“Ao anjo da igreja em Laodiceia escreve: Isto diz o Amém, a Testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus.” (Apocalipse 3:14)
Poucos textos são tão frequentemente mal utilizados quanto Apocalipse 3:14. Ele aparece em praticamente toda discussão sobre a divindade de Cristo com grupos antitrinitários, especialmente as Testemunhas de Jeová, como se fosse uma prova irrefutável de que Jesus é uma criatura.
A expressão grega ἡ ἀρχὴ τῆς κτίσεως τοῦ θεοῦ, “o princípio da criação de Deus”, é lida por eles como: “Cristo foi o primeiro ser que Deus criou.” E a partir daí constroem toda a sua cristologia subordinacionista.
O problema é que essa leitura não sobrevive a uma análise séria do texto em grego, do contexto do livro de Apocalipse, nem do restante do Novo Testamento. Neste artigo, veremos por que a interpretação antitrinitária falha em cada um desses pontos. Veremos também algumas das principais objeções que um debatedor treinado aborda em debates, para que você esteja preparado para respondê-las.
O que ἀρχή realmente significa?
Uma resposta séria a essa questão exige primeiramente que tenhamos um bom léxico para consulta dos significados do termo. Assim como em português temos diversos significados para a palavra “manga” (manga fruta, manga de camisa, manga de chuva), a palavra grega ἀρχή (arkhḗ) também é semanticamente rica.
O BDAG (Bauer-Danker-Arndt-Gingrich), o léxico padrão do grego neotestamentário, registra para o termo, entre outros sentidos: posição de poder e domínio soberano; origem causal ou fonte primária de algo; aquele que inicia uma ação como agente primeiro; e, apenas secundariamente, o primeiro item de uma série cronológica.
Perceba que a ideia de “primeiro ser criado dentro de uma série” existe, mas é apenas uma das possibilidades do termo, e não a mais comum. O campo semântico de ἀρχή gira predominantemente em torno de autoridade, soberania e causalidade.
| Sentido de ἀρχή (arkhḗ) | Tradução / Interpretação |
| ἄρχειν — governar, dominar | Autoridade soberana, poder supremo |
| Princípio ontológico | Origem causal, fonte primária, fundamento |
| Primazia ativa | Aquele que inicia — o Agente Criador |
| Início temporal (secundário) | Primeiro em ordem cronológica numa série |
| Soberania política | Principado, governo (cf. Lc 12:11; Rm 8:38) |
Sentido ativo ou passivo? Essa distinção é decisiva
Há uma distinção fundamental que os antitrinitários sistematicamente ignoram: ἀρχή pode ser interpretada de forma passiva ou ativa. No sentido passivo, designa aquilo que é o resultado primeiro de uma ação, ou seja, a primeira criatura. No sentido ativo, designa aquele que inicia uma ação, a causa primeira, o agente motivador.
Quando examinamos quem Cristo é no restante do Apocalipse e em todo o Novo Testamento, o sentido ativo é o único compatível: Cristo não é o início da criação porque está dentro dela, mas porque é a Causa pela qual ela existe. Ele é o Princípio da criação no mesmo sentido em que Deus é Princípio de tudo, como agente soberano, não como primeiro produto. Cristo é a fonte de tudo o que existe.
Análise gramatical do genitivo τῆς κτίσεως
A construção ἀρχὴ τῆς κτίσεως contém um genitivo que pode ser interpretado de dois modos: (1) genitivo objetivo, em que Cristo seria o primeiro membro dentro da criação; (2) ou genitivo de fonte, em que Cristo é a Origem da qual a criação emana, seu Criador e Senhor soberano. A interpretação adotada pelos antitrinitários é a primeira, onde o genitivo “da criação” situa Cristo dentro dela como sua primeira criatura, sendo Ele depois utilizado por Deus como instrumento pelo qual todas as demais coisas viriam a existir.
