dia que está diante de você.
E talvez nenhuma imagem resuma isso melhor do que uma que o próprio Jesus usou. Se Deus veste os lírios do campo, tão frágeis e passageiros, será mesmo que se esqueceria de você?
O amanhã ainda virá com suas próprias preocupações. Hoje, porém, você pode entregá-lo. E descansar no fato de que o Deus que sustenta as aves e veste os lírios não perdeu você de vista.
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