O problema dessa distinção é que ela é gramaticalmente artificial. O mesmo tipo de construção aparece em Colossenses 1:15 — πρωτότοκος πάσης κτίσεως, “primogênito de toda a criação” — e o próprio Paulo, nos versículos seguintes, demonstra que esse genitivo indica domínio soberano sobre a criação, não pertencimento a ela: “pois nele foram criadas todas as coisas” (v.16) e “ele é antes de todas as coisas” (v.17).
Se Ele existe antes de tudo ser criado e nEle foram criadas todas as coisas, logo Ele próprio não pode ter sido criado. Portanto, se o genitivo “da criação” em Colossenses não coloca Cristo dentro dela, não há razão exegética para que o faça em Apocalipse. A Bíblia não pode se contradizer. Lembre-se disso.
Embora o termo “primogênito” também signifique primeiro filho ou primeiro ser criado, o uso bíblico desse termo — πρωτότοκος, “primogênito” — confirma também o seu uso com o sentido de preeminência soberana, como é o caso de Colossenses 1:15. Por exemplo, em Êxodo 4:22, Israel inteiro é chamado de “primogênito” de Deus. Em Salmos 89:27, Deus constitui Davi “primogênito, o mais exaltado dos reis da terra”, e Davi certamente não era o filho biológico mais velho de Jessé. Em todos esses casos, o que está em jogo é posição de supremacia e direito soberano, não ordem de nascimento.
Portanto, Cristo é o “Primogênito de toda a criação” não por ter sido o primeiro ser criado, mas porque tem autoridade absoluta sobre ela, sendo seu Criador e governante. Ele é o Primogênito porque é o primeiro em importância.
O argumento que o antitrinitário raramente consegue responder
Há um dado interno ao próprio livro de Apocalipse que desfaz completamente a interpretação antitrinitária e que, curiosamente, é o menos discutido nas apologias populares. Trata-se do uso do mesmo título ἀρχή aplicado ao próprio Deus Pai:
“Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor Deus, aquele que é, que era e que há de vir, o Todo-Poderoso.” (Apocalipse 1:8)
“Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim.” (Apocalipse 21:6 — Deus Pai falando)
“Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim.” (Apocalipse 22:13)
Em Apocalipse 21:6, é Deus Pai quem declara ser ἡ ἀρχή, exatamente o mesmo título atribuído a Cristo em Apocalipse 3:14. A pergunta é simples e não tem resposta satisfatória dentro da lógica antitrinitária: se ἀρχή significa “primeira criatura”, Deus Pai também foi criado? Obviamente não. E se o título não torna Deus Pai uma criatura ao recebê-lo, ele também não pode tornar Cristo uma criatura.
O uso interno do termo no Apocalipse é a prova mais imediata e direta de que, para João, ἀρχή é consistentemente um título de soberania absoluta e origem de toda a realidade, nunca de posição dentro de uma hierarquia de seres criados. Para sustentar dois sentidos opostos para o mesmo termo no mesmo livro, sem qualquer sinalização contextual, o antitrinitário precisaria demonstrar que João escreve de forma deliberadamente contraditória. Nenhum princípio hermenêutico sério admitiria isso.
| Passagem | Aplicado a | Implicação antitrinitária |
| Ap 3:14 | Jesus Cristo | “Cristo foi criado” |
| Ap 21:6 | Deus Pai (“o Todo-Poderoso”) | “Deus Pai também foi criado”? — Absurdo que refuta a premissa |
| Ap 22:13 | O Primeiro e o Último | O mesmo título, o mesmo Autor, o mesmo livro — impossível ter dois sentidos opostos sem evidência textual |
O título “Amém”— Um nome divino do Antigo Testamento
Outro detalhe em Apocalipse 3:14 que frequentemente passa batido na discussão sobre ἀρχή, mas que é igualmente revelador é este: Cristo recebe o título de “o Amém”. Esse não é um título genérico qualquer, usado apenas para ficar bonitinho no texto. Esse título é uma referência direta ao uso divino do termo em Isaías 65:16, onde, no texto hebraico, Deus é chamado de “Elohe Amen“, isto é, o Deus da fidelidade absoluta e da verdade última.
Em outras palavras, João está atribuindo a Cristo um título que, no Antigo Testamento, pertencia exclusivamente a YHWH. Não é o título de uma criatura exaltada. É um dos nomes do Deus Todo-Poderoso de Israel. Combinado com “Testemunha fiel e verdadeira” (eco de Ap 1:5, onde esse mesmo título aparece ligado à ressurreição e à soberania), o retrato que emerge é o de um ser que não apenas fala em nome de Deus, mas que é Deus falando.
O contexto de Laodiceia e o que ele revela sobre o título
Laodiceia ficava no vale do rio Lico, entre Colossos e Hierápolis. Era uma cidade comercialmente próspera, e seu abastecimento de água vinha de fontes termais que chegavam por aquedutos. Durante o percurso, a água esfriava, tornando-se morna, inútil tanto para curar quanto para refrescar. Essa é a metáfora central da carta: a igreja era espiritualmente morna, autocomplacente, incapaz de perceber sua própria pobreza.
Assim, é precisamente nesse contexto que Cristo se apresenta com um título de autoridade máxima. Perceba a lógica pastoral da carta: Ele não se apresenta como “a primeira criatura que Deus fez”. Esse seria um argumento pastoral fraco e teologicamente irrelevante para uma repreensão tão grave. Ele se apresenta como a Origem de toda a criação, o Amém, Deus eterno, a Testemunha que não pode errar. É a partir dessa autoridade absoluta que Sua avaliação sobre a igreja é definitiva e inapeliável. O peso do título é o peso da autoridade divina, não de uma posição hierárquica entre criaturas.
O que o restante do Novo Testamento confirma
João 1:1-3 — A contradição lógica do Cristo criado
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez.” (João 1:1-3)
João escolhe suas palavras com precisão cirúrgica. Para o Logos, ele usa o verbo no imperfeito ἦν (ēn, “era”), existência contínua, sem ponto de início. Para a criação, usa o aoristo ἐγένετο (egéneto, “veio a ser”), evento pontual no tempo. A distinção é puramente teológica. Enquanto a criação veio a ser, o Verbo simplesmente era, sem começo descrito porque não há começo a descrever.
Sendo assim, a conclusão lógica e lúcida a que chegamos é inescapável: se Cristo criou “todas as coisas” e “sem ele nada do que foi feito se fez”, então Ele não pode estar incluído no conjunto do que foi feito. Uma criatura não pode ser a causa de si mesma. O antitrinitário que usa Apocalipse 3:14 para colocar Cristo dentro da criação tem de responder como o Criador de absolutamente tudo pode ser parte do que criou, e essa resposta não existe sem contradição lógica.
Vale ainda responder diretamente à tradução da Nova Tradução do Mundo, usada pelas Testemunhas de Jeová, que renderiza João 1:1 como “o Verbo era um deus”. Em grego, a ausência de artigo antes de θεός (theós) no predicado não indica indefinição, mas qualidade essencial — a chamada regra de Colwell demonstra que predicados no nominativo que antecedem o verbo são normalmente definidos mesmo sem artigo.
Os maiores especialistas em crítica textual do Novo Testamento, como o Dr. Bruce Metzger, e praticamente toda a comunidade acadêmica de estudos do grego koinê rejeitam essa tradução como motivada por pressuposto teológico, não por gramática.
Quanto à distinção entre Pai e Filho, ela é real. Entretanto, distinção de Pessoas não é subordinação de natureza. João afirma ao mesmo tempo que o Verbo “estava com Deus” (distinção pessoal) e “era Deus” (identidade de natureza). Ao contrário do que pensam, essas afirmações não são contraditórias, mas complementares.
Filipenses 2:6 — O texto que os antitrinitários evitam
“…o qual, subsistindo em forma de Deus, não considerou como usurpação ser igual a Deus.” (Filipenses 2:6)
Este texto raramente é enfrentado com honestidade pelo antitrinitarismo, e há uma razão para isso: ele é difícil de responder. Paulo afirma que Cristo subsistia em “forma de Deus” (morphē theou). O termo morphē, em grego, não designa aparência externa ou semelhança superficial, mas a natureza essencial e constitutiva de um ser.
Paulo vai além: ser “igual a Deus” (isa theō) não seria uma usurpação da parte de Cristo. Mas por que não? Porque Ele já era Deus por natureza. Uma criatura que reivindicasse igualdade com Deus estaria tentando algo impossível. A natureza divina não pode ser incutida em seres criados, nem ser “reivindicada” por eles. Somente Deus, que é eterno e autoexistente, a possui, pois ela é parte do que Ele é.
Dessa forma, o argumento de Paulo pressupõe que Cristo é Deus por natureza — não por concessão, adoção ou criação. Como afirma Ellen White: “Em Cristo há vida original, não emprestada, não derivada”.
Apesar de este ser um texto difícil de engolir para os antitrinitários, isso não significa que eles não possuam uma réplica. O contra-argumento geralmente consiste em dizer: “Mas Filipenses 2:6 diz que Cristo ‘não considerou como usurpação’, o que significa que Ele abriu mão de algo que tinha. Isso provaria que havia um tempo antes da encarnação em que Ele era inferior ao Pai”.
Entretanto, o problema dessa interpretação é que ela distorce o argumento de Paulo. O apóstolo não está dizendo que Cristo perdeu ou abriu mão de sua divindade. O argumento retórico vai na direção oposta: Cristo, sendo plenamente Deus, escolheu voluntariamente assumir a condição de servo. Isso não prova inferioridade ontológica; prova uma humildade extraordinária.
Para entender melhor a “lógica” desse argumento antitrinitário, seria como dizer que um rei, ao lavar os pés de seus servos, “prova” que não é rei. Captou a referência?
Hebreus 1 — O Pai chama o Filho de “Ó Deus”
“…mas do Filho diz: O teu trono, ó Deus, subsiste pelos séculos dos séculos… E: Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, e os céus são obra das tuas mãos.” (Hebreus 1:8,10)
O autor de Hebreus cita o Salmo 45:6 e o Salmo 102:25 aplicando-os diretamente ao Filho. No Salmo 102, é YHWH quem fundou a terra e os céus. Em Hebreus 1:10, esse mesmo ato criador é atribuído ao Filho. Não há como escapar da conclusão: o autor inspirado identifica o Filho com o Deus criador do Antigo Testamento.
E mais: é o Pai quem dirige ao Filho as palavras “ó Deus” (v.8). Se o próprio Pai chama o Filho de Deus e atribui a Ele a criação dos céus e da terra — ação que em todo o Antigo Testamento pertence exclusivamente a YHWH —, então a categoria de “criatura exaltada” simplesmente não se sustenta.
Portanto, ao atribuir ao Filho as prerrogativas de YHWH no Salmo 102, o autor de Hebreus não deixa margem para o subordinacionismo ontológico. Se as mãos que fundaram os céus são as mãos de Jesus, Ele não pode ser parte da obra; Ele é o autor dela, possuindo a mesma dignidade e eternidade do Pai.
João 8:58 — A eternidade de Jesus
“Em verdade, em verdade vos digo: antes que Abraão existisse, eu sou.” (João 8:58)
Jesus não usou a expressão no passado, ele não disse: “eu era antes de Abraão”. Usou o presente eterno ἐγώ εἰμι — o mesmo nome divino de Êxodo 3:14 (ἐγώ εἰμι ὁ ὤν, “Eu sou o que sou”). A reação dos judeus foi imediata: tentaram apedrejá-Lo por blasfêmia, pois entenderam perfeitamente que Ele estava reivindicando ser o próprio YHWH. A preexistência de Cristo não é temporal, como a de um anjo antigo. mas ontologicamente eterna: Ele existe fora do tempo porque é anterior ao próprio tempo.
A impossibilidade lógica de um Cristo criado
João 1:3 afirma claramente que “sem ele nada do que foi feito se fez”. Isso inclui o próprio tempo. O universo é um continuum inseparável de espaço, tempo e matéria: retire qualquer um dos três e os outros dois deixam de existir. Se não há tempo, não há quando; se não há espaço, não há onde; se não há matéria, não há o quê. Os três vêm à existência simultaneamente, e Cristo criou os três.
Ora, se Cristo criou o tempo, Ele existe fora do tempo. A afirmação ariana clássica — “houve um tempo em que o Filho não existia” — é um absurdo lógico: para que houvesse esse suposto momento de inexistência, o tempo já teria de existir. Mas se o tempo existe, Cristo o criou. Portanto, não há “antes de Cristo”, há apenas Cristo, e o que Ele criou.
Um Ser que criou o tempo não pode ser um produto do tempo. A premissa antitrinitária destrói a si mesma pela própria lógica de João 1:3.
“O Concílio de Niceia inventou a Trindade” — Resposta à narrativa revisionista
Uma das estratégias favoritas dos grupos antitrinitários é afirmar que a divindade de Cristo foi uma invenção política do Concílio de Niceia (325 d.C.), como se antes dele o arianismo fosse o ensino dominante da Igreja. Essa narrativa é historicamente imprecisa em pontos fundamentais.
Primeiro: o próprio fato de esse concílio ter sido convocado para responder a Ário demonstra que a posição ariana era percebida como uma novidade perturbadora, e não como a preservação do ensino original. Ário foi o inovador; os bispos em Niceia confrontaram essa novidade com o que havia sido transmitido desde os apóstolos. Não se convoca um concílio de toda a Igreja para defender o que é o senso comum teológico, mas para rejeitar o que é novo e problemático.
Segundo: os escritores cristãos do segundo e terceiro séculos — todos anteriores a Niceia — já afirmavam a divindade plena de Cristo de forma inequívoca. Inácio de Antioquia, por volta de 110 d.C., chamava Cristo de “nosso Deus”. Justino Mártir (c. 155 d.C.) descrevia o Filho como o Logos eterno de Deus. Ireneu de Lyon (c. 180 d.C.) defendia a unidade de natureza entre Pai e Filho. Nada foi “inventado” em Niceia; o que ocorreu foi a formalização, em linguagem conciliar, do que a Igreja já confessava desde o princípio.
No entanto, a réplica antitrinitária comum é que esses mesmos pais pré-nicenos, por vezes, descreviam o Filho como subordinado ao Pai, o que provaria que o arianismo estaria mais próximo do ensino original. Mas há uma distinção crucial que essa objeção ignora: subordinação funcional e subordinação ontológica são realidades completamente diferentes.
Os pais pré-nicenos descrevem o Filho como enviado pelo Pai, obediente ao Pai e procedente do Pai — isso é subordinação funcional, ligada à “economia da salvação” e às relações de missão dentro da Trindade. Isso, de modo algum, implica inferioridade de natureza. O próprio Credo Niceno distingue as duas coisas: o Filho é “da mesma essência” (homoousios) que o Pai, igualdade ontológica. Ou seja, tudo o que o Pai é, o Filho também é. Assim, se o Pai é eterno e não criado, o Filho, por possuir a mesma natureza, necessariamente também o é.
Por que o argumento antitrinitário falha em todos os níveis?
Falácia da etimologia seletiva
Selecionar apenas um dos sentidos de ἀρχή (arkhḗ) — o de “início temporal dentro de uma série” — e aplicá-lo como se fosse o único possível, ignorando os demais sentidos amplamente atestados e o uso interno do próprio livro de Apocalipse, é uma falácia de equivocação. A exegese honesta exige que o sentido seja determinado pelo contexto, não pelo pressuposto teológico ou pelo gosto pessoal.
Violação da coerência interna do Apocalipse
Atribuir a ἀρχή (arkhḗ) em Apocalipse 3:14 um sentido radicalmente diferente do que o mesmo termo carrega em Apocalipse 21:6 e 22:13, no mesmo livro, pelo mesmo autor, sem qualquer sinalização contextual, viola o princípio básico da hermenêutica: um autor é consistente no uso de seus termos-chave.
Contradição Interna com João 1:3
Se Cristo é uma criatura, Ele está incluído no conjunto “das coisas que foram feitas”. Mas João diz que “sem ele nada do que foi feito se fez”, o que torna Cristo a causa de tudo o que existe, incluindo a si mesmo, se ele fosse criado. Isso é logicamente impossível.
Ignorar Filipenses 2:6 e Hebreus 1
O argumento antitrinitário raramente enfrenta Filipenses 2:6 de frente (onde Paulo afirma que ser igual a Deus não seria usurpação para Cristo) nem Hebreus 1:8-10 (onde o Pai chama o Filho de “Deus” e lhe atribui a criação dos céus e da terra). Esses textos precisam ser respondidos — e não o são de forma satisfatória.
Conclusão
Quando o texto grego, o contexto do livro, a lógica interna do argumento e o testemunho convergente do Novo Testamento são levados a sério, Apocalipse 3:14 deixa de ser um problema para a cristologia ortodoxa e torna-se exatamente o oposto: uma proclamação da soberania eterna de Cristo sobre toda a criação.
As conclusões são as seguintes:
- ἀρχή (arkhḗ): No Apocalipse, este termo nunca carrega o sentido de “primeira criatura”. É consistentemente um título de soberania, origem e autoridade absoluta, como demonstra o uso do termo aplicado ao próprio Deus Pai em Ap 21:6 e 22:13.
- O Genitivo “da criação”: Em Ap 3:14, o genitivo indica domínio soberano sobre a criação, não pertencimento a ela, exatamente como em Colossenses 1:15, onde o contexto imediato prova que Cristo está acima da criação, e não inserido nela.
- O Título “Amém”: Deriva do nome divino de YHWH em Isaías 65:16, confirmando que Cristo recebe predicados exclusivos do Deus de Israel.
- João 1:3: Torna logicamente impossível que Cristo seja uma criatura. O Criador de todas as coisas, incluindo o próprio tempo, não pode ser um produto daquilo que criou.
- Colossenses 1:15-17: Utiliza “Primogênito” como título de preeminência soberana, atribuindo a Cristo a criação de “todas as coisas”.
- Filipenses 2:6: Demonstra que a igualdade de Cristo com Deus não era uma usurpação, o que só faz sentido se essa igualdade já Lhe pertencia por natureza.
- Hebreus 1:8, 10: Registra o próprio Pai chamando o Filho de “Deus” e atribuindo a Ele a criação dos céus e da terra, prerrogativa exclusiva de YHWH no Antigo Testamento.
- História: Niceia não inventou a divindade de Cristo; ela a defendeu contra a inovação ariana, fundamentando-se no ensino apostólico e nos escritos dos séculos II e III.
“Pois nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade.” (Colossenses 2:9)
Cristo não é o “princípio da criação” por ter sido a primeira coisa a surgir dentro dela. Ele é o Princípio da criação porque toda a existência tem nEle sua origem, sua sustentação e sua finalidade. Ele é o Amém eterno — não uma criatura que testifica sobre Deus, mas o próprio Deus que testifica sobre Si mesmo.
Que Deus o abençoe hoje e sempre!
Referências Bibliográficas
Léxicos e Ferramentas Gramaticais
BDAG — BAER, W.; DANKER, F. W.; ARNDT, W. F.; GINGRICH, F. W. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature. 3. ed. Chicago: University of Chicago Press, 2001.
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METZGER, Bruce M. A Textual Commentary on the Greek New Testament. 4ª ed. United Bible Societies, 2006.
Comentários
CBA — Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia. Vol. 7. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2014.
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Fontes Primárias (Patrística)
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IRENEU DE LYON. Contra as Heresias. c. 180 d.C. São Paulo: Fonte Editorial, 2021. (Coleção Patrística).
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